segunda-feira, março 20, 2017

UMA SENTENÇA QUE CRIMINALIZA A FILATELIA

Coleccionam-se selos, possuem-se colecções temáticas ou gerais de um certo valor e de grande interesse. Enfim, a paixão pela coleccionação de selos abrange milhões de pessoas. Na Itália, por exemplo, o valor das transacções comerciais filatélicas anda à volta de 120 milhões de euros por ano.

No dia 18/03/2017, o jornal La Stampa informou que a um comerciante filatélico dos arrabaldes de Turim “foi sequestrada a inteira provisão de correspondência em depósito”.
“Os carabineiros do Núcleo Tutela Património Cultural devem identificar os documentos, um por um, e estabelecer em qual arquivo colocá-los”.
Qual a razão?

Numa sentença do tribunal de Turim, o Sr. Dr. Juiz Roberto Arata, baseado no Decreto-lei que, grosso modo, estabelece o princípio que os documentos endereçados a uma qualquer entidade pública, incluindo entidades eclesiásticas, são bens culturais inalienáveis. Logo, os envelopes devidamente selados, desde 1840, e dentro dos quais esses documentos viajaram, embora descartáveis e atirados para o cesto dos papéis destinados ao lixo, permanecem inalienáveis

Precisamente para melhor esclarecer esta abstrusidade, um ministro dos Bens Culturais, com uma circular da Direcção-geral para os arquivos, esclarecia que os envelopes, contrariamente aos documentos que encerravam, não podem ser considerados documentos merecedores de tutela.

O tribunal de Turim, porém, mandou para as urtigas esta interpretação e defendeu que tudo o que é posto de lado, ou melhor, deitado fora, tem de ser destruído imediatamente; não o sendo, mas colocado igualmente no cesto do lixo, é sempre um bem público.
Pergunta-se: Neste caso, é um bem público porque os selos foram valorizados?
Se não valessem nada e os envelopes tivessem sido recolhidos apenas por atracção das figurinhas aí coladas, o Sr. Dr. Juiz dar-lhes-ia a mesma atenção, ordenando o sequestro? Acho que são perguntas aceitáveis.

Certamente que existem documentos necessariamente conservados nos envelopes de origem e estes sobrescritos, como é óbvio, têm a mesma oficialidade que os documentos que encerram. Todavia, se estes mesmos envelopes merecerem a atenção da justiça, devem existir provas que são objecto de um furto.

Conselho (irónico?) do jornal La Repubblica: “Restituí os selos ao Estado, se o envelope onde estão colados era dirigido a uma entidade pública”.
Quantas colecções, organizadas em boa-fé com paciência, paixão e altos investimentos, seriam lesadas? O Estado, em tais situações, não se sentiria um larápio do coleccionador desinformado deste autêntico disparate ou ambiguamente informado?
O bom senso tem muita dificuldade a compreender estas e outras situações similares. As perplexidades aumentam, perante uma sentença deste género.  

Transcrevo o que o senador Carlo Giovanardi, apaixonado filatelista, declarou sobre este facto:
“Uma burocracia obtusa e arrogante, juntamente com intervenções abruptas da Magistratura, restringem, vergonhosamente, os espaços de liberdade no nosso País, mesmo as que dizem respeito às mais inocentes paixões de milhões de cidadãos coleccionadores. Peço ao Ministro Franceschini (Ministro dos Bens e Actividades Culturais e de Turismo) que intervenha com urgência, a fim de evitar perquisições, sequestros e procedimentos penais aos quais, baseados na sentença de Turim, pode estar exposta qualquer pessoa que possua uma colecção da história postal”.
Perfeitamente de acordo, senador Giovanardi.

segunda-feira, março 13, 2017

CASOS DA SEMANA

Através do que lemos e o que as notícias audiovisuais nos vão transmitindo, o conhecimento dos eventos diários, como de norma, avoluma-se: uns de características normais; outros que escapam à normalidade.

Olho para a Turquia e, mais uma vez, avalio com antipatia e uma certa repulsa a actividade política, nacional e internacional, do seu presidente, Recep Erdogan.
Aspirante a presidente incontestado de uma nova espécie de sultanado, não se conforma nem aceita os obstáculos que se interpõem às suas ambições totalitárias. Porém, esqueceu-se que não lhe é permitido interferir, sobretudo com sobranceria, nos países europeus, apesar de aqui residirem cerca de cinco milhões e meio de cidadãos turcos.

