segunda-feira, fevereiro 10, 2014

O VALOR DAS OPINIÕES

Qualquer que seja o tema que se discute ou pondera, reservo sempre a mesma atenção a todo o género de opiniões: objectivas ou facciosas; superficiais ou aprofundadas; materialísticas ou racionalmente cultas. No fim, tiro as minhas conclusões e estas, obviamente, de acordo com o que sinto e penso.

Foi um bom passatempo, e não exagero, ler e retalhar o que se escreveu sobre a colecção Miró.
Sim, ainda este assunto, mas noutra dimensão, pois já se disse tudo e o contrário de tudo: pró e contra o leilão; arte e monetarismo, etc., etc.
Confrontei, então, os pontos de vista dos portugueses com o que pensaram e escreveram fora do nosso país

Não me pareceu muito abonatória para alguns colunistas portugueses que se exprimiram sobre um assunto que, como é noto, envolve arte, política, materialismo, crise e mentalidades utilitaristas que não têm projecção para horizontes alargados.

Deram maior peso aos 36 milhões que se poderia encaixar (segundo pessoas competentes, o valor da colecção poderia chegar até 160 milhões), assim como à forma errada e pouco lucrativa como a venda se processou.

Houve muitos mas e muitos ses, todavia e acima de tudo, divaga-se sobre a oportunidade de a vender toda de uma vez ou obter mais úteis com vendas espaçadas. O utilitarismo prevaleceu. Ora eu pergunto a estes editorialistas ou comentadores: estamos assim tão avassalados, tão endurecidos, tão resignados a aceitar tudo o que este Governo faz e comanda e sem jamais lhe exigirmos contas daquilo que não faz e onde o deve fazer ou deveria ter feito? Um governo onde predomina a ignorância e incompetência?! Que tristeza!

O Estado não gastou milhões para comprar a colecção. Surgiu-lhe um tesouro cultural deste género, portanto, conserva-se. Para enfrentar a dívida, procura-se outros valores, jamais concedendo, descaradamente, fundos a interesses privados. Citemos, como exemplo, os financiamentos às escolas privadas, localizadas onde existe oferta pública.  

Daniel Oliveira escreveu no Expresso: (…) “Não há entre o autor ou estas obras e Portugal nenhuma relação especial. Nem especial, nem outra, para dizer a verdade. Não é património nacional”.
(…) Mas é de dinheiro que estamos a falar, certo? Porque se é de política cultural, desculpem, mas não acompanho a indignação. Que se valorizem os quadros de Miró e se ponha a colecção a render. Se um dia valer a pena vender, que se venda. Bem precisamos de dinheiro para ter artistas a produzir obras… “

Li outras opiniões coincidentes com esta. Apenas gostaria que me esclarecessem se verdadeiras obras de arte – aquelas que encantam os olhos e provocam emoções - têm nacionalidade ou não pertencem, simplesmente, à humanidade, seja qual for o criador, seja qual for a localidade onde foram criadas.
Que mentalidades tão estreitas!

Vejamos o que se escreveu no quotidiano La Stampa, de Turim:
Até mesmo Ionescu esbugalharia os olhos: somente as dúvidas legais da célebre casa de hastas londrina, Christie’s, pararam, no último instante, a mais vergonhosa venda cultural, ao desbarato, pelo Estado português, isto é, a venda das 85 obras do genial pintor surrealista espanhol, Joan Miró.
As telas pertenciam ao falido (depois nacionalizado e revendido) Banco Português de Negócios que deixou um buraco de 1800 milhões nas contas do Estado.”
A história grotesca nasce em 2006, quando o BPN adquiriu o lote de quadros, desenhos, guaches do milionário japonês Kazumasa Katsuta, o mais importante coleccionador mundial de Miró, que, por sua vez, o tinha adquirido da viúva de Matisse. Preço: 34 milhões de euros. O BPN comprou os tesouros que atravessaram toda a vida artística do mestre apenas como investimento financeiro. Tanto assim, que, desde então – incrível, mas verdadeiro – nunca os expôs em público. Em 2008, o banco tem um buraco estimado em 7 mil milhões de euros. (…)
Em 2011, Portugal pediu à troika (EU, BCE, FMI) uma âncora de salvação, 78 mil milhões de euros. Uma das condições do empréstimo, custado lágrimas e sangue, é privatizar o “privatizável”. O BPN foi privatizado, ficando o Estado com as dívidas e as obras de Miró. Este ano, Coelho decidiu vendê-las. (…) – Gian Antonio Orighi

Apenas ter lido o primeiro parágrafo, senti vergonha pela gente que nos representa oficialmente.

A nota quase constante, em vários jornais, é o espanto pela ocultação destas obras no nosso país:
Todavia, estiveram expostos por vários dias na Christie’s, o que não sucedeu em Portugal, pois os portugueses, apesar de estar a pagar a factura de sete mil milhões de euros que deixou a privatização do BPN – processo pelo qual o Estado luso adquiriu as obras - nem sequer puderam contemplar uma única vez os quadros de Miró” – El Mundo – 04/02/2014

Como remate, de El Mundo recolho a parte final:
Mesmo assim, os 35 milhões de euros que o Governo de Lisboa conseguiu pela venda dos quadros, de pouco servirão para tapar o buraco de sete mil milhões que deixou a nacionalização do BPN.”