Segunda-feira, Fevereiro 20, 2012

E UM MÁRIO MONTES LUSITANO?

A revista “Time” pergunta se este homem (Mario Monti) pode salvar a Europa (Can this man save Europe?).

Tarefa imane para um único dirigente europeu. Comecemos, todavia, pelos resultados apreciáveis, se não excelentes, da sua acção de governo de uma Itália que afundava, das medidas estruturais, corajosas, que vai efectuando e que o partidarismo sempre protelara.
Paralelamente e mercê da sua estatura de perfeito homem de Estado, impôs a dignidade e importância do seu país na UE e no mundo. As consequências foram imediatas: França e Alemanha moderaram autoritarismos e decisões isoladas, no que concerne os problemas europeus, e concluíram que, de futuro, o primeiro-ministro italiano é o novo e ilustre protagonista com quem devem acertar o passo.

Na quarta-feira passada, Mario Monti proferiu uma alocução no Parlamento Europeu: convite excepcional para o primeiro-ministro de um país que não exercia a presidência de turno da União. Os aplausos foram espontâneos, calorosos e unânimes.

Com o seu proverbial tom pacato, quase monocórdico, disse claramente o que pensava sobre o que até essa data fora feito para suster a crise europeia. Respigo algumas partes.
[…] Estamos, gradualmente, a tirar o nosso país da zona de sombra na qual foi colocado como fonte ou centro de contágio da crise.
[…] Frequentemente, vi governos que se improvisavam acusadores da UE, depois de ter participado nas decisões. Prometi a mim mesmo nunca entrar nesse jogo.
[…] A crise da zona euro fez nascer excessivos ressentimentos, renascer estereótipos e divisões entre países centrais e periféricos.
Na Europa, não existem bons e maus; todos nos devemos sentir co-responsáveis das coisas feitas no passado e, sobretudo, na construção do futuro.

Recordou que foram precisamente dois países centrais, Alemanha e França, que, em 2003, deram origem à superação das regras de estabilidade, “com a cumplicidade da Itália que presidia o ECOFIN”.
[…] Naquela vez, preferiram fazer pressão para quebrar, segundo as próprias conveniências, as regras de respeito pelas contas. A vulnerabilidade, portanto, proveio exactamente daquela parte central da Europa que tinha estabelecido as regras de orçamento.
Mais claro do que isto!...

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Agradar-me-ia e aplaudiria incondicionadamente um primeiro-ministro que se inspirasse neste estadista: competente, atento e resoluto no empenho, tremendo e difícil, de solucionar os problemas que afligem o país, sem cair, todavia, na deselegância de continuamente apontar culpas às administrações precedentes.

Um primeiro-ministro caracterizado por uma forte personalidade e prestígio, o que sempre impõe respeito na governação do país e nos vértices internacionais.

Dotado da capacidade de escolher bons colaboradores. Por exemplo, um Ministro-adjunto ou Ministro dos assuntos parlamentares que se impusesse pela sobriedade das palavras, mas cujo conteúdo inspirasse confiança e demonstrasse indefectível seriedade e competência naquilo para que foi chamado; paralelamente, evitasse de falar do que não diz respeito à especificidade do seu encargo. Ministros verborreicos e omnipresentes são insuportáveis: o faz-tudo é o típico afilhado da ambição e ganância e um previsível inimigo da eficiência.

Precavido contra a voracidade de certos políticos, no que concerne os cargos públicos bem remunerados ou de influência, e disposto a cortar na despesa pública todos os ramos secos, inúteis ou fonte de interesses corporativos.

Provido daquela grande qualidade que é a coerência e, por arrastamento, a persistência nas batalhas a que se votou, sem vacilações nem sinuosidades, excepto quando estas são necessárias para atingir, nos pontos fulcrais, uma concórdia para o bem comum.
A qualificar ainda estes atributos, jamais deixar-se arrastar pela soberba, derivada da importância do cargo, e nunca esquecer o respeito que deve aos cidadãos e do dever de informar, conscienciosa e objectivamente, sobre todas e quaisquer medidas necessárias, a fim de superar a crise e, simultaneamente, aviar o crescimento económico.

