domingo, agosto 07, 2016

AGOSTO, MÊS DE DOCE OCIOSIDADE

Quatro guardiães lindos e atentos

Chegámos ao mês de Agosto, mês por excelência para interromper a os encargos de trabalho profissional e aqueles empenhos imprescindíveis da quotidianidade - é justo dizer, todavia, que nem para todos o mês de Agosto é ocasião para alhear-se das actividades normais.

Pode também constituir um período para ocupar o cérebro com outras atracções ou com o simplicíssimo dolce far niente. Como de costume, neste período opto pela “doce ociosidade”. E sendo assim, interrompo, por breve tempo, a minha conversa com o computador, deixando aqui os meus guardiães em quem tanto confio. Incontestavelmente lindos!

Escrevi duas vezes o vocábulo “período”. Veio-me agora ao pensamento o quanto, para mim, é sumamente irritante ouvir tantos sabichões que se exprimem nos nossos canais televisivos, entre os quais muitas figuras políticas, ignorar a tónica desta palavra e mimosear-nos com o periúdo.

Devo confessar que este tema, sobretudo no que concerne a ortografia, tornou-se uma quase obsessão. Não aceito que pessoas com formação superior acolham, com vergonhosa passividade, o abastardamento a que votaram o nosso idioma, quer no campo ortográfico, quer ortofónico.

Mas temos a ortografia malaqueira, que mais desejamos? Por que razão surpreendermo-nos se, nos jornais estrangeiros, quando publicitam a aprendizagem de várias línguas, o símbolo do português é a bandeira do Brasil?

Como é possível que os grandes competentes na matéria aceitem, passiva e indiferentemente, a destruição deste excelente património? Acordem! Reajam e defendam vigorosamente o que é de todos os portugueses e não de um ousado e limitado grupo de incompetentes! Sim, de incompetentes. Certas anomalias da “ortografia malaqueira” jamais seriam consideradas por um bom conhecedor da língua portuguesa ou, acima de tudo, por um linguista bem preparado.

segunda-feira, agosto 01, 2016

APELOS À COMUNIDADE MUÇULMANA

Finalmente apaga-se a cautela e lançam-se apelos às comunidades islâmicas que vivem nesta Europa massacrada por terroristas que se apregoam defensores do Islão.
Ontem, porém, ocorreu uma reacção inédita e, acrescento, digna do maior ressalto. Quer em França, quer na Itália, houve a presença de milhares de muçulmanos a assistir à missa, juntamente com os fiéis católicos, em várias igrejas. Foi um excelente sinal. Oxalá seja o prelúdio de uma perfeita harmonia de solidariedade e confraternização entre credos diversos.

Mas voltemos às mensagens que vão surgindo na imprensa. A primeira tem a data de 24/07/2016. É da autoria do vice-director do jornal La Stampa, Massimo Gramellini. Alguns extractos:
Caro muçulmano, os teus irmãos, agora, somos nós”.
Caro muçulmano não integralista que vives no Ocidente, sai para a rua. (…) Bem ou mal, o Ocidente acolheu-te, oferecendo-te a possibilidade de uma vida mais digna do que aquela que te era consentida na terra da qual te afastaste. Agora és um de nós. O teu irmão não é o camionista de Nice, mas a criança que as suas rodas esmagaram.
 Não podes continuar a negar a evidência e virar a cara para o outro lado. Ultrapassaste aquele confim subtil que separa a indiferença da cumplicidade. (…).

E eis, cabalmente, o que exprime o prestigiado escritor marroquino Tahar Bem Jelloun:
A minha carta aos irmãos muçulmanos: denunciemos quem escolhe o terror”
“O Islão reuniu-nos na mesma casa, uma nação. Que o queiramos ou não, todos pertencemos àquele espírito superior que celebra a paz e a fraternidade. No nome “Islão” está inserida a raiz da palavra “paz”. Mas eis que de há um certo tempo a noção de paz é traída, lacerada, espezinhada por indivíduos que sustentam pertencer a esta nossa casa, mas decidiram reconstruí-la sobre bases de exclusão e fanatismo. Para isto entregam-se ao assassínio de inocentes. Uma aberração, uma crueldade que nenhuma religião permite.”

“Hoje superaram uma linha vermelha: entrar na igreja de uma pequena cidade da Normandia e agredir um ancião, um padre, degolá-lo como um cordeiro, repetir o gesto sobre uma outra pessoa, deixando-a por terra no seu sangue entre a vida e a morte, gritar o nome de Daesh e depois morrer. É uma declaração de guerra de novo género, uma guerra de religião. Sabemos quanto pode durar e como acabará. Mal, muito mal.”

