Domingo, Novembro 08, 2009

A BANALIZAÇÃO DO CRUCIFIXO

O Crucifixo, símbolo de sofrimento que não pode ofender ninguém”: foi este o título de um belíssimo artigo que o escritor Cláudio Magris escreveu ontem, no Corriere della Sera, a propósito da já famosa sentença do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos sobre a presença do crucifixo nas escolas italianas.

Aquele homem na cruz que proferiu o revolucionário discurso das Beatitudes não pode ser cancelado das consciências, nem sequer daquelas que o não crêem filho de Deus.
A rumorosa polémica criada por esta sentença fará esquecer temas bem mais importantes sobre a defesa da laicidade e fomentará os piores clericalismos. Criará divisões que se manifestarão de forma grosseira em ambas as partes; dará a tantos histriões a satisfação impante de arvorar-se, a bom preço, em campeões da Liberdade ou dos Valores. O Crucifixo encontrará os defensores mais hipócritas e indignos: aqueles que, a seu tempo, Ele definiu “sepulcros caiados
”.

Os factos.
Uma senhora finlandesa casada com um italiano, durante o ano lectivo de 2001-2002, protestara contra a presença do crucifixo nas salas de aulas dos seus dois filhos, por considerá-la contrária ao princípio da laicidade do Estado.
Depois de ter apelado, inutilmente, a todas as entidades competentes italianas, recorreu ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, alegando que o Estado “concede à religião católica uma posição de privilégio na formação dos estudantes, o que se torna numa verdadeira forma de ingerência nos direitos à liberdade de pensamento, de consciência e de religião…

O Tribunal de Estrasburgo emitiu sentença favorável ao recurso e condenou o Estado italiano a retirar o crucifixo das escolas e a indemnizar o casal requerente pelas despesas judiciárias.

O Governo recorrerá da sentença. Entretanto, ásperas reacções eclodiram em todo o País. Infelizmente, grande parte dessas reacções não brilha por estilo ou dignidade de pessoas de Estado.

Vários presidentes da Câmara, assessores, administradores da coisa pública decidiram distribuir crucifixos gratuitamente.
Um desses presidentes ameaçou 500 euros de multa a quem ousasse mover o Crucifixo. Alguns sugeriram impô-lo nas lojas e supermercados!
Uma autêntica cacofonia de vozes mais teatrais que religiosamente sentidas; mais de utilidade política que ponderadas.

Em muitas dessas pessoas de Estado, essa casta que administra a coisa pública, verificou-se uma ignorância cómica, mas imperdoável: entenderam que o "Conselho da Europa" e o "Conselho Europeu" é tudo a mesma coisa.
Assim, partiram os ataques à União Europeia – “esta porcaria de Europa que temos” – assacando-lhe a responsabilidade de uma sentença “ignominiosa”!

Confundir os dois Conselhos é muito aceitável, e mesmo corrente, no cidadão comum; inaceitável e decisivamente indecente, em quem é um político activo.

A Comissão Europeia teve de emanar um comunicado, esclarecendo que o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, em Estrasburgo, não é nenhum órgão da UE, mas vigora dentro do Conselho da Europa: instituição de 47 países, fundada em Maio de 1949.
Quanto à presença de símbolos religiosos em edifícios públicos, é de exclusiva competência de cada estado-membro.

Tive a curiosidade de ler à sentença dos juízes de Estrasburgo e que não fizeram mais que estabelecer o respeito da Convenção dos direitos do homem de 1950, além da condição de Estado laico qual é a Itália.
Está muito bem articulada e achei interessante uma parte: repassa o item de todas as leis – relativas à questão - anteriores e durante o fascismo. A lei, hoje vigente, recalca ou prossegue a retórica desse tempo!

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Em todo este caso, a ideia que mais se impôs ao meu entendimento é a banalização deste símbolo supremo do Cristianismo: o Crucifixo.
As polémicas e zelos pelo “respeito das próprias tradições e das raízes cristãs” reduzem-no a um mero objecto decorativo dos edifícios públicos.

Se é um símbolo religioso, genuína e exclusivamente cristão, é assim tão chocante que um Estado evite de os expor nas escolas, respeitando a multiplicidade de crenças ou não crenças dos alunos e respectivas famílias?

Haverá nesta tradição, que tanto apregoam, algum sentimento sincero? Haverá nela o respeito que fará baixar as nossas cabeças de humanos arrogantes, ante a percepção de sofrimento que inspira o torturado daquela cruz?

