segunda-feira, setembro 26, 2016

SESSÕES PARLAMENTARES
 "DEPUTADOS MANDRIÕES"

Algumas das funções parlamentares

A foto retrata os deputados mandriões (fannulloni) no Parlamento italiano. Esta imagem é uma das muitas que os eternizam em sonecas relaxantes ou várias outras ocupações mais atractivas do que seguir, com interesse e participação, o que se debate na sala de sessões. Mas não simboliza somente parlamentares italianos, obviamente.
Procurei fotos idênticas relativas à actividade dos nossos deputados na Assembleia da República. Não vi nenhuma que os mostrasse a ler jornais, entreter-se com o computador, falar continuamente ao telefone, entregar-se à sonolência ou entreter conversas amistosas com os colegas mais próximos.

Os nossos jornalistas e operadores de telecomunicações não estão autorizados a publicar imagens indiscretas dos ilustres deputados?
A pergunta surge-me em consequência da comunicação oficial da Câmara dos deputados italianos, publicada recentemente, embora a Câmara tenha desmentido. Mas talvez seja verdade. 

A partir do próximo 10 de Outubro, «o Código de auto-regulamentação” de jornalistas, operadores de televisão e fotorrepórteres proíbe a captação de objectivos que mostrem deputados que jogam ou dormem durante as sessões, sob pena de proibição de acesso aos trabalhos parlamentares.»
“O Código intima os jornalistas a deter-se, exclusivamente, sobre informações que dizem respeito aos trabalhos do Parlamento e a manter um comportamento baseado no máximo respeito pelas instituições parlamentares”.

A última advertência do “Código de auto-regulamentação” faz-me sorrir, divertida. Certamente que este código, correcto, é de geral aplicabilidade, seja qual for o país democrático em questão.  
No ambiente do segundo órgão de soberania, qual é o Parlamento, primeiro do que quaisquer outros actores a dever cultivar o “máximo respeito pelas instituições parlamentares”, incontestavelmente serão os senhores deputados. E o que se vê? O que transparece?

Pensando agora no nosso País, além das anomalias correntes, o mais evidente e ostensivo são as ausências continuadas e assumidas com toda a naturalidade, porque outras ocupações absorvem os nossos eleitos: cargos diversos e, frequentemente, em grave conflito de interesses, o que me parece decididamente indecente. É isto aceitável e é este o respeito pela Assembleia da República e pelos compromissos legislativos assumidos? É confortante ver o hemiciclo com os lugares dos senhores deputados quase vazio?

E por associação de ideias, foi penoso verificar a preocupação dos dois maiores partidos, PS e PSD, em recuperar os cortes de 10% no financiamento público aos partidos. Verificou-se que os partidos portugueses “são os que mais recebem do Estado e têm o mais alto rendimento em relação ao PIB; dependem em 74,1% do financiamento público” (informações do jornal Público).

A crise económica permanece. Porém, tal circunstância apenas diz respeito aos demais cidadão portugueses. Mas a vergonha parece que se impôs e os dois do “arco da governação” (um arco exemplar!...) reconsideraram. O corte será permanente. Esperemos; e esperemos iniciativas mais equilibradas e respeitosas do erário público.   

segunda-feira, setembro 19, 2016

ENALTEÇAMOS O JUMENTO

Asno de Miranda

Quase sempre evoca-se este animal - asno, burro, jerico, jumento - como paradigma dos humanos ignorantes, estúpidos, imbecis, idiotas, pataratas e por aí adiante. Dizem, todavia, que o asno é mais inteligente que o seu “nobre parente”, o cavalo. Ademais, é dotado de uma mansidão e afectuosidade comoventes.
São excelentes ajudantes nos trabalhos pesados, mas devem ser tratados com atenção e carinho, ao contrário do que fazem tantos brutamontes humanos que só conhecem a brutalidade, diminuindo as capacidades do animal.  

Sempre gostei dos burrinhos (animais, entenda-se!) e se tivesse uma casa com um grande quintal, de certeza que haveria a presença de um exemplar asinino como animal de estimação: o jumento de Miranda, por exemplo. Mas deixemo-nos de divagações e vamos ao concreto.