Portanto, após os massacres de 13 de Novembro em Paris, a carnificina de Nice e outros crimes individuais, somos todos chamados a reagir: a comunidade muçulmana dos praticantes e de quem o não é; vós e eu; os nossos filhos; os nossos vizinhos.
Não basta insurgir-se verbalmente, indignar-se mais uma vez e repetir que “isto não é o Islão”. Já não é suficiente e, sempre com maior frequência,  não somos credíveis, quando dizemos que o Islão é uma religião de paz e tolerância.
Já não podemos salvar o Islão… ou talvez, se queremos restabelecê-lo na sua verdade, na sua história e demonstrar que o Islão não é degolar um sacerdote, então saiamos em massa para a rua e unamo-nos sob a mesma mensagem: libertemos o Islão das garras de Daesh. Temos medo, porque sentimos raiva. Mas a nossa raiva é o início de uma resistência, isto é, de uma mudança radical do que é o islão na Europa.

Se a Europa nos acolheu, é porque tinha necessidade da nossa força trabalho. Se em 1975 a França decidiu a junção familiar, fê-lo para dar um rosto humano à imigração. Consequentemente, devemos adaptar-nos ao direito e às leis da República; renunciar a todos os sinais provocatórios de pertença à religião de Mohamed. Não temos necessidade de obrigar as nossas mulheres a cobrir-se como fantasmas negros que, em público, assustam as crianças; não temos o direito de impedir a um médico de auscultar uma mulher muçulmana nem de pretender piscinas só para mulheres. Assim como não temos o direito de deixar agir estes criminosos, se decidem que a própria vida não tem importância e oferecem-na a Daesh.

Não só: devemos denunciar quem, entre nós, é tentado por esta aventura criminosa. Não é delação, mas, pelo contrário, um acto de coragem para garantir a segurança de todos. Bem sabeis que em cada massacre, entre as vítimas, contam-se muçulmanos inocentes.
Devemos estar vigilantes a 360 graus. Logo, é necessário que as instâncias religiosas se movam e façam apelo a milhões de cidadãos pertencentes à casa do Islão, crentes ou menos, para que saiam a público e denunciar em voz alta este inimigo; para dizer que quem degola um padre faz escorrer o sangue do inocente na face do Islão.

Se continuamos a olhar passivamente o que se está a tramar diante de nós, mais tarde ou mais cedo seremos cúmplices destes assassinos. Pertencemos à mesma nação, mas não por isto somos “irmãos”. Hoje, todavia, para provara que vale a pena pertencer à mesma casa, à mesma nação, devemos reagir. De contrário, nada mais nos resta do que fazer as malas e regressar ao país natal. – Tahar Bem Jelloun; La Repubblica – 27 / 07 / 2016

segunda-feira, julho 25, 2016

ENTREVISTA AO MINISTRO DA CULTURA
A COLECÇÃO MIRÓ

Uma entrevista ao Dr. Luís Filipe Castro Mendes que se pode e deve classificar como muito oportuna e convincente.
 Entrevistado por Inês Nadais e Lucinda Canelas; publicada ontem, domingo, no jornal Público.

A leitura do longo texto proporciona-nos esclarecimentos, da parte do Sr. Ministro, sobre temas importantes e de grande interesse no que concerne, obviamente, as actividades em campo cultural, artístico e científico.  

Primeira observação das jornalistas: “A passagem a ministério soava a uma aposta na Cultura, mas as restrições orçamentais parecem ter vindo contrariar essa intenção”.
O Ministro da Cultura responde:
 “O que me importa é o que está no Programa do Governo e nas declarações do chefe do Governo que põem claramente o eixo no conhecimento e na qualificação. Aí, Educação, Ciência e Cultura desempenham um papel fundamental, e a Cultura, em particular, na criação de cidadãos mais responsáveis, mais críticos, mais participativos, mais exigentes e, portanto, mais dotados para enfrentar os desafios globais do presente”. (O sublinhado é meu)

Oxalá que o último período da resposta constitua o ponto de força e perseverança da actividade de Luís Filipe Castro Mendes num ministério que, sem qualquer exagero, é um motor do progresso e prestígio do País. Com o orçamento necessário ou com restrições financeiras, tudo o que se puder fazer significa caminhar para a frente.