Com tanta desenvoltura e superficialidade em expor onde quer que seja esse símbolo, brandindo-o como uma arma que defende a tradição, não se estará a esvaziar a força de impacto do seu grande significado?

Aquele homem (...) não pode ser cancelado das consciências, nem sequer daqueles que o não crêem filho de Deus”, assim escreve Cláudio Magris.

Precisamente por esta razão, gostaria de ver esta imagem no lugar próprio, isto é, nos lugares onde a sua presença giganteia e onde é impossível ignorá-la ou banalizá-la.
Onde as nossas crenças ou consciências a possam olhar com humildade ou devoção silenciosas; com simpatia ou admiração pelo que foi e no que se tornou através dos séculos; pelo significado que se impõe aos não crentes e a quem estes rendem homenagem e reconhecem grandeza.
Alda M. Maia

Domingo, Novembro 01, 2009

HOMOFOBIA

Parece que o tema se avoluma e dá início à onda dos sentimentos de impaciência e hostilidade contra quem não tem outras precedências, mais importantes, do que trazer à barra deliberações sobre casamentos entre homossexuais.

E para a arena dos descontentes, saltam os bem-pensantes, os zeladores do politicamente decente, do respeito que se deve ao sentir comum.

Argumentações previsíveis: com a crise económica e financeira a sufocar o País, além de outros problemas também urgentes, é imperdoável distrair as atenções e dispersá-las em causas muito discutíveis.
Ademais, se é necessário legislar sobre esse tema “fracturante”, numa pachorrenta convivência civil, promova-se um referendo.

Este assunto absorveu completamente os meus pensamentos - não vagabundos, mas bem centrados na questão – quando, sexta-feira passada, li um artigo, no jornal Público, do catedrático Jorge Bacelar Gouveia e com o seguinte título: Casamento gay: nas costas dos portugueses?”
.
“A XI Legislatura começa mal: começa com o tema fracturante da aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo” (…)

A pergunta (ou inquietação) do Senhor Deputado conservador do PSD soou-me como a arranhadela num vidro, isto é, desagradável e com um certo odor de fundamentalismo.
Interrogações, daí derivadas, surgem espontâneas.

Se a expressão “nas costas dos portugueses” pressupõe um dano, no que é que a sociedade civil portuguesa seria prejudicada?
Qual traição, “nas costas dos portugueses”, abalaria a nossa identidade de pessoas civilizadas, tolerantes, igualitárias nos direitos e deveres, solidárias com minorias discriminadas?
Que terramotos económicos, sociais, éticos adviriam, se o Parlamento emanasse leis sobre as uniões de homossexuais?

Temos de convir que a razão explosiva de tantas polémicas e de tantos pruridos moralistas, neste caso, é a aplicação – ou abuso - do termo “casamento”, com todas as suas conotações. E não podemos ignorar que é uma razão com uma certa solidez.

Casamento é o exacto significado de matrimónio e o étimo deste último vocábulo não dá margens para dúvidas: matrimoniu(m), matris, madre que, “inicialmente, indicou a maternidade legal”; lo
go, a família na sua pura acepção procriadora - o argumento príncipe da Igreja Católica contra estes “relativismos” da modernidade.

Escreve o Sr. Professor Bacelar Gouveia:
“(…) Esta é uma das típicas decisões que numa democracia plena como a portuguesa só podem ser tomadas pelos portugueses em referendo nacional.
(…) Acresce ainda dizer que o casamento gay é muito mais um assunto da sociedade e não tanto um assunto do Estado”.

Fico bastante baralhada!
É mais um assunto da sociedade”: qual sociedade? Afora a sociedade civil, acaso conhece uma outra que não se mova dentro do Estado, no perfeito e amplo sentido que este termo evoca?

Consentir que haja, no nosso País, regras de um Estado de direito que legalizem uniões entre pessoas do mesmo sexo – e ponhamos de parte, em absoluto, a palavra casamento – é um facto assim tão convulsivo que necessite movimentar as massas com um referendo?!

Se a união homossexual usufruir de direitos civis justos, equilibrados e adequados à situação, no que é que os matrimónios normais e as nossas vidas de heterossexuais virão a ser sacrificados?
Acaso os nossos direitos serão lesados, denegados, quando, no fim de contas, fazemos parte de uma maioria que é determinante?

E com qual direito esta maioria impõe, a quem tem tendências sexuais diferentes, os seus preconceitos, a sua ignorância (maioria esmagadora), os seus fundamentalismos religiosos, os seus moralismos de trazer por casa?