Parece que ambiciono para a Terra Lusa o que a realidade não pode conceder. Porém, com muitas dúvidas, muitas perplexidades e uma certa angústia pelo que advirá de negativo, pois há tantos profetas da desgraça a apontar-nos o dedo… enfim, cultivemos a fé e esperança.
Que mais poderemos fazer? Pelo menos, procurar sair do nosso vício habitual de conformismo, passividade, acomodamento e reagir, reagir, sempre reagir no melhor sentido construtivo. Seremos capazes?

Domingo, Fevereiro 12, 2012

ALEMANHA, ACALMA-TE"

Germania, rilassati” (Alemanha, acalma-te): achei interessante este título, tema do dia, de um programa diário de RAI TRE.
Efectivamente, chegou a altura de elevar a voz e aconselhar as figuras representativas ou de maior vulto político daquele país a acalmar-se, descer do pedestal e retomar a aprendizagem sobre os imperativos da diplomacia, do respeito pela soberania de outros países e dignidade humana.

Este é um assunto sobre o qual decidira virar página. No entanto, não corre dia que não se deva assistir à ebriedade de quem se auto-elegeu representante de um país superior e, consequentemente, distribui comentários ou opiniões que poderemos classificar como diplomacia de baixa qualidade e, obviamente, arrogante.

Já muito foi dito sobre as críticas da Chanceler sobre o modo como a Madeira usou os fundos estruturais. Não faltou à verdade e devemos reconhecê-lo. Não obstante, plagiou a grosseria do soba madeirense, exprimindo opiniões que um verdadeiro estadista evitaria.

Quanto a Martin Schultz, surpreendeu-me o estranho comentário sobre a visita de Passos Coelho a Luanda “em busca de investimentos do governo angolano em Portugal”. Grosso modo, aventou que se tratava de uma política errada, pois só no quadro da UE haveria hipóteses de evitar o declínio.

Li e ouvi algumas entrevistas de Martin Schulz e admirei o equilíbrio e objectividade como enfrentava os actuais problemas europeus, sobretudo os dos países mais atingidos.
Qual a razão, agora, destas considerações tão incongruentes como impróprias de um presidente do Parlamento Europeu?
Que se passa com estes ilustres cidadãos alemães? É um vírus ou existem miasmas que lhes envenenam o bom senso?

Criticando estes comportamentos, certamente que não se procuram justificações para o despesismo incontrolado da nossa dívida soberana.

Mas o principal motivo que me levou a adoptar o título “Alemanha, acalma-te” e voltar a este assunto foi uma execrável iniciativa do Deutsche Bank.

Quando li a notícia - de quarta-feira passada - nos jornais portugueses e um editorial italiano que relatava e comentava esta iniciativa, tive de reler tudo com redobrada atenção, pois temi não ter compreendido, tal a infâmia que a revestia.
Mas deixo falar o autor do editorial.

Se os Bancos Lançam os Bond da Morte”.
Na frenética busca de novos “produtos financeiros”, com os quais continuar a intoxicar os mercados, o reverenciado Deutsche Bank superou todos os limites, tornando a própria vida das pessoas num objecto de especulação.

O caso pode resumir-se deste modo: individua-se, nos Estados Unidos, um grupo de cinquenta pessoas entre os 72 e os 85 anos; recolhem-se, com o consentimento destas pessoas, as informações sobre as suas condições de saúde; propõe-se de investir sobre a duração destas vidas.
Quanto mais rápido forem os falecimentos, maior é o lucro dos investidores. O lucro do banco, pelo contrário, cresce com a sobrevivência das pessoas que fazem parte do grupo seleccionado.
Assim nasceu aquilo a que alguém já definiu como “Os bond da morte”.