Agradeçamos ter um Ministro cuja cultura e competência estão à prova de bala derrotista, logo, saberá caminhar com os meios disponíveis. O nosso povo bem necessita de quem o esclareça, a fim de melhor assimilar conhecimentos que o arranquem de apatias ou indiferença pelo que o rodeia.

Colecção Miró, a belíssima colecção Miró que estava estupidamente condenada a ser mercadoria de leiloeiros. Sim, uso o vocábulo “mercadoria”, pois foi assim que, de início, consideraram o conjunto de 85 obras de arte - óleos, desenhos e guaches - de um dos grandes pintores contemporâneos. 
No próximo Outono serão expostas no Museu de Serralves. Espero ser um dos primeiros visitantes.

Depois de expostas em Serralves, para onde vão as obras? E quem é que decide as que ficam no país e as que podem ser vendidas?”
Resposta de Castro Mendes:
Quem decide é o Governo. Terá de se fazer uma avaliação. As obras já estão catalogadas e a exposição vai ajudar (a fazer esta avaliação), porque vêm os melhores peritos em Miró. A partir daí, é desejo do Governo que as obras fiquem no Porto”.

Oxalá que todas as entidades responsáveis, e não só, da cidade do Porto saibam ponderar o que significa hospedar, permanentemente, as 85, isto é, todas as obras do grande Miró. Que façam compreender ao Governo que este tesouro é propriedade do país. Tesouros desta natureza não têm nacionalidades, quer o autor seja ou não português.
Coragem, Porto!

segunda-feira, julho 18, 2016

OS INSACIÁVEIS

"Caluda!! Qual ética, qual decência, qual moralidade? É a ética que deve concordar com a minhas conveniências" - assim diria o Sr. Durão Barroso.

Desde a monstruosidade de Nice ao falido golpe de Estado na Turquia, a semana passada é para não esquecer.
Dificuldade a exprimir-me sobre o horror de Nice. Precisamente porque é um horror, dispensa comentários repetitivos.
A insaciabilidade destes monstros, que de pessoas normais se transformaram em imoladores, indiscriminadamente, de vidas humanas, foge a toda e qualquer compreensão.
Pode explicar-se pela pura malvadez, logo, está explicada por natureza? Não chega. Morre-se por um rito dos jihadistas. Horrendo!

E agora um pouco de ironia sobre o golpe militar turco, embora lamentando sinceramente as perdas humanas que daí resultaram.
Seguindo os eventos, é inegável que o Sr. Erdogan rejubila: qual melhor oportunidade para efectuar todas aquelas depurações que robustecerão o poder autoritário que tem vindo a construir?
Como tantos sugerem, não seria uma comédia arquitectada pelo próprio Erdogan? Não surpreenderia. Poder, poder, sempre o poder: insaciáveis!

Mas há outros géneros, mais comuns, de insaciáveis. Estes localizam-se no reino da política onde, frequentemente, o conceito de ética é ignorado e a insaciabilidade surge no seu pior aspecto. È a um personagem desta espécie que desejo dar um relevo especial:

Vinte meses após ter dito adeus à presidência da Comissão Europeia, o Sr. Durão Barroso aceitou o cargo de presidente não executivo do Goldman Sachs, o importante e famoso banco de triste memória na crise económico-financeira europeia e que ainda perdura. Não lhe bastavam os úteis e actividades a que dedica e dedicava o seu tempo.    
José Manuel (Durão Barroso) traz imensos conhecimentos e experiência para o Goldman Sachs, além de um profundo conhecimento da Europa”…, assim se exprimiram representantes do Goldman Sachs International.

A notícia ribombou dentro e fora da Europa; as críticas explodiram com maior estrondo. Os jornais têm sido pródigos em noticiar os comentários de condenação e nenhum deles se caracteriza por eufemismos: “moralmente inaceitável”, falta de ética, vergonha e dignidade, indecente conflito de interesses etc., etc..

Contudo, a qualificação mais insólita, conferida a Durão Barroso, provém da “Liga dos Optimistas do Reino da Bélgica”, liga a que aderiram pessoas das mais diversas categorias sociais: www.liguedesoptimistes.be.

A finalidade da liga é promover “a evolução da mentalidade dos habitantes da Bélgica em direcção de um maior optimismo e reforçar o entusiasmo, o bom humor, o pensamento positivo, a audácia e o empreendimento, a tolerância, assim como o acordo entre os cidadãos e as comunidades”.