O Sr. Erdogan convocou um referendo para o próximo 16 de Abril cujo “sim” reforçará os poderes presidenciais. Obviamente, quer que a comunidade turca na Europa vote a favor, portanto, enviou ministros para comícios eleitorais onde essas comunidades são maiores. Alemanha, Áustria, Suíça e Holanda não os permitiram, “por questões de segurança”.

 O ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Cavusoglu, todavia, decidiu ir a Roterdão, apesar de proibição do comício pelo Governo holandês. Com arrogância, advertiu: “Se não me permitirem aterrar, as sanções contra a Holanda serão duras”.
Mas a aterragem do voo de Estado do Ministro Cavusoglu não foi permitida.
De Ancara, a reacção do presidente Erdogan foi imediata. Além de proferir ameaças, classificou os holandeses como “resíduos nazis e fascistas”, acrescentando: “Agora não se pode considerar a Holanda como um aliado”.

Normalmente, certos atritos ou incompreensões entre países procuram resolver-se através das normas diplomáticas, o que é sempre aconselhável. Tais normas, porém, tornam-se difíceis ou nulas, quando predomina a arrogância. Mas Erdogan, com certeza, nunca aprendeu que a soberania de um outro Estado deve ser, sempre, respeitada.
Mas deixemos a arrogância de estadistas desprovidos de inteligência crítica e passemos a temas que enternecem.

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“Cão regressa ao canil com uma carta de recomendação da menina que tanto o tinha amado” – título da história, verdadeira.

Um bóxer de três anos, em Setembro passado foi adoptado por uma família com quatro filhos ainda crianças. Decorridos alguns meses, o cão, a quem deram o nome de Rhino, regressou ao refúgio (Humane Sociaety of Utah). Como motivo da restituição, o cão era demasiado barulhento para os filhos pequenos.

Para a filha mais novinha, todavia, não foi uma decisão fácil de aceitar. Junto com Rhino, a menina entregou um pequeno caderno de molas. Ficaram surpreendidos, mas a surpresa foi ainda maior quando leram a carta que a menina ali escrevera:
Olá, se estás a ler isto, ficas a saber que é necessário encontrar uma nova casa ao Rhino, imediatamente. Foi o meu cachorro. Espero, sinceramente, que encontre um bom sítio onde estar. Sentirei tantíssimo a sua falta. Queria que soubesses que é verdadeiramente um bonito cachorro”.

A carta continuava, dando uma série de instruções e conselhos para os novos patrões: “Diz-lhes que devem fazê-lo correr pelo menos duas ou três vezes por dia; dar-lhe banho uma vez por mês; dar-lhe um monte de atenção.
Rhino é um cachorro muito inteligente. Ele ama as pessoas, mas odeia as cerimónias. Se começar a ladrar como um tolo, então deves só armar-te de tanta paciência”. Gosta de dormir debaixo das cobertas”. Não lhe mudes o nome. Ele chama-se Rhino Lightning….
Rhino é um sonho às tiras. As suas bochechas fazem um saco de baba. Peço-te para lhe dizeres que o amo e que me faltará todas as noites”

Rhino ficou no canil apenas uma semana. Passado este tempo, foi adoptado por outra família, a qual levou o boxer e o caderno com todas as recomendações da menina que teve de o ceder. A mesma família procura respeitar todas essas recomendações e conselhos e manteve o nome Rhino. Acharam a carta da menina verdadeiramente encantadora.

segunda-feira, março 06, 2017

PRECONCEITOS OU ESCASSEZ DE MASSA CINZENTA?

Aliás, se os preconceitos permanecem, embora a evolução dos tempos ilumine e transforme certas posições sociais atávicas, significa pouca inteligência ou um atraso lamentável sob o ponto de vista educativo e intelectual.
Vem isto a propósito do comentário de um eurodeputado polaco sobre a “inferioridade das mulheres”. O caso foi amplamente noticiado e as palavras deste indivíduo ecoaram em toda a Europa.
Nada de anormal, tratando-se do mesmo sujeito que define os imigrados como “estrume humano que não têm vontade de trabalhar”; mais, querendo absolver o seu herói do passado, afirma que “Hitler não tinha conhecimento do Holocausto”.   

Mas voltando ao que exprimiu, um jornal italiano classificou esse comentário como “palavras delirantes”. E se entramos no domínio do delírio, que mais poderemos dizer?
Ainda podemos dizer muito. Serão palavras delirantes, mas retratam uma maneira de pensar muito comum nos tempos actuais.