O Sr. Professor aduz comparações com um referendo sobre o aborto e o “casamento gay”.
Comparação bastante infeliz, pois o aborto – esse, sim - é um drama das consciências que percorre os vários estratos da sociedade e merece o envolvimento de todas as ideias e concepções legítimas.

Notei que o Sr. professor de Direito usa e abusa da palavra gay. Pretendeu ostentar uma ironia desdenhosa?
Esperaria outro estilo de um Professor Catedrático de Direito. Mas, com certeza, quis interpretar bem o papel de “Deputado à Assembleia da República pela parte mais integralista do PSD".

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Os actos de violência contra homossexuais estão na ordem do dia. Na Itália, são quase diários, distinguindo-se por extrema brutalidade. Os autores situam-se nas franjas mais conservadoras ou na extrema-direita.
Na Inglaterra, Estados Unidos e outros países, sucede o mesmo e morre-se por uma sexualidade diferente – para não citarmos os países onde a homossexualidade é passível de pena capital.

A América de Obama pôs cobro a estas perseguições com uma lei que define crime federal qualquer violência contra uma pessoa por motivos de identidade sexual, religiosa ou étnica.
Oxalá outros países
adoptem normas idênticas.
Alda M. Maia

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

CASOS DA SEMANA

Parlamento Europeu e a resolução para um pluralismo correcto da informação.

Mas o Parlamento Europeu, na sessão plenária de 19-22 de Outubro, em Estrasburgo, não decidiu absolutamente nada sobre o que poderia ser a adopção de directivas gerais para uma liberdade de informação correcta e sem as anomalias que se verificam na Itália.

Por três votos apenas, gorou-se uma iniciativa que, embora apresentasse a situação actual italiana como o paradigma negativo, contribuiria para um clima de maior serenidade e independência de quem deve informar a opinião pública, nos países-membros da União Europeia.

É penosa a declaração do não voto de Ilda Figueiredo do PCP. (…) No entanto, discordamos de alguns aspectos desta resolução que raiam a ingerência na vida democrática de cada país (…).
Basta esta asserção para desacreditar quaisquer outras justificações. Não haja dúvida que os extremos tocam-se… e chegam a entendimento!

Este argumento foi uma espécie de leitmotiv dos conservadores do PPE e compadres da extrema-direita: “Utilizava-se a União Europeia para discutir questões políticas nacionais”.
O Parlamento Europeu não tem poderes no assunto em questão e não deveria ser utilizado para ajustes de contas” – Joseph Daul, líder do PPE.

O caso italiano existe e só o não vê quem não quer. Em nenhum outro país da União há um primeiro-ministro que alia ao poder político um esmagador poder informativo.
A França também não está muito melhor: “Sarkozy nomeia directamente os directores da TV pública e, indirectamente, os da informação privada, graças à cumplicidade dos seus ricos amigos editores” – Gigi Riva em “Sua Majestade Sarkozy”.

Estas situações são toleráveis dentro de uma União Europeia, onde as regras democráticas devem ser claras e incontestáveis?

Propôs-se uma resolução de directivas em defesa da liberdade de informação: Uma liberdade serena, correcta e ao abrigo de todas e quaisquer pressões: era isto o que se pedia ao Parlamento Europeu e era isto o que se propugnava para todos os países-membros.
A Itália servia apenas como um péssimo exemplo, a fim de que os demais países o rejeitassem.

As manifestações de alegria dos conservadores amigos de Berlusconi - inclusive os nossos deputados, obviamente – ante a não aprovação do Parlamento Europeu dessa resolução, só retratam escassa dignidade política, pois conhecem apenas os joguinhos do poder, as oportunidades de confortáveis poltronas, concertações nos bastidores, demonstrando-se incapazes de reflectir e ponderar sobre estes problemas.
Bastar-lhes-ia ler, no dia anterior, o relatório 2009 dos “Repórteres sem Fronteiras”, acerca da liberdade de informação em 175 países e onde a Europa, maioritariamente, está em queda (
www.rsf.org).

Grande parte dos deputados europeus terá formação intelectual e preparação adequada ao lugar para que foram eleitos? Analisando várias performances, não é ousado alimentar fortes dúvidas.

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A CASTA SUPERIOR QUE ESTUDOU

Nos tempos em que estudar era um privilégio e estava ao alcance de poucos.

Outro caso que já foi muito falado e comentado: a Bíblia e Saramago.
Certamente que foi infeliz, inoportuno, insensível ao sentir e opinião de milhões de crentes ou de estudiosos, exegetas da Bíblia.
Aquelas bacoradas – o termo não é elegante, mas expressivo – não me escandalizaram. Sabemos que Saramago é provocador e arrogante. Pontifica, quando a sua inteligência deveria aconselhar-lhe bom senso e moderação sobre certos argumentos delicados.