Instituíram o “Prémio Internacional para a Ordinarice”. Assim, o “Primeiro Prémio Internacional para a Ordinarice”, neste ano de 2016, foi atribuído a José Manuel Durão Barroso.
Motivação: “Pela indecência da sua traição ao interesse comum europeu, do qual foi o mais alto dignitário de 22 de Novembro 2004 a 03 de Novembro 2014”.

Apesar do culto pelo optimismo, mesmo nas pequenas coisas, … “Talvez este período económico tenha feito perder um pouco de optimismo e é necessário apontar o dedo contra alguém: o 2016 é o ano de Durão Barroso a quem também é dedicada uma frase do humorista francês Guy Bedos: «A ordinarice não se pode improvisar: É-se ordinário. Nasce-se Ordinário. Trata-se de uma debilidade da alma» - Fúlvio Cerutti

terça-feira, julho 12, 2016

A AUSTERILÂNDIA

O novo führer da UE, sobretudo no que concerne questões orçamentais: "Obecei ao que eu digo, mas não olheis para o que nós, alemães, fazemos"

Austerilândia: onde existirá esta localidade, este país? O primeiro pensamento, todavia, voa para uma região continental que abrange 28/27 Estados soberanos (todos soberanos?) a que chamam Estados-membros da União Europeia.

Lendo com mais atenção o texto escrito por Maurizio Ricci, no jornal “La Repubblica” de 09/07/2016, parece que a Austerilândia situa-se em território alemão. Que novidade!...
Quando acho interessante a leitura de um editorial, por vezes agrada-me traduzi-lo e transcrevê-lo neste blogue. Vejamos a que propósito surge o neologismo “Austerilândia”.

OS ECONOMISTAS BCE AOS GOVERNOS: ABRI OS CORDÕES À BOLSA.”
Estais convencidos que a austeridade estrangulou a economia europeia muito mais de quanto Berlim e Bruxelas estejam dispostos a admitir?
Que um cartãozinho vermelho da UE aos défices de Orçamento de Madrid e Lisboa seja uma forma masoquista de autolesão?     
Que os erros de contagem sobre a Grécia não seja um facto excepcional?
Que chegou o momento de reanimar a moribunda economia europeia com potentes incentivos fiscais a consumos e investimentos?
Não sois os únicos: O Banco Central Europeu diz o mesmo.

Na realidade, muitos destes argumentos são defendidos pelo Fundo Monetário Internacional (ou, pelo menos, o seu departamento de estudos).
Neste caso, porém, a advertência não provém da remota Washington, mas do coração da Austerilândia alemã: de Francoforte, onde o BCE de Draghi começa a assemelhar-se a uma patrulha de heréticos assediados em território hostil.
Com efeito, precisamente como nos tempos da inquisição, a heresia é posta a circular à luz do sol (no caso específico, a homepage do BCE), mas sepultada sob gráficos e fórmulas matemáticas, e proposta dentro de um debate que mais exotérico não poderia ser: a discussão sobre o «output gap», o equivalente económico do sexo dos anjos.

O output gap, na verdade, não existe no estado natural, não se pode ver, não se pode medir e nem todos estão de acordo sobre o que seja exactamente. Marek Jarocinski e Michele Lenza, no artigo do último número do Boletim BCE, explicam que, em linha de princípio, corresponde ao desvio da actividade económica (real) do seu potencial (presumível). As complicações vêm imediatamente depois. Porque em período de economia débil, um output gap grande em absoluto, porque a economia parou, reclama incentivos á procura; mas se o problema é, pelo contrário, que o potencial da economia cresce mito lentamente, são necessárias reformas estruturais que a relancem.

Em conclusão, a situação é sempre  mesma desde a crise de 2009: o estímulo fiscal de Obama ou as reformas de estrutura com a etiqueta Schäuble? Obama, aconselham os dois investigadores do BCE, embora estejam bem atentos a não dizê-lo em voz alta.