Foram muitas as reacções. A própria Associação dos bancos alemães disse que “o modelo financeiro deste fundo é contrário à nossa moral e à dignidade humana”.
Mas o facto permanece, sinal inquietante do que está a acontecer nos nossos tempos.
[…] Não quero evocar, com uma culpável superficialidade, tragédias do passado. Mas a decidida reacção da Associação dos bancos germânicos não se compreende se ignorarmos que precisamente ali, nos anos do nazismo, a formalização jurídica das “não pessoas” - os judeus em primeiro lugar - levou a considerar vidas e corpos como objectos disponíveis para o poder político e médico.
Hoje, o supremo poder da finança pensa de ter título para de tal se apoderar, num modo imediatamente menos destrutivo, mas que traz consigo a insídia da vida como mercadoria. […] – Stefano Rodotà; jornal “La Repubblica”.

Tudo isto não é somente contrário à moral e à dignidade humana: é repelente, é revoltante, é digno de uma intervenção judiciária imediata, de uma sentença severíssima e sem quaisquer atenuantes.

Uma pergunta, todavia, impõe-se: entre os membros dos órgãos administrativos do Deutsche Bank, não houve ninguém, não houve um único elemento que se opusesse a esta indecência?

Alemanha, acalma-te; mas, sobretudo, acorda, reflecte e não permitas que, em teu nome, alguns dos teus representantes e certas instituições te desacreditem.

Domingo, Fevereiro 05, 2012

O EMBUSTE

Tinha dois ou três assuntos que desejaria desenvolver ou explorar na minha “conversa semanal com o computador”, porém, na sexta-feira passada, veio a lume uma notícia que se impôs e sobre a qual, hoje, desejo escrever.
Talvez me alongue por poucos parágrafos, pois tenho problemas no meu computador. Já foi revisto, mas adiantou pouco. Submetê-lo-ei a nova limpeza e reestruturação. Entretanto…

Vasco Graça Moura, novo presidente do Centro Cultural de Belém, “mandou retirar dos computadores a ferramenta informática que adapta os textos às normas do novo acordo ortográfico”.

Acérrima inimiga deste “embuste ortográfico” - assim classificado pela única publicação que se opôs sem ambiguidades: o jornal “Público” – rejubilei por verificar, finalmente, um acto oficial de oposição ao aviltamento da nossa língua materna.
Desautorização do Primeiro-Ministro, segundo a oposição? Apenas defesa de um património nacional, defesa esta onde o PS não brilhou. Sobre o mesmo tema, não desmereceria se, agora, demonstrasse uma certa reserva.

Contra este aviltamento, entre as múltiplas objecções de quem ama a língua em que se exprime, a estudou, a ensinou e gosta de a aprofundar, o argumento de que não se tratou de um “acto linguístico, mas político”( Malaca Casteleiro) fere e indigna.

Fere, porque se roubaram certezas ortográficas para as substituir por arbitrariedades; fere, porque se foi ao encontro de conveniências ou interesses que ainda não foram bem esclarecidos; fere, porque todas as justificações apresentadas sucumbem perante uma qualquer análise objectiva. 

Penso seja legítima uma pergunta ao senhor Malaca Casteleiro: que interesses o moveram, em tanto activismo, para inventar e implantar esta cacografia - com a ajuda da Academia de Ciências de Lisboa - pois, segundo opiniões abalizadas, não existem argumentos linguísticos sérios que a possam justificar?

Acaso teve a honestidade de debruçar-se sobre as consequências na ortofonia do nosso português e na sua clareza, estudando-as em profundidade? Acaso não traiu a sua qualificação de linguista?
Quem lhe atribuiu esse direito? Ah! Já sabemos quem: os nossos ilustres representantes na Assembleia da República. Ademais, é uma questão política!...