Escandalizou-me, isso sim, o que Vasco Pulido Valente escreveu, a este propósito, na sua habitual "opiniões" - no jornal Público - e a que chamou “Uma Farsa”.
Melhor dizendo: mais que escandalizar, enojou-me.

(…) São ideias de trolha ou de tipógrafo semianalfabeto. (…) Claro que Saramago tem 80 e tal anos, coisa que não costuma acompanhar uma cabeça clara, e que, ainda por cima, não estudou o que devia estudar, muito provavelmente contra a vontade dele. (…) D. Manuel Clemente conhece com certeza a dificuldade de explicar a mediocridade a um medíocre e a impossibilidade prática de suprir, sobre ou tarde, certos dotes de nascença e de educação. (…) O que, finalmente, espanta neste ridículo episódio não é Saramago, de quem – suponho – não se esperava melhor. É a extraordinária importância que lhe deram criaturas com bom senso e a escolaridade obrigatória.

Quanta empáfia do intelectual com estudos! Quanto desdém classista de quem não foi tipógrafo, por exemplo - para um descendente de casta superior, vade retro, Satana!
Quanta falta de senhorilidade e quanta acrimónia mesquinha nos comentários expressos pelo Sr. Pulido Valente!
Por fim, quanta inveja e despeito de quem se alcandora nos cimos da importância social e, no fim de contas, não passa de um intelectual de uso caseiro, mas que nem sequer é doc.

PS.
No citado artigo de Vasco P. Valente está escrito: "Principalmente a dignatários (que deveria ser dignitários) da igreja como o bispo do Porto" (...)
Gralha ou ignorância?
Alda M. Maia

Domingo, Outubro 18, 2009

NORBERTO BOBBIO: CENTENÁRIO DO NASCIMENTO
.Norberto Bobbio
.
Nasceu na cidade de Turim em 18 de Outubro 1909 e morreu, na mesma cidade, em 9 de Janeiro 2004.

Seria grande presunção da minha parte, e bastante ridícula, se me propusesse dedicar este texto a Norberto Bobbio, dissertando sobre os méritos deste extraordinário pensador italiano do século vinte.
Limitar-me-ei a falar, de coração aberto, sobre a grande simpatia e admiração que sempre me inspirou.

Em Turim, de 15 a 17 de Outubro, teve lugar um congresso internacional em honra do grande filósofo e “figura de referência muito significativa, não só na Itália, como na Europa”.
Filósofo, historiador, editorialista, professor de Filosofia do Direito, senador vitalício, autor de várias obras, algumas das quais também editadas em Portugal.

O programa das comemorações do centenário do nascimento - incluindo uma mostra (sempre em Turim) que será “um resumo policêntrico sobre o tema «Bobbio e il Novecento» - prolongar-se-á por todo o ano 2010.

Por duas ou três vezes, cruzei-me na rua com este Senhor que morava na Via Sacchi, centro da cidade.

Na primeira vez, depois de ter lido vários artigos que ele publicava no jornal La Stampa e alguns dos seus livros, de o ter visto em entrevistas televisivas e, portanto, de ter obtido um modesto conhecimento da espessura intelectual de Bobbio, a minha curiosidade foi quase desmedida: tive de fazer um esforço enorme para disciplinar os olhares e não ser mal-educada.

Na segunda vez, só recordo o quanto lamentei não ser atrevida, parar e manifestar-lhe a minha estima. Mas nunca tive cara de bronze, “lata”, para tais iniciativas.

As obras que Bobbio publicou espraiam-se pela filosofia, direito, política, ética, temas de comportamento e empenho civil, história, enfim, um olhar profundo em grandes horizontes.

Encorajei-me a comprar e ler: “Política e Cultura”; “Qual Socialismo?”; “O futuro da Democracia”; “Ensaios sobre Ciência Política na Itália”; “Direita e Esquerda – Razões e significados de uma distinção política”.
Traduzo os títulos da versão original; não sei os que foram adoptados na tradução em português. Presumo que sejam idênticos, pois são facilmente traduzíveis.

Na mudança de Turim para Famalicão, as primeiras três obras desapareceram – assim como desapareceram obras de Primo Levi e outros autores que não encontro e que sabia ter encaixotado. Restam-me as últimas duas.
O centenário do nascimento de Bobbio será um bom motivo para readquiri-las, além de outras.