Existe na Itália, região central de Reggio Emilia, uma empresa agrícola que se tornou líder na Europa: a criação de asnos e exploração inteligente do que esta espécie de equídeos pode oferecer. E oferece tanto.
Iniciou com dois exemplares. Actualmente, possui 800 de oito raças diferentes. Li com atenção donde provêm: além dos naturais de Itália, adquiriu jumentos irlandeses, egípcios, espanhóis… e nenhum português! Que pena.

O leite de asna é muito semelhante ao leite materno de mulher. Após a mungidura, liofilizam-no e distribuem-no pelas lojas biológicas de toda a Itália. Também é largamente utilizado para produtos de beleza.
Cada fêmea de asno apenas produz um litro e meio por dia, muito inferior aos 40 litros extraídos de uma vaca. Daqui, o preço de um litro atingir os 15 euros; o liofilizado chega aos 30.
O proprietário desta empresa agrícola, chamada Montebaducco, projecta criar um queijo natural, embora não seja fácil. Porém, quem luta pelas próprias ideias obtém resultados.

Mas em Montebaducco existe outro aspecto comercial, não menos importante: os jumentos são muito procurados como animal de companhia e para aquilo a que chamam “pet therapy”. Aliás, a manutenção é fácil e barata: diariamente, apenas são necessários 4 quilos de feno e um de farinha. Vendem cerca de 200 animais por ano.

No ano passado, o Vaticano tivera conhecimento da actividade desta empresa agrícola e o proprietário quis oferecer dois jumentos ao Papa Francisco - os dois jumentos, agora, pastoreiam nos terrenos de Castel Gandolfo.
Quando foi recebido pelo Santo Padre, o Papa contou que o interesse por estes animais provinha do facto que, quando bebé, a mãe não tinha leite e fora alimentado com leite de asna, acrescentando: “Naqueles tempos remediava-se deste modo”.

Termino com um desejo e uma forte esperança. Estamos em crise económica. Esta rasteja, não caminha e não é capaz de levantar a cabeça.
Penso que em Portugal existam personagens inteligentes e com ideias criativas. Olhem este exemplo… e tantos outros pelo mundo fora. Dêem vulto à criatividade, removam obstáculos e rochedos que obstruem a chegada aos capitais necessários. Ajam, mandando para as urtigas medos e sujeições a quem nada faz e tudo impede.

segunda-feira, setembro 12, 2016

NA ESTEIRA DE UMA POLÉMICA SEMPRE VIVA,
UMBERTO ECO E INTERNET

Efectivamente, a polémica sobre a “imbecilidade que reina na Internet”, levantada no ano passado por Umberto Eco, prossegue. Gianfranco Marrone, escritor e professore universitário de Semiótica na Universidade de Palermo, no sábado passado publicou um artigo no jornal La Stampa sobre o mesmo argumento. Interessante.
Decidi traduzi-lo, embora o uso abundante da intercalação de frases no discurso não facilite a rápida assimilação dos argumentos do Sr. Professor de Semiótica.  

******* 
“UMBERTO ECO TINHA RAZÃO,
O WEB CRIA ESTÚPIDOS INTELIGENTES”

"Ireneu Funes, herói de memória em excesso, não tinha corpo. Ou, quando muito, utilizava-o o menos possível.
Recordando tudo de tudo até aos ínfimos detalhes da mais banal das situações, cada coisa e cada percepção das coisas, cada palavra escutada, cada sentimento experimentado, Funes preferia viver na obscuridade, pensando o menos possível e existindo o mínimo indispensável.
Demasiadas coisas na mente, a fim de poder armazenar outras diversas. Mas com qual princípio ordenador? Com qual método? Acabava por ser - nota Jorge Luís Borges, o seu visionário inventor – uma pura voz: alta, nasal, burlesca. Efémera."