Estes representantes foram eleitos com métodos democráticos, obviamente. Já dentro do poder, a democracia salta e, frequentemente, descamba-se numa espécie de autocracia: o que a maioria dos cidadãos pensa torna-se irrelevante. Chegou-se mesmo a este ponto execrável do “queremos, podemos e mandamos”? Assim parece, mas eu não aceito.

Logo, indigna, porque estes nossos representantes, não somente ignoraram a maioria da opinião pública, como desprezaram, o que agrava a questão, as opiniões de autoridades competentes, idóneas – isentas de quaisquer interesses, acrescento – que aconselharam a não aprovar este acordo, lesivo daquilo que qualifica uma língua: pureza, correcção, clareza e harmonia, sendo estas duas últimas as mais ultrajadas.

Ainda uma observação sobre o comentário de um carreirista político: “Temos de nos convencer que a língua não é nossa”.
Lembro a este ignorante que a língua que se fala em Portugal é nossa, exclusivamente nossa e que não é admitido alterá-la fora da sua evolução natural. Mas, acima de tudo, jamais por “arranjinhos políticos”.

Por último, se Vasco Graça Moura agiu por coerência - disso não duvido - e como um acto de desafio, oxalá encontre eco e force a sair da passividade outros intelectuais, professores de português e demais figuras de relevo na vida do país.

Podemos discordar de Vasco Graça Moura como filiação ou simpatias políticas; devemos tributar-lhe estima e grande respeito pelo seu alto e indiscutível vulto intelectual.
Quando, tenazmente, se opõe ao AO, merece muito mais credibilidade que qualquer inventor e propugnador desta anomalia lusitana, sejam quais forem os títulos que ostentem.
No que me concerne, esta credibilidade é independente do que sempre pensei sobre o assunto.

Segunda-feira, Janeiro 30, 2012

EUROPA: OS “SUPER-MARIOS”;
O ELEMENTO PERTURBADOR

O editorial de Teresa de Sousa, jornal Público de 22 de Janeiro, na análise sobre esta pobre União Europeia fragmentada e sobre a ineficiência de quem a deveria unir, o título e subtítulo escolhidos agradaram-me plenamente.
Super-Marios”: os italianos que ainda podem salvar a Europa” – “Mario Monti e Mario Draghi devolveram à Itália o seu prestígio de país fundador da Europa comunitária”.

Efectivamente, é confortante verificar quão grande foi a mudança que se verificou e verifica no excelente conceito que hoje á reservado à Itália. Uma prova irrefutável do que significa pôr à frente da governação de um país pessoas qualificadas, não somente no campo político, mas, acima de tudo, em competências e valores éticos.

Seguir com interesse e atenção a obra de Mário Monti e dos seus ministros, prova-se um sentimento de alívio paralelo a uma ampla aquiescência pelo que faz com determinação, embora com prudência e respeito pelas partes sociais e pela representatividade do Parlamento.

No que concerne a nomeação do governo Monti não houve quaisquer atropelos à democracia, contrariamente ao que vários analistas – seguidores dos argumentos de Berlusconi, assim parece - continuam a referir.
Jamais traindo a Constituição, pôs-se termo à agonia que empurrava o país para o abismo e varreu-se um dos períodos mais deletérios da política italiana: o berlusconismo. Oxalá seja para sempre; definitivamente.

Quanto à questão europeia, a autoridade de Mário Monte, nos vários encontros e vértices, tem dado um ritmo mais sério ao sólito minuete Merkel/Sarkozy. Se bem que, este último tem sido mais comparsa que elemento decisor.

Nota-se que a Sra. Merkel adoçou ligeiramente o tom autoritário de Estado-membro economicamente mais forte.
Continua, porém, a constituir aquilo que me parece um elemento perturbador da solução dos problemas que nos causam tantos sacrifícios, temores e angústias.

