sexta-feira, Dezembro 07, 2007

O ACORDO ORTOGRÁFICO SAIU DO LETARGO

Só me pergunto por que não deixaram na gaveta, a dormir in aeternum, o novo acordo ortográfico entre os países de língua oficial portuguesa!
Que benefício traz à nossa língua este contínuo remexer na ortografia? Porventura o acordo luso-brasileiro de 1945 já não merece crédito, talvez porque o acham obsoleto, incompleto, complicado? E quem o diz? Filólogos, Linguistas que se divertem a alterar, periodicamente, a estrutura da língua que falamos e escrevemos (o que não creio)?
É assim tão difícil a escrita do nosso idioma? Como se o francês, italiano ou espanhol fossem mais acessíveis!...

Há uma circunstância que se me antepõe a todas e quaisquer outras considerações.
O estudo acurado e a tenacidade como os técnicos do acordo de 1945 – o grande filólogo e lexicólogo Francisco Rebelo Gonçalves e o filólogo brasileiro, Prof. Sá Nunes - estabeleceram uma certa unidade da língua falada nos dois países, foi um trabalho tão efémero ou superficial que, passados 45 anos, de novo se teve de alterar 1,8% da ortografia do português europeu?
O que estes dois grandes estudiosos fizeram não mereceria uma maior atenção e respeito? A conferência de 1945 foi insignificante, imperfeita? Não, não foi.

É interessante reler o prefácio de Ribeiro Couto (da Academia Brasileira de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa), em 1947, do “Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa” de Rebelo Gonçalves.
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Lê-se na página XI: Se a língua portuguesa tiver que evoluir no Brasil para variações sintácticas e prosódicas cada vez mais sensíveis, como é possível que suceda ao longo dos anos, o Acordo de 1945 não será de obstáculo a essa evolução”.

É justo que assim seja; mas deve o português de Portugal correr atrás das evoluções brasileiras? Falamos uma língua ou passou a dialecto sem raízes?

Obviamente que as variações são muitas, sobretudo prosódicas. Crescem, então, as perplexidades: por que motivo não devemos manter a nossa ortografia mais próxima da etimologia e menos da “corrente fonética”, ao contrário do que agora pretendem? É premente essa necessidade?

Uns aduzem que é para facilitar a aprendizagem do português. Dou uma sugestão: reduzam-no à linguagem das mensagens dos telemóveis, eliminando regras; a modernidade e facilitismo ficam assegurados.
Outros justificam que não “faz sentido que em instâncias internacionais apareça uma variante da língua que se diga brasileira, quando a língua é a mesma”. Não vejo onde esteja a dificuldade.
Os categóricos afirmam que só manifesta ignorância ou ligeireza quem não aceita esta nova alteração ortográfica.
Os defensores e propulsionadores são os únicos iluminados! Não obstante, apraz-me fazer parte da percentagem dos “ignorantes/superficiais”!
Uma língua viva evolui dentro das leis naturais, não de acordos pro tempore.

Este acordo centra apenas a questão ortográfica, como é óbvio. Porém, a sintaxe brasileira, o modo brasileiro de se exprimir, aproxima-se da sintaxe portuguesa? Não me parece. Em tal caso, da parte nossa, é sobretudo a eliminação de consoantes – consoantes, na sua maioria, com funções ortoépicas – que faz a diferença, contribuindo para a unificação? Não, não faz, e as diferenças sempre existirão.

Não é anormal que haja variações semânticas entre o português de Portugal e o português falado nos demais territórios de língua oficial portuguesa.
A linguagem desses países fatalmente que sofre a influência do meio, costumes e muitos outros factores próprios da situação geográfica em que se encontram; é inevitável. Todavia, por mais voltas que lhe dêem, a base, a cepa donde emana, será sempre o português que os Portugueses deixaram.

Se ao nosso vocabulário chegam novas palavras daí provenientes, bem venham, já que é uma riqueza, como sempre foi, para o léxico português. E aí, sim, a modernização impõe-se.
Não julgo estranho, portanto, que haja as tais variações sintácticas, prosódicas ou semânticas.

O que me parece anómalo e pouco decoroso é a nossa síndrome dos «apenas» “10 milhões de falantes europeus contra 200 milhões na América e em África” (Francisco J. Viegas - dupla identidade?) e, de consequência, o nosso idioma ter de balançar, periodicamente, ao sabor das oscilações do português dessas áreas.
Mais ainda, o receio de ficarmos sufocados ou “orgulhosamente sós”. E daí?!

De novo, pergunto: onde nasceu a língua portuguesa? Não seria mais positivo, e óbvio, que este português da velha Europa representasse um ponto firme de referência?

Como não soubemos ou não quisemos potenciar o ensino do português fora do nosso território, o que foi imperdoável - nisto tem razão Francisco José Viegas - não vejo razão para abdicarmos daquela dignidade – sim, dignidade, digamo-lo sem receios de retórica balofa - que é peculiar de quem sempre curou o prazer de se exprimir e ler o português de Portugal: o português que não quer afastar-se, acossado, das principais raízes donde proveio. E não me perturbará saber se, para defender esse status quo, seremos apenas 10 milhões!
Alda M. Maia

2 Comments:

At 3:24 da tarde, Blogger as-nunes said...

Mui estimada e lutadora inflexível por causas nobres, que bem as entendo como vindo de uma pessoa bem formada e consciente da necessidade imperiosa de nos defendermos contra aquilo a que andamos a chamar "globalização". Ou seja, segundo alguns iluminados com poder, há que ceder à força das estatísticas e das necessidades temporais de comunicação na área económica.
Não! Uma Língua, viva como a nossa, de origens remotas, construída ao longo de milénios, não pode abastardar-se só porque no jogo dos números, nós em Portugal, somos 10.000.000 e os restantes falantes do Português, magistralmente usada por Luís de Camões e por milhares de outros que se lhe seguiram, ainda que relegados à sombra do anonimato, são 20 vezes mais, não pode andar constantemente em bolandas. Estou de acordo que a fonética não pode ser a razão principal para alteração dos princípios estruturantes do português.
Tanta pressa para quê?!...
Há que dar tempo ao Tempo.
Um abraço, querida amiga
Bom Natal
António

 
At 6:33 da tarde, Blogger Alda M. Maia said...

Ciao, António!
Um meu sobrinho de Braga -um dos meus 12 leitores - chamou-me a atenção para o seu comentário.
Fico satisfeita de o ler e contente por ver que está de acordo comigo. Acredite que me irritam os argumentos que usam para mexericar neste nosso "português de Portugal".
Um abraço amigo para toda a Família.
Bom Natal, mas espero expressar estes votos no seu blogue.
Um beijinho aos netinhos
Alda

 

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