"Tenhamos presente esta parábola hiperliterária, simplesmente porque Umberto Eco a utilizou para explicar o funcionamento da rede, os mecanismos da Internet, os efeitos cognitivos e estéticos dos social network.
Eco e Borges, os dois autores máximos das totalizações impossíveis – a biblioteca infinita, o labirinto semiótico, o mapa um a um, Menard que reescreve Cervantes… - também assim se encontraram a compartilhar o problema da memória ambivalente: poucas recordações imbecilizam; recordações excessivas, idem.
Indubitavelmente, aquela que é – pelo menos desde os sapientes gregos aos gigantescos reservatórios das hodiernas máquinas pensantes, passando pelos big data dos péssimos da última hora – a principal prerrogativa da inteligência e do conhecimento, da ciência e da filosofia, isto é, a memória, vê-se entalada entre duas idiotices opostas e complementares: a incapacidade cognitiva do desmemoriado recidivo e a jactância inútil de quem recorda para além do necessário

Funes considera os humanos, distraídos incuráveis, seres que lhe são inferiores. Porém, tem um medo instintivo deles, porque, contrariamente a si mesmo, mais ou menos sabem como viver. Posto o caso desta maneira, o assunto polémico dos estúpidos na rede – que Umberto Eco, provocando-nos até ao extremo, quis consignar-nos – adquire uma nova forma. 
Recordar-se-á a polémica que tinha desencadeado, no ano passado e poucos meses antes de falecer, com uma sua declaração pública (“A Internet está cheia de imbecis”), sobretudo, como é óbvio, na própria Internet. Todos a declarar que não é verdade; que o mestre, desta vez, cometeu um erro; que a rede é o melhor dos mundos possíveis… e ultrapasso os insultos.
Num dos seus últimos artigos, Eco replicou manhosamente, apresentando uma cajadada de contas: Facebook multiplicou os bares do desporto, de maneira que, qualquer pessoa e em qualquer momento sente-se no direito de falar a despropósito."

"Mas o debate ainda continua aberto e serve para reflectir, não só sobre o Web e os seus resíduos, como sobre o sentido profundo da estupidez. De nenhuma maneira evidente.
Musil, por exemplo, observava que não há pior estúpido do que aquele que ostenta a própria inteligência.
Barthes recordava que é necessário sentir-se estúpidos para sê-lo de menos.
E já Flaubert repetia que a verdadeira idiotice consiste em querer deduzir. Tem de quê.
Quanto à rede, falou-se de tudo e do seu contrário. Aplaudida, quando nasceu como a panaceia de todos e de todas as dores de barriga ideológicas, terreno onde a liberdade de palavra teria nutrido o peace-and-love pós-californiano, tornou-se no inferno ao ar livre, onde ignotos oligarcas sugam o sangue esbranquiçado do povo-boi. Ainda se fosse somente cretinice! A dialéctica entre apocalípticos e integrados é viva e em boa saúde, e é curioso que estar-lhe dentro parece estar o próprio Eco, o qual há 50 anos a tinha criticado.

E aqui entra em jogo um profeta pouco escutado, qual é José Ortega y Gasset que em “Rebelião das Massas”, 1930, tinha visto justo: todos somos cretinos e sapientes ao mesmo tempo.
Um especialista de física subatómica balbuciará parvoíces sobre políticas internacionais. Um Prémio Nobel em literatura intervirá com uma embaraçante cara zangada sobre escolhas financeiras planetárias. Um engenheiro maturo palpitará, lendo poesias de quatro patacas à namorada.
Isto é, não existe sabichão que não seja embaraçantemente tonto fora do seu terreno de investigação científica; não há pensador heidggerianamente autêntico que saiba fazer funcionar um smartphone da última geração."

"Todavia e a este ponto, hoje todos se encontram ardentemente nas redes sociais. E não é somente um problema de números. Desconjuntam-se documentos poeirentos. Recompõem-se paradigmas adquiridos. Por um lado, Facebook, Twitter e sócios doam a quem quer que seja a responsabilidade de palavra, assumida com ligeireza e insipiência, dando livre curso às opiniões mais duras e mais puras. Por outro lado, os chamados “média 2.0” redimensionam todos e súbito, nivelando cada biodiversidade cultural dentro das grades  pré-constituídas de um format de adolescentes. E tudo fica registado, escrito, arquivado ao acaso, porém, conservados.
Fale quem pode, os outros, para trás do quadro preto: a fim de fazer companhia àquele idiota Funes."  -  Gianfranco Marrone; La Stampa - 09 / 09 / 2016 

segunda-feira, setembro 05, 2016

E A TERRA CONTINUA A TREMER!

Mensagem que Andrea, bombeiro, depôs no féretro da pequena Giulia

Ao incomensurável susto da primeira arremetida destruidora do terramoto das regiões Lácio, Umbria Marche, no centro de Itália, da madrugada de 24 de Agosto até hoje, a terra não se acalma e o pavor, para os sobreviventes das zonas atingidas e habitantes das localidades próximas, tornou-se contínuo.