Em face do reiterado obstrucionismo – que outra coisa tem sido? – a qualquer proposta razoável para aliviar a Europa da opressão dos mercados financeiros e estancar a hemorragia financeira dos países que devem pagar taxas de juros exorbitantes que os asfixiarão, é difícil refrear um certo agastamento contra o actual governo alemão.

A Chanceler autonomeou-se, em detrimento das instituições europeias, directório absoluto do que se deve e não deve fazer acerca de dívidas soberanas e orçamentos. Porém, nos infinitos vértices inconcludentes a que temos assistido, tudo quer fazer e tudo faz e diz para que a Europa continue à mercê de mercados sem confiança e os países mais expostos afundem, económica e financeiramente. Se, como mínimo, falasse menos!...

Os vaticínios sobre a implosão europeia e desaparecimento da zona euro, emitidos por instituições e personagens idóneas, sucedem-se dia a dia. Não sei se o vértice de hoje, em Bruxelas, conseguirá acalmar a tempestade.

O desolador nanismo político europeu da Chanceler alemã e dos seus parceiros de governo, de mistura com um certo autoritarismo teutónico; o egoísmo nacional bem alimentado por um governo que até hoje não soube informar o que significa coesão e cooperação e o que o euro e UE têm representado para a economia alemã e estabilidade europeia, concluo que a Europa, certamente, não está em boas mãos.

O advento de Mário Monti contribuiu para que a Chanceler só agora despertasse para lembrar que a Alemanha foi o país que mais lucrou com a criação da zona euro; que o euro não deve estar em discussão, etc., etc.
Por que o não disse e o não proclamou há dois anos, encorajando e activando uma intervenção mais enérgica no caso da Grécia, de modo a que não houvesse dúvidas sobra a solidez da União Europeia?

Levados por reminiscências do passado, é quase inevitável uma amarga reflexão: mas deverá ser sempre a Alemanha que, de um modo ou de outro, embora também se admita o exagero, mais uma vez deva escaqueirar esta nossa Europa?
Confiemos nos dois Super-Marios! É sempre uma esperança.

No Fórum Económico Mundial de Davos, eis o nosso Portugal a ser apontado como o país que se segue: a Grécia já foi sentenciada; Portugal não inspira confiança sobre a capacidade de pôr as contas públicas em ordem. E eu repito a pergunta: que mais nos espera?

O economista Nouriel Roubini – o que prognosticou a crise 2008 - sempre no mesmo Fórum, vaticinou que, “dentro de um ano, a Grécia estará fora do euro. Seguir-se-á Portugal e a zona euro será destruída nos próximos 3 / 5 anos”.

Insisto na minha angústia: que mais nos espera, a nós portugueses, e ainda por cima com um Relvas no papel de Richelieu?

Segunda-feira, Janeiro 23, 2012

A DEMOCRACIA EM PORTUGAL

A propósito dos tempos difíceis que atravessamos, teme-se pela solidez das democracias na Europa. Aventam que são os momentos de crise que mais facilmente criam um clima favorável à mutilação das garantias democráticas.

Não creio que esta tese se possa aplicar a países onde a democracia tem profundas raízes e o sentimento democrático faz parte de uma convicta e ampla educação cívica, incluindo uma consciência política informada. Porém, há sempre nacionalismos à espreita, e o modo desastroso como esta crise europeia tem sido conduzida proporciona-lhes terrenos férteis.

No que concerne Portugal, é interessante e útil ler “O primeiro grande estudo sobre a percepção democrática em Portugal”, publicado pelo jornal Público, na quinta-feira passada, dia 19.

Apenas 56% dos portugueses considera a democracia o melhor sistema político. È maioria, mas uma mísera maioria!