“Direita e Esquerda”, um pequeno volume de 141 páginas (a 2.ª edição de 1995, em italiano), é um livro que recomendo (foi publicado em Portugal).
Muito interessante para iniciados e não iniciados e sempre de actualidade, por muito que queiram apagar o famosa dicotomia: direita/esquerda.

Há uma característica que espelha a beleza literária de Bobbio: a clareza e simplicidade - logo, a grande acessibilidade - como enfrenta e desenvolve os mais elevados temas e raciocínios. Paralelamente, o equilíbrio e bom senso que procura transmitir.

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Convido ao estudo, à reflexão, à meditação sobre as coisas da história; a abandonar as frases feitas, as fórmulas, os catecismos, a prosápia dos iniciados, a desdoutrinação e a doutorice, o falar difícil, a gíria das escolas e das seitas; a estudar os mecanismos do poder e não somente das ideologias que os legitimam ou recusam; a preferir a veste de quem não compreendeu nada à de quem compreendeu tudo” - Norberto Bobbio

O dever dos homens de cultura, hoje mais do que nunca, é o de semear dúvidas, não de recolher certezas.
De certezas – revestidas com a pomposidade do mito ou edificadas com as pedras duras do dogma – estão cheias, trasbordantes as crónicas da pseudocultura dos improvisadores, dos diletantes, dos propagandistas interessados.

Cultura significa medida, ponderação, circunspecção: avaliar todos os argumentos antes de pronunciar-se; controlar todos os testemunhos antes de decidir; nunca pronunciar-se e decidir à guisa de oráculo, da qual dependa, de modo irrevogável, uma escolha peremptória e definitiva. (…)
Ao homem de cultura não cabe outro dever senão o de compreender e ajudar a compreender
. (…) – Norberto Bobbio

Certamente que uma democracia tem necessidade de instituições próprias, mas não vive se estas instituições não são alimentadas por sólidos princípios. Onde os princípios que inspiraram as instituições perdem vigor nos ânimos, também as instituições decaem; tornam-se em esqueletos vazios e correm o risco de, ao primeiro choque, acabar em pó. (…) – Norberto Bobbio

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Alda M. Maia

Segunda-feira, Outubro 12, 2009

DIGAM O QUE DISSEREM, O PRÉMIO FOI BEM ENTREGUE

Ficará na história, todavia, como o Nobel das múltiplas perplexidades e mil controvérsias.
Cá na Europa, os ex-admiradores de Bush, - se não admiradores, pelo menos muito compreensivos da sua actuação como presidente - são os que evidenciam o mais elevado grau de cepticismo.
Pela sua obviedade, é inútil aludir às críticas e sarcasmos dos americanos conservadores.

O leitmotiv das perplexidades apresenta-se com roupagens diversas, mas o significado é sempre o mesmo: um Nobel da Paz prematuro ou precipitado; prémio à esperança; prémio ao futuro; prémio ratoeira, pois ainda nada fez e só lhe trará problemas… em conclusão, após nove meses de presidência, Barack Obama tinha obrigação de mostrar obra, mesmo as do reino do impossível.
Ademais, este género de prémios, no entendimento geral, apenas se concede no fim da caminhada – o que nem sempre tem sucedido

Num debate sobre o Nobel a Obama, um interveniente usou uma imagem que tenho gosto em compartilhar.
Quando assistimos a um concerto de um famoso pianista, bastam os primeiros acordes e já compreendemos que não é necessário esperar pelo final do concerto para concluirmos se estamos perante um excelente ou um artista medíocre.
Não creio que nestes nove meses de actuação, como Presidente dos Estados Unidos, Obama tenha demonstrado ser um mau executor.

Não creio também que a observação crítica sobre os seus discursos, acusando-o de belas palavras e poucas acções, seja correcta. As boas palavras, provindas de quem tem demonstrado seriedade, forjam um grande impacto. O famoso discurso do Cairo está a demonstrá-lo.

Quando se diz que não fez nada, que nada demonstrou, fala-se por falar. Fala-se por arrastamento de opiniões alheias, pela antipatia que o personagem pode inspirar, porque se dá lugar à superficialidade, em vez de ponderar com atenção o que vai sucedendo.
Fala-se, também, porque se esperava que resolvesse, imediatamente, todas as calamidades que o antecessor provocara. Como se esse “imediatamente” fosse possível!

Limpar, agora, os escombros das demolições de Bush e deixar uma situação de estabilidade, onde quer que seja, recorre-se ao ditado já antigo: quase sempre, tem de se concluir uma guerra suja a fim de atingir uma paz boa e estável.