Tenho seguido com atenção reportagens e notícias provindas de Amatrice, Accúmoli e as demais cidades devastadas. Paralelamente ao horror, os actos de grande solidariedade e o trabalho incansável de todos aqueles socorristas, bombeiros e agentes da protecção civil que tudo tem feito para salvar vidas e afastar perigos, são comoventes.

Escavar horas e horas nos escombros para resgatar seres humanos: alguns já cadáveres; outros, felizmente, ainda com vida.
É admirável o carinho como estes profissionais reagem ante os efeitos dos seus esforços; esforços que não deixam de ser perigosos, mas que os não afastam nem fazem desanimar. São profissionais bem preparados, mas, sobretudo, dotados de muita humanidade.
Até no salvamento de animais, o que também me emociona, não diminui a satisfação que sempre manifestam pelos resultados obtidos.

Mas não quero perder-me em mais considerações que, em fim de contas, tornam-se óbvias.

Houve imagens que foram classificadas como ícones do terramoto. Talvez o exemplo mais conhecido seja o caso de Georgia, uma menina de 4 anos, salva pela irmã mais velha, Giulia, de 10 anos. É a este exemplo que desejo dar atenção especial.

Após 16 horas de escavação entre os escombros, encontraram Giulia em posição protectiva, fazendo de escudo à irmãzinha.
Giulia foi encontrada já sem vida; a pequenina Giorgia ainda respirava. Foi uma alegria quando os seus salvadores emergiram com a menina, viva, ao colo. A fotografia deste acontecimento correu mundo.

No primeiro funeral das vítimas, em Ascoli Piceno, um dos bombeiros que cooperou no salvamento das duas crianças, enternecido, instintivamente escreveu e deixou uma mensagem que depôs no caixão de Giulia. Traduzo-a, procurando interpretar, na nossa língua, toda a ternura que exprime.

Olá, pequenina, apenas dei uma ajuda para tirar-te fora daquela prisão de escombros. Desculpa se chegámos tarde. Infelizmente, já não respiravas, mas quero que saibas, lá de cima, que fizemos tudo quanto foi possível para tirar-vos fora dali.
Quando regressar à minha casa em Acquila, saberei que me verás do céu e, de noite, serás uma estrela luminosa. Adeus, Giulia. Embora nunca me tivesses conhecido, quero-te mito bem.
Andrea”.  

domingo, agosto 07, 2016

AGOSTO, MÊS DE DOCE OCIOSIDADE

Quatro guardiães lindos e atentos

Chegámos ao mês de Agosto, mês por excelência para interromper a os encargos de trabalho profissional e aqueles empenhos imprescindíveis da quotidianidade - é justo dizer, todavia, que nem para todos o mês de Agosto é ocasião para alhear-se das actividades normais.

Pode também constituir um período para ocupar o cérebro com outras atracções ou com o simplicíssimo dolce far niente. Como de costume, neste período opto pela “doce ociosidade”. E sendo assim, interrompo, por breve tempo, a minha conversa com o computador, deixando aqui os meus guardiães em quem tanto confio. Incontestavelmente lindos!

Escrevi duas vezes o vocábulo “período”. Veio-me agora ao pensamento o quanto, para mim, é sumamente irritante ouvir tantos sabichões que se exprimem nos nossos canais televisivos, entre os quais muitas figuras políticas, ignorar a tónica desta palavra e mimosear-nos com o periúdo.

Devo confessar que este tema, sobretudo no que concerne a ortografia, tornou-se uma quase obsessão. Não aceito que pessoas com formação superior acolham, com vergonhosa passividade, o abastardamento a que votaram o nosso idioma, quer no campo ortográfico, quer ortofónico.

Mas temos a ortografia malaqueira, que mais desejamos? Por que razão surpreendermo-nos se, nos jornais estrangeiros, quando publicitam a aprendizagem de várias línguas, o símbolo do português é a bandeira do Brasil?