Então, delirantemente, diz o Sr. Eurodeputado polaco, Janusz Korwin-Mikke:
É justo que as mulheres ganhem menos do que os homens: porque são mais débeis, mais pequenas e menos inteligentes”.
Pobres mulheres! Débeis, pequenas e pouco inteligentes! E como mulher pouco inteligente, pergunto-me: aonde iremos parar?

Dando livre saída aos meus instintos – portanto, não refreados – iria parar ao Parlamento Europeu, aproximar-me-ia do Janusz Korwin-Mikke e pespegar-lhe-ia um sonoro par de bofetadas.
Nada de violências, ademais tratando-se de uma débil mulher. Somente uma demonstração pública do género, que inferior não é, não tolera que imbecis como este representem, no Parlamento Europeu, um qualquer país-membro da União.

A Polónia deveria envergonhar-se de ser representada por cidadãos eivados de prejulgamentos inadmissíveis em qualquer país civilizado. Ou será que o fundamentalismo religioso revigora os costumes tradicionais, portanto, nada de condenável em tais modos de pensar? Não creio. Aqui trata-se de pura estupidez individual.

Deveriam ponderar bem - polacos e demais europeus - quem devem eleger para aquela instituição. Não somente demonstrariam respeito pela União Europeia como, de consequência, os eleitos, digna e competentemente, melhor saberiam representar e defender, no Parlamento Europeu, os interesses da União e do próprio país.

Nota-se, porém, e não é caso raro, que ser proposto como candidato ao Parlamento Europeu, por vezes significa um prémio ou uma espécie de reparação política. Recordo, nos famigerados tempos de Berlusconi, que este fez eleger, como eurodeputada, uma conhecida cançonetista cuja preparação e competência políticas eram próximas do zero.
Também, frequentemente, vários eurodeputados distinguem-se pelas raras viagens a Bruxelas. Aplausos, todavia, a quem é eleito e ocupa o seu cargo de eurodeputado com consciência, interesse e competência; penso que estes constituam a maioria. 

segunda-feira, fevereiro 27, 2017

 ENTRE A INSENSATEZ E DESPAUTÉRIOS

E assim vivemos no mundo actual: a insensatez predomina; os despautérios são expressos com a máxima naturalidade e em posições onde seriam exigidos equilíbrio e bom senso. 
Mas o equilíbrio e bom senso quem os viu? Será que se tornaram apanágio exclusivo do cidadão comum e desertaram dos centros de poder ou de entidades responsáveis?

Nestes últimos dias, olho para a Itália e vejo o partido mais votado e partido de governo, o Partido Democrático (PD), em lutas intestinas.
Matteo Renzi, o secretário do partido e ex-primeiro-ministro, tornou-se o pomo da discórdia. Justa ou injustamente? Dada a sua apetência pelo egocentrismo – e talvez um pouco de egolatria - certamente que irrita muitos colegas, sobretudo da velha guarda. Houve cisões, sucedeu o que mais se temia, isto é, secessões no partido.

Eram inevitáveis? Não creio. Um pouco mais de humildade e poder dialogante do Sr. Renzi, creio que atenuariam discórdias e secessionismos latentes. Paralelamente, os que se afastaram tudo deveriam ter feito para manter o partido íntegro. Assim, eis o resultado de uma grande ausência: o bem senso.

Se virarmos agora a atenção para o outro lado do Atlântico, impõe-se a América de Trump e, aqui, a insensatez bate todos os recordes. E não só a falta de bom senso, mas o despautério (disparate grande, contra-senso, desconchavo) tornou-se moeda corrente. Quando aquele homem (o Sr Presidente dos Estados Unidos) abre boca, torna-se forçoso recorrer ao velho ditado: “… ou entra mosca ou sai asneira”. Mas como às moscas, ali, não é permitido habitar, desgraçadamente sai asneira.
Aumentar o arsenal nuclear para fazer dos Estados Unidos o país mais potente entre todas as nações que possuem a atómica. Os Estados Unidos não cederão a supremacia sobre os armamentos”.
Arrepiante ouvir estes desconchavos. Aonde podem conduzir? Ademais, tudo isto soa como provocações a outros países, como a Rússia. É salutar para a paz mundial?

A maioria do povo americano está surda? Na Califórnia ”sonha-se a secessão da América de Trump”. Algo quase impossível, mas as demonstrações contra um presidente, tão mal escolhido, sucedem-se.