Cada um pense como quiser. Somente, seria correcto se déssemos menos lugar à banalidade de opiniões preconcebidas e mais a uma observação cuidadosa e imparcial do que tem sucedido e do que é possível.
Este “nada” que serve de argumento negativo já fez brotar “rebentos que anunciam bons frutos”; não foram necessárias acções plateias, mas o sonho de preferir a concórdia.

Para finalizar, há uma perplexidade que também alimento. Que Obama mereça este prémio, merece-o. Que o alivie do pesado fardo de problemas que tenta e deve resolver, mantenho muitas reservas.

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Falemos agora de coisas menos sérias, mas sempre concernentes o Prémio Nobel da Paz.

Correu voz, e é verdade, que há um comité a trabalhar para a candidatura de Berlusconi ao Nobel de Oslo 2010... sim, sempre aquela mina inesgotável de comicidade, quando não irrita.

Transcrevo um apanhado do que se lê no site: “Perchè Sílvio Berlusconi?
www.silvioperilnobel.it

Sílvio Berlusconi reforçou as ligações com os Estados Unidos, mediou na crise Rússia/Geórgia 2008, assim como entre USA e Líbia. Além disso, desenvolveu uma acção reconhecida e notável para a obtenção de uma paz durável entre Israel e Palestina”. (?!)
Citação: “Nunca teríamos obtido um acordo entre georgianos e russos se Berlusconi não tivesse feito valer as suas relações de amizade e confiança com Vladimir Putin” – Nicholas Sarkozy, 24/02/2009

Sarkozy teria dito isto?!!! Acho estranho, mas se é verdade, com as mãos nos bolsos, sabe-se lá quantas figas acompanharam a despudorada asserção.

Restabeleceu entre os Estados Unidos e Federação Russa o mesmo clima de diálogo e de amizade que tinha desabrochado no vértice de Pratica di Mare de 2003 e que pôs fim, definitivamente, à Guerra Fria”.

A diplomacia americana anda mesmo de rastos! Imaginem que teve necessidade da amizade do Pinóquio Berlusconi com Putin para sanar controvérsias, incompreensões e hostilidades decenais!

Mas continuemos na transcrição das razões por que o Sílvio deve ser candidato.

Graças às boas relações estabelecidas nestes anos, sobretudo com a Turquia, e graças à óptima consideração internacional conquistada com o bom governo, Sílvio Berlusconi teve um papel decisivo na nomeação de Rasmussen a Secretário-Geral da Nato. (o negrito é meu)
Na conferência de imprensa do vértice EU/Usa, o primeiro-ministro explicou: Todos, hoje, me estão reconhecidos e me agradeceram. Sem a nossa intervenção (o nosso majestático!) não teria sido possível a nomeação do novo Secretário-Geral, o que seria gravíssimo”.

Recordemos o célebre telefonema e Ângela Merkel à espera que a grosseria do acto tivesse fim.
A Nato deve dedicar-lhe um busto, mas com um nariz de um metro.

As motivações que o comité apresenta reproduzem, na íntegra, os “méritos” que Berlusconi apregoa, com uma cara de bronze sem igual, através de todos os canais de comunicação.
A estes, juntam-se tantos outros factos sem qualquer base de veracidade defensável, mas dos quais o homem se vangloria descaradamente.

O que é triste é vermos tanta gente tomar a sério estes delírios e aceitá-los como verdadeiros.
Fora da Itália, quanta paciência com um primeiro-ministro de um país amigo – mal-educado, mentiroso e sem noção do que é ser homem de Estado - a fim de evitar graves problemas diplomáticos!

Fechemos com um comentário bastante espirituoso que apareceu em Facebook, a propósito do Nobel e Berlusconi: “O bronzeado bifou-lhe o Nobel!
Alda M. Maia

Domingo, Outubro 04, 2009

OS "CÃES DE GUARDA" DA DEMOCRACIA
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Manifestação em Roma pela liberdade de expressão
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Penso que haja muitos, embora existam outros que não sendo propriamente vigilantes, actuam como guardas irremovíveis, isto é, as instituições que equilibram o funcionamento das democracias dignas deste nome.

Normalmente, atribui-se o apelativo “cães de guarda” à liberdade de imprensa. Uso o termo apelativo, porque nele vejo o implícito apelo a que a imprensa seja constante e tenazmente o “cão de guarda” da correcção dos poderes democráticos.