Como é possível que os grandes competentes na matéria aceitem, passiva e indiferentemente, a destruição deste excelente património? Acordem! Reajam e defendam vigorosamente o que é de todos os portugueses e não de um ousado e limitado grupo de incompetentes! Sim, de incompetentes. Certas anomalias da “ortografia malaqueira” jamais seriam consideradas por um bom conhecedor da língua portuguesa ou, acima de tudo, por um linguista bem preparado.

segunda-feira, agosto 01, 2016

APELOS À COMUNIDADE MUÇULMANA

Finalmente apaga-se a cautela e lançam-se apelos às comunidades islâmicas que vivem nesta Europa massacrada por terroristas que se apregoam defensores do Islão.
Ontem, porém, ocorreu uma reacção inédita e, acrescento, digna do maior ressalto. Quer em França, quer na Itália, houve a presença de milhares de muçulmanos a assistir à missa, juntamente com os fiéis católicos, em várias igrejas. Foi um excelente sinal. Oxalá seja o prelúdio de uma perfeita harmonia de solidariedade e confraternização entre credos diversos.

Mas voltemos às mensagens que vão surgindo na imprensa. A primeira tem a data de 24/07/2016. É da autoria do vice-director do jornal La Stampa, Massimo Gramellini. Alguns extractos:
Caro muçulmano, os teus irmãos, agora, somos nós”.
Caro muçulmano não integralista que vives no Ocidente, sai para a rua. (…) Bem ou mal, o Ocidente acolheu-te, oferecendo-te a possibilidade de uma vida mais digna do que aquela que te era consentida na terra da qual te afastaste. Agora és um de nós. O teu irmão não é o camionista de Nice, mas a criança que as suas rodas esmagaram.
 Não podes continuar a negar a evidência e virar a cara para o outro lado. Ultrapassaste aquele confim subtil que separa a indiferença da cumplicidade. (…).

E eis, cabalmente, o que exprime o prestigiado escritor marroquino Tahar Bem Jelloun:
A minha carta aos irmãos muçulmanos: denunciemos quem escolhe o terror”
“O Islão reuniu-nos na mesma casa, uma nação. Que o queiramos ou não, todos pertencemos àquele espírito superior que celebra a paz e a fraternidade. No nome “Islão” está inserida a raiz da palavra “paz”. Mas eis que de há um certo tempo a noção de paz é traída, lacerada, espezinhada por indivíduos que sustentam pertencer a esta nossa casa, mas decidiram reconstruí-la sobre bases de exclusão e fanatismo. Para isto entregam-se ao assassínio de inocentes. Uma aberração, uma crueldade que nenhuma religião permite.”

“Hoje superaram uma linha vermelha: entrar na igreja de uma pequena cidade da Normandia e agredir um ancião, um padre, degolá-lo como um cordeiro, repetir o gesto sobre uma outra pessoa, deixando-a por terra no seu sangue entre a vida e a morte, gritar o nome de Daesh e depois morrer. É uma declaração de guerra de novo género, uma guerra de religião. Sabemos quanto pode durar e como acabará. Mal, muito mal.”

Portanto, após os massacres de 13 de Novembro em Paris, a carnificina de Nice e outros crimes individuais, somos todos chamados a reagir: a comunidade muçulmana dos praticantes e de quem o não é; vós e eu; os nossos filhos; os nossos vizinhos.
Não basta insurgir-se verbalmente, indignar-se mais uma vez e repetir que “isto não é o Islão”. Já não é suficiente e, sempre com maior frequência,  não somos credíveis, quando dizemos que o Islão é uma religião de paz e tolerância.
Já não podemos salvar o Islão… ou talvez, se queremos restabelecê-lo na sua verdade, na sua história e demonstrar que o Islão não é degolar um sacerdote, então saiamos em massa para a rua e unamo-nos sob a mesma mensagem: libertemos o Islão das garras de Daesh. Temos medo, porque sentimos raiva. Mas a nossa raiva é o início de uma resistência, isto é, de uma mudança radical do que é o islão na Europa.

Se a Europa nos acolheu, é porque tinha necessidade da nossa força trabalho. Se em 1975 a França decidiu a junção familiar, fê-lo para dar um rosto humano à imigração. Consequentemente, devemos adaptar-nos ao direito e às leis da República; renunciar a todos os sinais provocatórios de pertença à religião de Mohamed. Não temos necessidade de obrigar as nossas mulheres a cobrir-se como fantasmas negros que, em público, assustam as crianças; não temos o direito de impedir a um médico de auscultar uma mulher muçulmana nem de pretender piscinas só para mulheres. Assim como não temos o direito de deixar agir estes criminosos, se decidem que a própria vida não tem importância e oferecem-na a Daesh.