(…) A crise custou á economia europeia, somente em 2014 e 2015, um output gap de 6% (…) Uma travagem assustadora que subverte as avaliações oficiais, limitadas, para os últimos dois anos, a 2 - 3%. Deduz-se que a economia europeia não somente estacionou, mas vai a pique.
De qualquer maneira, como dizem os dois investigadores, significa que mesmo as estimas oficiais «subavaliaram a amplidão do afrouxamento económico da zona euro» 

(…) O output gap é demasiado amplo, a economia real deve ser relançada e «políticas directas a estimular a procura agregada (via monetário e de orçamento) deveriam ter um papel ainda mais importante no mix da política económica».
É uma absolvição do Quantitative Easing (QE), lançado pelo Banco Central Europeu com a aquisição de títulos públicos, mas também claro convite aos governos singulares para abrir os cordões á bolsa, a fim de estimular a economia.” Maurizio Ricci; La Repubblica – 09/07/2016

segunda-feira, julho 04, 2016

TRAGÉDIAS, OBSCURANTISMOS, DESPEITOS

Mas também mensagens de amizade entre comunidades diversas. “Compartilhemos o nosso dia de festa”: assim entenderam muitas famílias da comunidade muçulmana em Turim, na celebração do início da conclusão do longo jejum do Ramadão.

Muitas famílias deram avio ao impulso de convidar amigos italianos, a fim de compartilhar este dia tão importante para a fé que professam.
Estas são atitudes que gostaria fossem a normalidade entre cristãos, muçulmanos, budistas, judeus, enfim, todos e quaisquer outros credos religiosos que somente devem inspirar, uns aos outros, respeito e natural aceitação.

Infelizmente, assim não é. O obscurantismo é a arma primordial dos regimes totalitários instalados ou que aspiram ao domínio de populações manipuláveis. Uso o adjectivo “primordial”, não somente pelo significado de primeira importância, mas porque, desde os primórdios, o obscurantismo já abria alas aos déspotas da época.

Hoje e ontem, a religião é o elemento ideológico por excelência dos obscurantistas. E quer se trate de revelações teológicas ou costumes civis tradicionais, mas ligados intrinsecamente, tudo faz parte do dogmatismo religioso, sempre imposto severamente.
Os princípios fundamentais, como o “estado de direito e uma laicidade que deve defender os crentes de todas as religiões e os não crentes”, não são contemplados: apresentemos a Arábia Saudita como exemplo incontestável.

A enésima tragédia provocada por terroristas deflagrou em Bangladesh. Entre as vinte vítimas, foram assassinados nove italianos: quatro senhoras e cinco homens, em grande parte empresários da indústria têxtil. As histórias pessoais de todas estas vítimas comovem; alguns italianos tencionavam regressar a Itália; regressarão num féretro.
A Itália, obviamente, ficou chocada. Os serviços televisivos têm coberto intensamente esta tragédia. A selecção nacional italiana decidiu jogar com sinal de luto no braço.

Embora seja já consuetudinário os terroristas islâmicos exigirem, aos reféns, citações do Corão, esta particularidade sempre me chocou. Em Bangladesh, quem não soube recitar versículos do Corão foi degolado.
Usar o Livro Sagrado do Islamismo como justificação para a prática dos crimes mais hediondos, intensificam a hediondez desses crimes e acrescentam um outro, mas este contra o Islão.

A enorme maioria dos honestos e sinceros muçulmanos nada têm a dizer  contra blasfémias similares? Usar o Alcorão em actos de natureza puramente criminosa é aceitável, compreensível?

 Por que razão os vemos passíveis perante esta onda de monstruosidades que, a coberto do Islão, semeiam ódios, morte e crueldades sem fim?
Por que não manifestam, alto e bom som, um geral, claro e decisivo repúdio destes fundamentalistas aventureiros?
Porque, para alguns destes sinceros crentes, ainda dominados pelo obscurantismo, lá no fundo os terroristas são os verdadeiros guerreiros contra a contaminação dos “infiéis ocidentais”?
Estes facínoras não defendem nem lutam por coisa nenhuma. Apenas recolheram a ocasião para extravasar uma natureza árida e eivada de violência: bárbaros da pior espécie, tout court.

E falemos dos despeitosos que se ofendem quando se acena a verdades que lhes dizem respeito e nunca as aceitaram.

Palavras de Sua Santidade, Papa Francisco, na última viagem à Arménia: “Aquela tragédia, aquele genocídio, infelizmente inaugurou o triste elenco das catástrofes imanes do século passado, tornadas possíveis por aberrantes motivações raciais, ideológicas ou religiosas, obscureceram as mentes dos carrascos até ao ponto de predeterminarem a intenção de aniquilar povos inteiros. É tão triste que, seja nesta, como nas outras, as grandes potências viraram a cara para o outro lado. Presto homenagem ao povo arménio…” 

E a Turquia protestou. É historicamente comprovado que cerca de 1 milhão e meio de arménios, em 1915, foram massacrados pelo império Otomano. A Turquia nunca aceitou a classificação de genocídio, referente a esta carnificina. Aliás, sempre a diminuiu: quando muito, tratava-se “só” de 300 mil pessoas!....