Considerando os restantes 44% e exprimindo-me com total franqueza, só me inspiram piedade de mistura com um certo enfado, precisamente pela pobreza de cidadania que revelam: 16% não sabem responder; 10% ficam “indiferentes a qualquer forma de governo”; 15% desejam um governo autoritário.
São estes 15 por cento que me merecem desprezo total. É bom recordar, todavia, que ainda há herdeiros e saudosistas dos longos anos de salazarismo, o que é triste!

Quanto aos demais, penso que a ignorância seja a pior culpada; ignorância que a nossa democracia representativa, consequentemente os nossos representantes, nunca se preocuparam em esclarecer, informar, formar. Também a escola, neste ponto, deveria ter um papel muito mais incisivo.

Raciocinando sobre a organização e função dos nossos partidos políticos, a que conclusões poderemos chegar?
Procuram representar, efectivamente, os eleitores com acções de esclarecimento sobre as próprias ideias e programas de boa governação ou não passam de máquinas eleitorais cujo único fim é ocupar as instituições?
Os últimos exemplos, que não passam de uma péssima tradição consolidada, estão a demonstrá-lo.

O artigo de Pacheco Pereira, de anteontem, no Público – “A construção da Máfia portuguesa (2)” – é assustador. Exagerado? Não. Apenas descreveu a realidade.

Ponderemos o sistema eleitoral português. É verdadeira e inteiramente democrático? Não é; nunca me cansarei de apontar esta falha.

Transcrevo excertos de dois textos italianos.
“Enquanto forem as secretarias dos partidos a escolher por nós aqueles que devemos mandar para o Parlamento, nunca teremos uma política de boa qualidade (…)” – desconheço a fonte.

(…) Será o eleitor a exprimir, com o próprio voto, quem deverá representá-lo no Parlamento. Não seremos constrangidos a suportar a «violência política», de devermos aceitar «tudo ou nada», quando, no boletim de voto, pomos uma cruz numa lista de candidatos integralmente escolhidos por outrem: candidatos frequentemente desconhecidos, frequentemente sem experiência política, sem nenhuma ligação com o território que representam e por méritos muito discutíveis (…) – Andrea Morrone, catedrático na Universidade de Bolonha, professor de Direito Constitucional.

Assim se exprime, na Itália, quem luta - e são intelectuais, políticos eminentes e os partidos sérios - pela mudança da presente lei eleitoral que é um desastre - obra de Berlusconi. Nesta parte (a escolha dos que devem ser eleitos) é igual à nossa.

O que acima transcrevi aplico-o ao meu acto de eleitora portuguesa, pois é do nosso país que quero falar.
Seleccionados pelos partidos e, insisto, as competências não gozam de preferência nessa selecção, concluo: eu, eleitora, não posso indicar o ou os representantes cujas capacidades políticas e currículos académicos me poderiam convencer a dar-lhes o meu voto com satisfação e em plena consciência.
Apenas me é concedido votar um partido, logo, as suas conveniências partidárias; não, certamente, as conveniências gerais dos cidadãos. È Isto aceitável numa autêntica democracia?

Por que razão não vejo artigos de opinião sobre este assunto? Por que estão todos tão calados e não dão relevância a uma questão tão importante como esta? Também isto não fará parte da educação cívica do povo português e dos seus direitos?

Segunda-feira, Janeiro 16, 2012

QUE MAIS DEVEMOS ESPERAR?

“Mal comum, meio gáudio”, um provérbio italiano que me veio à memória sexta-feira passada, perante a avançada de Standard & Poor’s contra nove países desta nossa Europa, insistindo em alvejar Portugal: que falta de originalidade!
Porém, imediatamente adveio a estupefacção. Não consigo entender a tácita submissão dos Estados – logo, da política – aos juízos classificativos das três famosas Agências, quando estas deram provas suficientes de pouca seriedade e quando são apontadas, por um grande número de economistas, como as principais responsáveis da crise global.

