RETÓRICA VAZIA,
CONSERVADORISMOS BAFIENTOS
È isto o que melhor
caracteriza as democracias europeias actuais. Retóricas sobre conceitos
deteriorados e bem demonstrativos da vacuidade de quem as profere;
conservadorismos bafientos e descaradamente materialistas: eis o que mais fere
uma democracia autêntica, na sua correcta interpretação, e que estes princípios
do século XXI tanto têm desvirtuado.
Não, não quero falar
da nossa trapalhada política, pós-eleições, que ainda não sabemos aonde nos conduz e
como se desenvolverá. Hoje quero dar mais atenção ao que se passa no Médio
Oriente.
Mas, primeiro,
falemos de uma iniciativa muito interessante do proprietário de um restaurante
israeliano, situado numa localidade da costa mediterrânica de Israel. Naquele
restaurante, tudo a metade do preço se, à mesma mesa, comem judeus e árabes. E
explica: “Entre nós não há judeus nem muçulmanos, mas somente seres humanos. Se
vêm pares mistos de árabes e judeus, pagam apenas metade da conta final”.
O resultado está a
premiar a decisão deste dirigente do restaurante “Hummus Bar” e cujo nome é
Kobi Tzafrir.
As marcações
cresceram e os clientes aumentaram. O senhor Tzafrir explica: “Muitos, embora
possam pedir o desconto de 50%, preferem pagar a conta inteira, a fim de
sustentar a minha iniciativa”.
Moral da história?
Antes de mais, um grande aplauso ao proprietário do restaurante. Quantos
Tzafrir haverá, quer do lado israelita, quer palestiniano? Quantas pessoas de
boa vontade que, ansiosamente, desejam a paz?
Os fundamentalismos e
intransigências de ambas as partes abafam as vozes conciliadoras, pois apenas concebem ódios e violências.
Conservadorismos transformados em fundamentalismos bafientos e sem nenhuma razão que os justifique. Nenhuma!
O pior culpado? Há
culpas dos dois lados. A política de Israel, porém, tudo tem feito para
agudizar e eternizar um conflito sem fim à vista. O actual primeiro-ministro,
Benjamim Netanyahu, então, é o perfeito intérprete da direita nacionalista e fundamentalista.
Para esse fim tem sido eleito, obviamente.
Abraham
B. Yehoshua, um dos
grandes escritores israelianos, frequentemente escreve para o jornal La Stampa.
Imprimo sempre os seus artigos. Quero ter o gosto de o reler com melhor
atenção.
Sobre as culpas de
Israel não usa eufemismos e sempre as denuncia. No dia 17 /10/2015, publicou
um artigo cujo título é “Jerusalém
unificada para a paz”.
Nascido em 1936, em Jerusalém,
cidade na qual os seus antepassados viviam de há cinco gerações, descreve a infância,
as convulsões e guerras que marcaram a sua vida e dos demais judeus, seus
conterrâneos.
Dissertando sobre a “Guerra
dos seis dias”, exprime-se claramente sobre a política errada do Estado de Israel.
(…) “Mas depois da derrota dos exércitos do
Egipto e da Síria e a ocupação da Jerusalém palestiniana, verifica-se uma
mudança, uma viragem profundamente ligada à cidade. Com efeito, em vez de criar
uma única municipalidade, como antes de 1948, procurando manter o respeito e a
colaboração entre residentes e decretando um status especial (religioso e
internacional) para o quilómetro quadrado dentro dos muros da cidade velha
(sede dos lugares santos para o Hebraísmo, o Islão e o Cristianismo), o
conceito de «libertação», errado e pretensioso, abafou o de «unificação» na
consciência política de Israel, levando-a a antepor pedras, edifícios e colinas
aos seres humanos, principalmente aos residentes palestinianos de Jerusalém,
originários da cidade e descendentes de antigas famílias aqui residentes de há
séculos” .
“E missão desta «Jerusalém libertada» deveria ter sido o de funcionar,
quanto possível, como uma espécie de barreira territorial entre a Judeia, a Sul,
e a Samaria, a Norte, de modo a cortar a continuidade territorial de um
eventual Estado palestiniano. Para atingir este fim, as autoridades israelitas
começaram, portanto, a construir bairros judaicos na zona oriental de Jerusalém,
englobando no seu território aldeias palestinianas que nunca pertenceram, antes,
ao seu núcleo urbano.
Se
nas vésperas da Guerra dos seis dias não havia um único palestiniano na Jerusalém
israeliana, hoje em dia, na cidade «libertada», capital de Israel, vivem cerca
de 250.000 palestinianos”. (…) Todavia, em relação aos residentes hebraicos,
estes jerosolimitanos árabes sentem-se cidadãos de segunda classe, na sua
cidade natal”. (…)
(…)
Bairros palestinianos e judaicos estão de tal forma misturados uns com os
outros e pegados uns aos outros que qualquer separação administrativa seria irrealizável.
“No
entanto, talvez fosse ainda possível pôr de lado o falso conceito de
«libertação» e falar, mais racionalmente, de «unificação».
Em
primeiro lugar, restituindo à Autoridade Nacional Palestina o controlo das
povoações palestinianas anexas a Jerusalém.
Em segundo lugar, criar
municipalidades locais com poderes decisivos nos bairros com uma presença
relativamente homogénea de residentes palestinianos. E assim se impediriam infiltrações provocatórias de integralistas
judaicos. (o sublinhado é meu)
Por último, fazendo respeitar a absoluta autonomia de lugares
santos cristãos e muçulmanos que, pertencendo a minorias, necessitam de
especial protecção”.
Abraham
Yehoshua – La Stampa, 17/10/2015
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Qualquer observador
ou comentador bem informado nada mais acrescentaria que fosse diferente desta
análise crítica do ilustre escritor israelita.
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