Contra o reconhecimento do genocídio, protesta, ofende-se, entende que é um ultraje ao país.
 Modo totalmente errado de encarar os factos. Falta total de responsabilidade e bom senso… ou megalomania desmesurada.
Se, desde o princípio, aceitassem honestamente o que realmente sucedeu, em nada ficariam diminuídos e só cresceriam em dignidade.

Basílica de Santa Sofia, em Istambul: primeiro, Igreja cristã; depois, mesquita; em 1931 convertida em Museu secular

Entretanto, o Governo turco, mais uma vez ofendido contra o uso da palavra genocídio de Papa Francisco, depois dos protestos veio o despeito aos cristãos.

Pela primeira vez, depois de 85 anos, do interior da Basílica de Santa Sofia, em Istambul, "partiu a voz do muezim, após a chamada «noite do poder», na última sexta-feira do Ramadão”. 
Um gesto de desafio consciente ao mundo cristão, também porque de há anos existe a ameaça de ali voltar a orar, elevando louvores ao profeta Mohamed, levada avante com o consentimento directo do Governo turco”.

domingo, junho 26, 2016

NUNCA ACREDITEI 
QUE FÔSSEMOS TÃO ESTÚPIDOS”

Este é o desabafo de uma jovem inglesa, perante o desfecho do referendo nacional. Na minha opinião, só foram egoisticamente “estúpidos” os cidadãos mais velhos, geração cujos valores continuam ligados a uma excessiva insularidade.
Impressionou-me, muito positivamente, a atitude dos jovens britânicos na luta pela permanência do seu país na União Europeia. Merecem esta carta de encorajamento do Director do jornal La Repubblica.

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“Caros jovens, a Europa é vossa: não permitais que vençam os vendedores de medos”

“Caros jovens, nascestes num continente de paz, nunca tivestes a guerra às portas de casa, crescestes sem fronteiras, projectando estudar num outro país, enamorando-vos durante o Erasmus, trocando mensagens com os amigos sobre ocasiões para encontrar trabalho ou sobre os voos mais baratos para assistir a um concerto.
Não importa se nascestes em Cardife, em Bolonha, em Marselha, em Barcelona ou em Berlim. Hoje, os medos dos vossos pais e dos vossos avós decidiram que a Grã-Bretanha voltasse a ser uma ilha, que vós voltásseis a ser estrangeiros no outro lado do Canal da Mancha.”

“Os vossos avós, que sabem o que foi a guerra, deveriam tomar a peito um futuro de liberdade para vós. Porém, juntamente com os vossos genitores, estão a deixar-se encantar por quem afirma que, recolocar muros, fronteiras e arame farpado servirá para fazer-nos viver mais tranquilos, seguros e serenos. Que voltar a ter cada um a própria moeda, recriará emprego, prosperidade e futuro.”

“Estão a narrar-vos que a democracia directa e as sondagens em tempo real resolvem, magicamente, os problemas; que existem sempre soluções simples de fácil alcance; que não há necessidade de peritos e competências; que a fadiga e a paciência já não são valores; que destruir vale mais do que construir. O continente está enfermo, mas a febre de hoje é a simplificação, a ideia que seja suficiente destruir a casa que se nos tornou estreita para vivermos todos comodamente. É pena que só fiquem os escombros.”

“Abri os olhos, olhai para a frente e pretendei uma herança melhor do que dívidas. Queremos ter paz, esperança e liberdade; não a raiva, gritos e medos.”

“Tapai os ouvidos, não escuteis vendedores da banha da cobra e pretendei políticos humildes, pessoas que provem a medir-se com as complexidades do mundo e sejam construtores, não demolidores.”

“Marcai no calendário a data de ontem, 24 de Junho 2016, e começai a caminhar noutra direcção, semeando as cores e as esperanças.”

“Uma rapariga inglesa que votou sim à União Europeia, mas não conseguiu convencer o seu pai e o seu tio a fazer o mesmo, ontem prometeu aos seus amigos europeus, com uma voz tremente que demonstrava embaraço e raiva: «Virá o turno da nossa geração e então voltaremos».
Contamos com isso.” 
Mário Calabrese (Director do jornal La Repubblica) – 25 Junho 2016