É-me difícil compreender a paralisia reactiva da UE, a falta de iniciativas enérgicas e bem estruturadas contra estes ataques à zona euro.
Se mais dúvidas houvesse, Standard & Poor’s encarregou-se, com uma tempestividade suspeita, de comprovar que os défices públicos e dívidas soberanas não consubstanciam o verdadeiro alvo, mas sim o espaço da moeda única que não convém aos abutres de Wall Street e da City de Londres.

Ensaiaram as primeiras arremetidas contra a Grécia e, infelizmente, este país ofereceu bons motivos.
A cegueira, tacanhez e mediocridade políticas de Merkel e Sarkozy, juntamente com o egoísmo e pusilanimidade dos demais Estados-membros, escancararam as portas sem a mínima preocupação de criar uma frente comum de dissuasão a estes ataques ao euro.

Nada mais foi necessário para que as taxas de juro aumentassem desmesuradamente e continuem a estrangular os países com maior necessidade de socorrer-se dos mercados financeiros.

Penso que seja lógico perguntar se é aceitável que os Estados devam temer avaliações de Agências cotadas na bolsa de valores!

Certamente que as agências de notação financeira têm a função de intermediárias entre quem emite títulos e quem os compra, informando e monitorizando o mercado global financeiro. Mas precisamente porque são investidas de funções muito delicadas, deve-se-lhes exigir a máxima transparência, independência e total rigor na seriedade das análises e na correcção dos dados de avaliação, além de um impreterível sentido de responsabilidade.
É isso o que tem acontecido? Absolutamente não! Casos que o testemunham são já bem conhecidos.
O ataque sistemático ao euro, por exemplo, é responsável? É transparente?

A irritação da Europa, finalmente, explodiu. Desclassificar a Itália foi um acto de pura estupidez e arrogância. Standard & Poor’s apresentou justificações de carácter político; esqueceram-se de considerar a potencialidade económica do país e a acção, positiva e séria, do governo Monti.

Todos invocam uma resposta unívoca da União Europeia. Teremos de assistir, de novo, aos reiterados beijinhos de Merkel e Sarkozy? O espectáculo já é mais que nauseante. Mas penso, tenho esperanças, que Mário Monte será uma terceira voz a aconselhar acção e bom senso.
Todos invocam uma agência de rating europeia independente.
Todos pretendem responsabilidade legal para quem erra ou especula do outro lado do Oceano.
Todos, mas mesmo todos (menos a Alemanha), reclamam um Banco Central Europeu com os plenos poderes de um qualquer outro banco central, exactamente como o americano, japonês ou inglês.
Todos sugerem a criação de obrigações europeias ou fundos substanciosas de estabilidade financeira.
Que esperam?

Da minha parte, espero que a Chanceler alemã tenha a humildade de procurar novos e melhores conselheiros, o que lhe tem faltado até hoje.
Espero que ponha de lado a arrogância de quem se crê líder de um país superior.
Espero que medite bem sobre o mal que tem causado à UE com as suas intransigências míopes e indignas do país que maior lucro obteve com a criação do euro.
Espero que não queira desempenhar o papel, embora não intencionalmente, de quinta-coluna das intenções de desmoronamento da União ou da zona euro.
Por último, espero que a actual política alemã, em virtude das grandes vantagens económicas que o próprio país tem arrecadado, dentro da União Europeia, sinta mais constrangimento do que regozijo, perante o rigor e sacrifícios, incongruentes e contrários ao crescimento económico, que impôs aos países endividados.

Segunda-feira, Janeiro 09, 2012

FALA-SE SEMPRE DE DIREITOS;
NUNCA DE DEVERES

Como direitos indiscutíveis e irrenunciáveis reconheço apenas os direitos exarados na “Declaração Universal dos Direitos Humanos”. Aos demais direitos que, naturalmente, se fundamentam nos trinta artigos desta declaração, penso que se deva, por vezes, antepor o bom senso e o equilíbrio.