Outro "cão de guarda" seria a opinião pública, se todos cultivassem a preocupação e o interesse de se manterem informados - “O cidadão não informado ou informado mal é menos livre” – Valério Onida, presidente emérito do Tribunal constitucional Italiano.

Mas, também neste caso, será sempre a liberdade e seriedade da informação a fonte onde pode beber o conhecimento de como funciona ou deve funcionar a coisa pública.

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Estive a seguir a gigantesca manifestação que se efectuou, ontem, em Roma, assim como em várias outras cidades italianas, contra as tentativas de manipular e intimidar a liberdade de expressão, organizada pela Federação Nacional da Imprensa Italiana (FNSI).

Houve jornalistas, porém, que se demarcaram, alegando que se tratava de um protesto injustificado.

Jornalistas que trabalham sob ditado ou para um patrão e respectiva facção política, obviamente.
Quaisquer perplexidades sobre o condicionamento da informação não lhes arranham a inteligência nem lhes sugerem que as circunstâncias onde navegam protegidos estão sujeitas a naturais mutações.
Ora, a manifestação de ontem exigia o respeito pela liberdade de informação, em todas os meios que a expressam, em todos os tempos, em qualquer lugar, sem atitudes intimidatórias nem riscos de retaliações, como se tem verificado.

O que mais detesto num jornalista é a falta de verticalidade. Quando este aprumo vacila, apenas existem duas interpretações: ou está ao serviço de um patrão (ou de uma ideologia intransigente) ou trabalha num país onde impera o pensamento único. Neste último caso, e só neste caso, encontra justificação.

Na Itália, não podemos dizer que haja absoluta falta de liberdade de imprensa.
Simplesmente, Berlusconi não tolera críticas e entende que os votos que o elegeram dão-lhe toda a autoridade para impor um modus operandi que o coloca acima das instituições, das regras democráticas e da decência.

Nos dois canais de Estado, RAIuno e RAIdue, impôs, praticamente, pessoas da sua confiança ou que trabalharam nas suas televisões. Nestes canais (além das televisões de que é proprietário), apenas se transmite o que não importuna o “sultão” (assim o apelidou Giovanni Sartori) e as informações que servem os seus desígnios de cloroformizar a população com a apologia do personagem e realidades que não existem - "69,3% dos eleitores italianos informou-se e escolheu quem votar apenas através das notícias e comentários dos telejornais".
Ora, os lacaios - e são tantos! – tudo fazem para satisfazer os interesses deste ditadorzeco endinheirado.

Ainda não conseguiu controlar RAItre. Porém, os programas indóceis deste canal sofrem todos os tipos de pressões e dificuldades. Descaradamente!

Os jornais de que é proprietário têm sido usados como uma autêntica clava para ataques sujos e intimidatórios contra quem ousa criticá-lo. Basta recordar o que fizeram ao director do jornal da Conferência Episcopal Italiana, Avvenire, forçando-o a demitir-se.

Pergunto-me o que vários jornais estrangeiros também perguntaram: como é possível ter havido necessidade de efectuar uma manifestação pela liberdade de informação, num grande país europeu democrático?!

A esta pergunta junto uma outra: por que espera a UE para enfrentar este problema de atropelos à democracia, dentro de um país fundador?
Com qual credibilidade pode exigir o respeito pelas normas democráticas, como condição fundamental, aos países que pretendem entrar na União?

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Annozero”, programa polémico, irreverente, discutível ou não, mas arrojado.
Após as férias, a fim de recomeçar com as novas transmissões semanais (à quinta-feira), houve mil entraves na renovação do contrato, quer do condutor, quer dos participantes fixos: insuportável fumo nos olhos e fogo nas vísceras do “sultão” e acólitos!

Nesta última quinta-feira, estava anunciada uma entrevista com Patrizia D’Addario, a famosa companheira da noite de alta classe com quem Berlusconi dormira.
Protestos, indignações, cartas da direcção RAI convidando (?) a truncar essa malfadada entrevista… enfim, fogo cerrado.

Valeu de pouco. O autor do programa, Miguel Santoro, rebelou-se e pôs no ar a entrevista e as declarações da senhora D’Addario: Berlusconi sabia muito bem quem ela era, - exactamente o contrário das “verdades” do primeiro-ministro – que lhe fora prometido uma candidatura para o Parlamento Europeu ou para as autárquicas, etc., etc.
E lá se afundou a versão oficial que desconhecia quem fosse Patrizia D’Addario!...