Não só: devemos denunciar quem, entre nós, é tentado por esta aventura criminosa. Não é delação, mas, pelo contrário, um acto de coragem para garantir a segurança de todos. Bem sabeis que em cada massacre, entre as vítimas, contam-se muçulmanos inocentes.
Devemos estar vigilantes a 360 graus. Logo, é necessário que as instâncias religiosas se movam e façam apelo a milhões de cidadãos pertencentes à casa do Islão, crentes ou menos, para que saiam a público e denunciar em voz alta este inimigo; para dizer que quem degola um padre faz escorrer o sangue do inocente na face do Islão.

Se continuamos a olhar passivamente o que se está a tramar diante de nós, mais tarde ou mais cedo seremos cúmplices destes assassinos. Pertencemos à mesma nação, mas não por isto somos “irmãos”. Hoje, todavia, para provara que vale a pena pertencer à mesma casa, à mesma nação, devemos reagir. De contrário, nada mais nos resta do que fazer as malas e regressar ao país natal. – Tahar Bem Jelloun; La Repubblica – 27 / 07 / 2016

segunda-feira, julho 25, 2016

ENTREVISTA AO MINISTRO DA CULTURA
A COLECÇÃO MIRÓ

Uma entrevista ao Dr. Luís Filipe Castro Mendes que se pode e deve classificar como muito oportuna e convincente.
 Entrevistado por Inês Nadais e Lucinda Canelas; publicada ontem, domingo, no jornal Público.

A leitura do longo texto proporciona-nos esclarecimentos, da parte do Sr. Ministro, sobre temas importantes e de grande interesse no que concerne, obviamente, as actividades em campo cultural, artístico e científico.  

Primeira observação das jornalistas: “A passagem a ministério soava a uma aposta na Cultura, mas as restrições orçamentais parecem ter vindo contrariar essa intenção”.
O Ministro da Cultura responde:
 “O que me importa é o que está no Programa do Governo e nas declarações do chefe do Governo que põem claramente o eixo no conhecimento e na qualificação. Aí, Educação, Ciência e Cultura desempenham um papel fundamental, e a Cultura, em particular, na criação de cidadãos mais responsáveis, mais críticos, mais participativos, mais exigentes e, portanto, mais dotados para enfrentar os desafios globais do presente”. (O sublinhado é meu)

Oxalá que o último período da resposta constitua o ponto de força e perseverança da actividade de Luís Filipe Castro Mendes num ministério que, sem qualquer exagero, é um motor do progresso e prestígio do País. Com o orçamento necessário ou com restrições financeiras, tudo o que se puder fazer significa caminhar para a frente.

Agradeçamos ter um Ministro cuja cultura e competência estão à prova de bala derrotista, logo, saberá caminhar com os meios disponíveis. O nosso povo bem necessita de quem o esclareça, a fim de melhor assimilar conhecimentos que o arranquem de apatias ou indiferença pelo que o rodeia.

Colecção Miró, a belíssima colecção Miró que estava estupidamente condenada a ser mercadoria de leiloeiros. Sim, uso o vocábulo “mercadoria”, pois foi assim que, de início, consideraram o conjunto de 85 obras de arte - óleos, desenhos e guaches - de um dos grandes pintores contemporâneos. 
No próximo Outono serão expostas no Museu de Serralves. Espero ser um dos primeiros visitantes.

Depois de expostas em Serralves, para onde vão as obras? E quem é que decide as que ficam no país e as que podem ser vendidas?”
Resposta de Castro Mendes:
Quem decide é o Governo. Terá de se fazer uma avaliação. As obras já estão catalogadas e a exposição vai ajudar (a fazer esta avaliação), porque vêm os melhores peritos em Miró. A partir daí, é desejo do Governo que as obras fiquem no Porto”.

Oxalá que todas as entidades responsáveis, e não só, da cidade do Porto saibam ponderar o que significa hospedar, permanentemente, as 85, isto é, todas as obras do grande Miró. Que façam compreender ao Governo que este tesouro é propriedade do país. Tesouros desta natureza não têm nacionalidades, quer o autor seja ou não português.
Coragem, Porto!