A piorar a situação, este mesmo presidente resolveu declarar guerra aos meios de comunicação que ousem ocupar-se de factos ou de notícias que o coloquem sob luz negativa. Não contesta com a verdade ou esclarecimentos objectivos. Como tem demonstrado grande facilidade em dizer mentiras, é com grande naturalidade que Mr. Trump não hesita em chamar mentirosos aos outros; neste caso, aos jornalistas. E não hesitou em excluir correspondentes de vários meios de comunicação de referência, como CNN, BBC, New York Times e outros, da conferência de imprensa na Casa Branca.
Uma decisão que ultrapassa o admissível. Tanto mais, no país onde, praticamente, sempre reinou a democracia. Insisto: o povo americano aceita este desafio sem precedentes e não reage?

Mas deixemos Trump aos seus desvarios. Quiseram-no como presidente? Não penso que a América mereça um incompetente daquele jaez, mas aturem-no e procurem limitar, dentro da legalidade, os desconchavos que, no dia-a-dia, vai exteriorizando. 

segunda-feira, fevereiro 20, 2017

“OS TERRORISTAS NÃO VÃO PARA O PARAÍSO”

Tahar Ben Jelloun

Já não é a primeira vez que, neste blogue, dedico o meu texto ao escritor marroquino que vive em França, Tahar Ben Jelloun.
Se antes aludi ao livro deste autor, “O racismo explicado à minha filha”, hoje traduzo a mensagem que Ben Jelloun endereçou às crianças sobre o terrorismo islâmico (publicada no jornal italiano La Stampa).

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 Quero explicar que o Islão não predica violência e que esta mensagem deve chegar às escolas dos nossos filhos.

Após o dia 13 de Novembro 2015, a noite da tragédia do Bataclan que fechou com 130 mortos e 413 feridos, pensei nas famílias que perderam os seus entes queridos. Para além da dor e do luto, para além do horror, disse a mim mesmo: «um pai como poderá explicar ao filho que a sua irmã ou o seu irmão morreu, indo a um concerto? Como enfrentar o tema do terrorismo e dos que o praticam, os terroristas? Como escolher as palavras adequadas e dizer a verdade?

Reflectindo sobre o assunto, concluí que o terrorismo não é um fenómeno novo. Existiu desde sempre e foi utilizado como arma de chantagem para difundir o medo e o pânico. Por este motivo, contei a história do terrorismo, a partir da revolução francesa até aos nossos dias.
Os actores e as motivações mudam, mas os métodos são sempre os mesmos, embora actualmente com qualquer coisa de novo: o recurso aos media às redes sociais network que fazem viver os eventos no imediato e em directa.

Às crianças é necessário dizer a verdade. Mentir, escondendo-lhes a realidade dos factos com receio de transtorná-las ou de traumatizá-las é uma escolha errada. Cedo ou tarde, a verdade chegar-lhes-á. Logo, é melhor prepará-las no momento em que as coisas acontecem. Acabou o tempo no qual as crianças eram protegidas, sinónimo de doçura e alegria. Hoje, imagens de todos os tipos invadem o nosso espaço, seja na rua ou em casa, na televisão ou no ecrã do nosso computador. A Internet vem procurar-nos e encontra-nos. As novas tecnologias abalaram a percepção do mundo e confundiram-na com o virtual, acabando por tomar o lugar da realidade.

Tudo isto os terroristas do Estado Islâmico sabem-no bem e exploram-no com eficácia. As coisas mais difíceis de explicar às crianças, quando se fala de terrorismo, são as motivações destas pessoas. Como fazer compreender a uma criança que o instinto de vida e de conservação se transforma em instinto de morte? Como expor-lhes o famoso «paraíso» que os terroristas apresentam aos jovens que recrutam para a Jihad?

Apercebi-me que era preciso recuar às origens do Islão e reconstruir como algumas pessoas interpretam a palavra de Deus. As crianças, todavia, não podem absorver todas estas informações históricas. É necessário simplificar, tornar claro o que é complexo, ir ao essencial. Dizer-lhes, por exemplo, que as religiões, frequentemente, foram utilizadas pela gente por razões erradas. Pode-se fazer dizer às religiões o que se quer. No livro, a este propósito, dou alguns exemplos para cada uma das três religiões monoteístas. Deve-se evitar que as crianças sobreponham Islão e terrorismo e recordar-lhes um verseto importante do Corão: «Aquele que mata um inocente mata a humanidade inteira».