Obviamente, estou a pensar no direito à greve. É um direito sacrossanto, quando as razões são justas e as circunstâncias não apresentam outras vias de solução do um conflito que apenas sacrifica, inteiramente, uma das partes.
Posto isto, é-me muito difícil compreender a razão da última greve dos maquinistas da CP; e é-me totalmente indiferente se esta minha opinião se afasta do politicamente correcto.

A causa justificativa desta greve assemelha-se mais a uma reacção de arrogância e prepotência dos maquinista – aliás usufruidores de bons salários – do que a razões compreensíveis e aceitáveis.
Ademais, vejo-a como um acto absolutamente irresponsável e sem a mínima consideração pelos “deveres para com a comunidade” e pelo próprio país a braços com uma tremenda situação económica e financeira.

Mas a este género de portugueses, e pensando agora nos trabalhadores dos vários portos do país que entraram hoje numa greve prolongada e de consequências desastrosas para as nossas exportações, nada interessa os pesadíssimos danos causados à economia nacional. Crise ou não crise, há o direito à greve e direitos são direitos; quaisquer outras considerações têm o valor zero.

Ninguém desconhece que o peso das exportações, sobretudo neste período, é de primária importância para uma economia em recessão.
Antes de se promulgarem greves deste jaez, o dever de pôr em acção o bom senso, ponderação e predisposição a um diálogo exaustivo e responsável seria praticamente obrigatório. Mas tudo isto, como se verifica, é indecentemente alheio aos interesses corporativos. Em tais casos, portanto, já não sei se se trata de uma clara irresponsabilidade ou de uma espécie de sabotagem de idiotas inconscientes das suas acções.

Transcrevo a análise concernente Portugal, num dossiê de um jornal estrangeiro de sexta-feira passada, sobre a “Emergência débito”.

Portugal está pesadamente endividado com a Espanha por cerca de 65 mil milhões de euros; com a França e Alemanha, por outros 40 mil milhões.
Tem a infelicidade, todavia, de ter um crédito de quase 8 mil milhões € com a Grécia.
A dívida pública superou o nível de alarme de 107% do PIB, enquanto a dívida total (pública e privada) é de 251%. (O país inteiro estava doido, acrescento eu!!)

[…] Portugal é um dos três países do euro que foi oficialmente salvo pela Europa com um plano de ajudas financeiras. Isto não evitou que precipitasse numa profunda recessão. Mais dura ainda, porque era já um dos países mais pobres da UE.

*****

A transferência da sede social da empresa Jerónimo Martins para a Holanda deu azo a grande alarido. Só agora despertaram, perante casos destes ou similares e já bem conhecidos? Superficialidade ou comédia?

O presidente da Jerónimo Martins, Soares dos Santos, “garantiu que não tinham sido os impostos a levar a empresa para a Holanda”. Uma coisa é certa: não foi o panorama holandês que se tornou irresistivelmente atractivo para a deslocalização da sede social da empresa.

Concedamos-lhe a atenuante das maiores facilidades de financiamento para novos investimentos, entre as várias justificações. Todavia, o acto em si mesmo, não brilha por civismo.
Mas há outra explicação que Soares dos Santos exprimiu em forma dubitativa e que não só foi incautamente elucidativa como muito inoportuna. "Disse que não sabia se Portugal ficaria no euro".

São frases destas, provindas de pessoas com peso económico, que arrepiam e não se admitem. Dir-se-ia que soam como clarim de alarme, a fim de que outros espertalhões tomem providências e abandonem o barco em perigo. E como sabemos, são os ratos os primeiros a abandonar o barco.

Termino, citando a jornalista e escritora Inês Pedrosa: “O mais grave défice de Portugal é o da participação cívica. O activismo social e político escoa-se em queixinhas de café”. - Esplendidamente centrado!
Não haverá por aí um grupo de corajosos e esclarecidos que lancem uma ampla (territorialmente) e persistente campanha de educação do nosso povo, nesse sentido?