Segui todo o programa, com atenção e divertida - teve mais de sete milhões de telespectadores.
Escandalizada? Não. Encadeiam-se tantas e tão diversas anomalias que se espera sempre que tudo dê uma reviravolta e, seja lá qual for a cor política democrática em acção, de novo se instale o bom senso, a decência e o respeito pela instituição e o País que se representa.
Alda M. Maia

Domingo, Setembro 27, 2009

FALEMOS DE ANIMAIS
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Mambo
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Eleições, obrigação de votar, afluência às urnas, clima eleitoral sereno, enfim, muito se poderia escrever sobre estes temas, omitindo, obviamente, os que seriam incorrectos depois da meia-noite de sexta-feira passada.

Mas para desenfastiar, pois confesso que nunca vi uma campanha tão suja como a que ora findou, hoje quero falar de casos interessantes, curiosos, tristes e enternecedores sobre animais.

“Mambo”, o cãozinho abandonado que duas bestas humanas - uma rapariga de 22 anos e um rapaz de 17 – numa pequena cidade francesa, não longe de Perpignan, regaram com gasolina, pegando-lhe fogo. O pobre animal fugiu, rebolou-se no chão e conseguiu sobreviver.
O caso tornou-se notícia, esta alastrou-se, mesmo para além fronteiras (inclusive os nossos telejornais), a França comoveu-se e indignou-se.

Esta história triste teve uma conclusão feliz, pois “Mambo” encontrou imediatamente quem o adoptasse. Além disso, obteve 10 mil euros de contribuições que pessoas generosas enviaram – entre elas Zidane, Alain Delon, Brigitte Bardot, etc. - a fim de que as suas feridas fossem tratadas convenientemente.

A rapariga já foi processada e condenada a um ano de cadeia, embora seis meses com pena suspensa, e uma multa de 6 mil euros, “por crueldade e barbárie”
O cãozinho compareceu no tribunal. Segundo explicou o Procurador, não estava no Tribunal para “suscitar emoções”, mas, como vítima, tinha todo o direito de estar presente.
O rapazote será julgado pelo tribunal de menores.

Para além de um ano de cadeia, poria esta rapariga de 22 anos a limpar um canil e a tratar os animais durante outro ano. Sob vigilância, evidentemente, pois com aquela idade poderia ter demonstrado mais sensibilidade e bom senso.

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Smokey
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“Smokey”, um gatinho de nove anos, australiano - de Maryboroug, Estado de Vitória.
Três dias após o desaparecimento, regressou todo ensanguentado. Tinha sido alvejado com treze tiros na cabeça.
Ninguém consegue explicar como sobreviveu e encontrou forças para encontrar o caminho de casa. Chamam-lhe o gatinho heróico.
Sedaram-no maciçamente, a fim de poderem extrair os projécteis e internaram-no.

Um conhecido defensor dos animais australiano, Hugh Wirth, asseriu que “são gestos característicos de rapazes entre os 18 e 20 anos. Um modelo que vemos repetir-se em toda a Austrália e existe uma única maneira para resolvê-los, que é a prisão”.
E de que estão à espera?

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LEIS DEDICADAS AOS ANIMAIS
(Informações de um artigo de Roberta Maresci - jornal La Stampa)
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A parte cómica destas leis é reservada ao bicho homem, visto ser ele o autor.

Vejamos: em Baltimore é ilegal levar um leão ao cinema. Não foi explicada a razão.
Na Florida, é permitido levar a passeio um elefante, mas com uma condição: uma vez ligado o paquiderme a um parquímetro, paga-se o estacionamento como um qualquer veículo.

Em Fairbanks, Alasca, é proibido aos alces caminhar nos passeios.
A lei nasceu há muitos anos, quando o dono de um bar tinha um alce que tratava como um cachorrinho doméstico e divertia-se a embebedá-lo. O pobre alce, embriagado, vagueava pela cidade, cambaleando e sem tino. O povo obrigou as forças da ordem a intervir. Com o fim de pôr termo a esta maldade, foi emanada uma lei com essa proibição.

Na França não se pode dar o nome de Napoleão aos porcos. A questão relaciona-se com o celebérrimo “O Triunfo dos Porcos”, de George Orwell (Animal farm) - na versão francesa, o revolucionário suíno Napoleão foi rebaptizado com o nome César.
Se é verdade a causa que apontam, respeitinho pelos heróis nacionais!

Por fim, aconselho um clic neste post (e noutros), do interessante blogue:
//sonhospesados.blogspot.com.
Asseguro que se deliciarão com os agudos de uma Susaninha Boyle canina.
Não me canso de escutar o Zequinha e rio-me divertidíssima.
Alda M. Maia