Iniciei a escrever este livro depois de ter explicado o racismo e, num segundo tempo, o Islão. Fiz um trabalho pedagógico preciso, feito de verificações e num estilo que estivesse ao alcance de todos.
Estas experiências levaram-me a centenas de escolas no mundo, onde estes livros foram traduzidos. Apercebi-me que todas as crianças se assemelham, seja qual for o lugar de origem. Mais ou menos, todas formulavam as mesmas perguntas.
Quando sucedeu o ataque a Charlie Hebdo e, depois, à loja Kosher em Vincennes, em 07 de Janeiro 2015, não somente senti horror, mas fiquei mesmo sem palavras. Já não sabia mais que dizer, o que fazer. Perdi dois amigos entre os humoristas de Charlie: Wolinski e Cabu que conhecia de há 35 anos. 
“A perturbação e depois a impotência das famílias precipitaram-me num desencorajamento que me desconcertava. Em seguida, novos ataques, em plena Paris, com muitas dezenas de mortos, alguns dos quais de confissão muçulmana. Compreendi a mensagem: os terroristas queriam atacar o estilo de vida dos franceses. Depois de ter «punido» a liberdade de expressão, quiseram matar os que, num sábado à noite, se divertiam. Foi então que decidi ir escavar na história e na psicologia, a fim de compreender – ou, pelo menos, procurar compreender – as origens deste fenómeno que não tem precedentes, nem no Islão nem na história do mundo árabe.

Às crianças que encontrei nas escolas, disse quanto este terrorismo fosse incompreensível e absolutamente injustificável. «E então por que existe?», perguntavam elas.
Sem entrar na filosofia niilista ou na ideologia do sacrifício, procurei demonstrar quanto o que sucede seja difícil de compreender. Em seguida, disse que, na história, frequentemente, houve pessoas que exprimiram a própria revolta contra a sociedade, provocando pânico e morte entre cidadãos inocentes. Expliquei-lhes também quanto o mundo árabe (e muçulmano) seja atravessado por crises profundas e como a maior parte dos governantes não tenha sido democrática nem tenha respeitado os cidadãos.

“Porquê a França, a Bélgica, a Alemanha? Porque ali vivem os filhos dos imigrados, vindo do Magrebe, que não se adaptaram à vida europeia. A cultura escassa, as fragilidades familiares permitiram aos recrutadores da Jihad convencê-los a mudar vida e escolher a morte que lhes garante o ingresso no paraíso, onde serão recompensados pelos seus sacrifícios.
Também lhes dizem: «No Ocidente, na vossa vida não vos realizastes; com a Jihad realizar-vos-eis com a morte e tereis uma vida decididamente melhor»Tahar Ben Jelloun - La Stampa, 16 / 02 / 2017 

segunda-feira, fevereiro 13, 2017

O TEMA QUE SEMPRE DEVERIA CAPTAR
A ATENÇÃO DE TODOS OS PORTUGUESES

Mas o tema a que me refiro navega, e sempre navegou, em pleno mar de indiferença da população portuguesa - obviamente, com as devidas e não poucas excepções - e ainda bem.
No que me concerne, e este blogue é disso testemunha, este é um assunto de grande envolvimento, pois abrange um património nacional que respeito, estudei, estudo e jamais se afastaria do meu interesse e perseverança em cultivá-lo. 
Estou a referir-me ao nosso idioma, a nobre língua portuguesa que foi usada como mercadoria de acordos por aqueles a que chamaram, muito acertadamente, “comerciantes de palavras”, com a ratificação da Assembleia da República.

“O presidente da Academia de Ciências de Lisboa, Artur Anselmo, vai hoje (dia 07 / 02 / 2017) à Comissão Parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto defender que o Acordo ortográfico de 1990 (AO90) deve ser revisto e melhorado e que é possível fazê-lo sem rasgar o tratado internacional que o sustenta…” – jornal Público – Luís Miguel Queirós.

Este tratado internacional abrange a Comunidade dos países de língua portuguesa (CPLP), mas Angola ainda não o ratificou. Que finalidade pretende atingir? Não me falem da unificação linguística, porque esse argumento é capcioso, portanto, digno de desprezo.
 Existem as inevitáveis diferenças linguísticas regionais e nacionais; o português do Brasil é o exemplo cabal deste fenómeno.

Rever e melhorar, mas que partes das anomalias que impuseram, quando se trata, precisamente, de anomalias que abastardaram a origem e evolução desta língua românica que é o português?
Onde esteve, por exemplo, o cuidado com os fenómenos fonéticos do português de Portugal? Cortando as consoantes diacríticas, desprezaram esses fenómenos que caracterizam a nossa pronúncia. É esta uma das facetas que deve ser revista? Resposta: não deve ser revista, mas eliminada. E comecem por aí.

Certamente que a Academia de Ciências de Lisboa não tem a mínima responsabilidade sobre um acordo tão estúpido quanto inexplicável. Como entidade que deveria ter sido ouvida em primeiro lugar, a Academia das Ciências nem sequer foi consultada. Por aqui vemos a arrogância e ignorância da certa classe política que deu plena aprovação a uma iniciativa que nos descaractirizava e diminuía.
E essa arrogância permanece e manifesta-se, embora com amplas excepções.

Exprimo o que muito desejaria fosse possível efectuar-se: o cancelamento do Acordo e deixar a ortografia oficial como era antes deste devaneio linguístico. Na Assembleia da República, se existem os semi-ignorantes da língua materna, que estudem bem a sua origem e evolução. No futuro, seriam poupados ao País e ao seu património ofensas deste género.

segunda-feira, fevereiro 06, 2017

ALARME LÍNGUA ITALIANA:
ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS

Traduzo a notícia lida no jornal La Repubblica – 04 / 02 / 2017 - sobre a carta que 600 docentes universitários enviaram para o Governo italiano, denunciando a “carência linguística dos estudantes”.

Mas sucederá apenas na Itália? Dou um exemplo: escutando o que exprime a nossa classe política que, na sua grande maioria, tem um curso superior, frequentemente somos auditores de algumas calinadas. Quando se trata, então, da aplicação, devida, do presente do conjuntivo, este tempo verbal é sacrificado sem a mínima consideração – “Torna-se urgente que consideramos… “
Mas viremo-nos para a Itália e vejamos o que diz Gerardo Adinolfi sobre este documento invulgar.

Muitos estudantes escrevem mal em italiano; servem intervenções urgentes”. É o conteúdo da carta que mais de 600 docentes universitários, académicos da Crusca*, históricos, filósofos, sociólogos e economistas enviaram ao Governo e ao Parlamento para solicitar «intervenções urgentes», a fim de remediar as carências dos seus estudantes.
“Tornou-se bem claro que, de há muitos anos, no fim do percurso escolar, muitos jovens escrevem mal em italiano, lêem pouco e têm dificuldade a exprimir-se oralmente” – lê-se no documento que partiu do grupo de Florença para a escola do mérito e da responsabilidade. Foi assinado, entre outros, por Ilvo Diamante, Mássimo Cacciari, Carlo Fusano e Paola Mastrocola.

“De há tempos – continua a carta – que os docentes universitários denunciam a carência linguística dos seus estudantes (gramática, sintaxe, léxico), com erros apenas toleráveis no terceiro ano elementar.
Na tentativa de encontrar um remédio, chegaram mesmo a activar cursos de recuperação da língua italiana”.

Segundo os docentes, o sistema escolar não reage em modo apropriado, “visto que o tema da correcção ortográfica e gramatical foi, por longo tempo, desvalorizado sobre o plano didáctico”. 
Existem algumas iniciativas importantes dirigidas à actualização dos professores, mas – faz-se notar – não se vê uma vontade política adequada à gravidade do problema.

Pelo contrário, temos necessidade de uma escola verdadeiramente exigente no controlo das aprendizagens, além de mais eficaz na didáctica, pois de outra maneira nem o empenho dos professores nem a aquisição de novas metodologias seriam suficientes”.

Na carta indica-se, portanto, uma série de pormenorizadas linhas de intervenção para chegar, “no fim do primeiro ciclo de estudos, a um suficiente domínio dos instrumentos linguísticos de base, por parte de uma grande maioria dos estudantes”. (…)

Nos comentários dos docentes a esta carta, lê-se: Cerca de três quartos dos estudantes do curso superior trienal são, de facto, semianalfabetos. É uma tragédia nacional não perceptível pela opinião pública, pela imprensa e, naturalmente, pela classe política …

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*”Academia da Crusca (Accademia della Crusca) é uma instituição italiana que reúne estudiosos e especialistas de linguística e filologia da língua italiana. Representa uma das mais prestigiadas instituições linguísticas de Itália e do mundo”.

Se a nossa Academia das Ciências de Lisboa se equiparasse a esta instituição linguística italiana, jamais teríamos a indecência do famigerado Acordo Ortográfico 1990.