segunda-feira, fevereiro 18, 2013

“COMO VAI SER O JORNALISMO
NOS PRÓXIMOS 20 ANOS?”

Este é o tema da conferência organizada pela TVI - amanhã, 19 de Fevereiro - sobre o jornalismo e em comemoração dos seus vinte anos de existência.
Como vai ser o jornalismo nos vinte anos que se seguem? Para mim bastaria que fosse, sempre e exactamente, como os dois jornalistas, Diana Löbl e Peter Onneken, da ARD, a primeira rede televisiva pública alemã, numa reportagem que estarrece e indigna.
Eis o que escreveram os respectivos correspondentes, em Berlim, de dois bons jornais italianos: Corriere Della Sera e La Repubblica.

Alemanha, os desesperados de Amazon, humilhados por vigilantes neonazis
“São milhares, provém da Espanha ou de outros países da Europa mediterrânica atingidos pela crise, ou então da Roménia, Hungria e outros Estados da União Europeia onde a pobreza de massa conduz à emigração e o baixo custo do trabalho desencadeia os apetites de produção low cost das multinacionais. E os big global players exploram-nos como bestas de carga, como forçados… […]
Amazon, o maior comerciante online do mundo, está sob acusação. Construiu um verdadeiro GuLag do trabalho forçado com míseros contratos a prazo para os escravos e os forçados do turbocapitalismo global, neoliberalista e sem escrúpulos ou uma reedição da Organização Todt, aquela com a qual SS e Gestapo recrutavam forçados em toda a Europa ocupada… […]
Contudo, o GuLag de Amazon não está na Sibéria, mas na Alemanha, excelente sede pelos óptimos transportes, infra-estruturas e serviços de expedição. Os forçados e os escravos do século XXI, empurrados pela miséria e fome, vêm para a Alemanha […]
São pagos miseravelmente e trabalham, sobretudo, nos turnos de noite. São alojados, sete em cada dormitório, em velhos hotéis decadentes e vigiados por guardas pertencentes ou próximos da extrema-direita neonazi.”

“Não foram grupos da extrema-esquerda, nem Anonymous ou os “no global” quem denunciou o escândalo. A descoberta dos desesperados de Amazon deve-se a uma equipa de investigative reporters da ARD, a primeira rede televisiva pública alemã que tem o hábito de concentrar-se sobre inquéritos incomodativos, exactamente como cães de guarda da democracia e direitos humanos.
Cinco mil pessoas, pelo menos - disse a ARd na sua reportagem - são empregadas pela Amazon nos seus centros de aviamento e expedição, especialmente em Hessen, o estado central onde surge a metrópole financeira, Frankfurt.”
Nos seus países eram professores ou recém-licenciados, mas o desemprego de massa na Europa do Sul e nos Balcãs torna inútil qualquer qualificação. São contratados pela Amazon com e-mails vagos que prometem um bom salário e um contrato seguro.

“Os desesperados de Amazon chegam à Alemanha pelos próprios meios e são recebidos pelos vigilantes ou por pessoas das agências privadas sem escrúpulos. O tráfico dos desesperados efectua-se, sobretudo, antes de Natal, quando as encomendas à Amazon voam em todo o mundo, obviamente. Ficam então a saber, pela Amazon, que o salário é menor e o horário de trabalho mais longo do que o previsto; quase sempre no extenuante turno de noite.
[…] Alojamento e banhos sujos e perigosos; alimentação de péssima qualidade, devendo pagá-la com parte do mísero salário. Frequentemente, os vigilantes, sádicos, divertem-se a ameaçá-los e assustá-los, a fim de os dissuadir de formular qualquer protesto
Em qualquer momento, estes vigilantes têm o direito de entrar para fazer uma busca e, à mínima suspeita, acusá-los de furto.” […]

“O escândalo provocou grande impressão na Alemanha, a tal ponte que algumas editoras alemãs estão a pensar em pôr em discussão os seus contratos com a empresa de Jeff Bezos (Amazon).
A pátria do capitalismo social, da segurança social e da co-gestão patrões/sindicatos descobre-se, também, como território da mais torpe exploração do capitalismo selvagem, coisa do terceiro mundo.
É um golpe à imagem de Amazon, mas também à seriedade dos controlos das autoridades alemãs.” […]

“Quando os media públicos estão verdadeiramente ao serviço da informação e não dos potentes, contra horrores, crimes e prepotências pode-se, pelo menos, combater.
Mas entre os milhões de pessoas que encomendaram à Amazon prendas de Natal, quem sabe quantos ou quão poucos terão uma crise de consciência!” – Andrea Tarquini – La Repubblica – 16/02/2013

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“Neonazis como guardas dos operários. Escândalo Amazon na Alemanha”

[…] “Naturalmente, Amazon não é, por certo, o único mau num mundo de bons. Continuando na Alemanha, deve ser chamado em causa um grupo como Zelando que vende, online, calçado e vestuário. Fundado em 2008, hoje está presente em doze países e teve um volume de negócios de mil milhões de euros em 2012.
Segundo muitos testemunhos, no estabelecimento de Grossberen, a sul de Berlim, os trabalhadores que vêm da Polónia são constrangidos a ritmos produtivos massacrantes. Contam que chegou um pouco de água para beber gratuita à disposição de todos somente após a intervenção externa do sindicato Ver.Di e, também neste caso, graças a um serviço televisivo.
Dentro, todos têm medo; os outros não sabem ou não querem ver”. – Paolo Lepri - Corriere Della Sera – 16/02/2013

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Há informações que infâmias destas se verificam noutros países. Mas como os dois jornalistas não deixaram de observar, ninguém se apercebe: os que deveriam intervir “não sabem (?) ou não querem ver”.
Portanto, são estes “cães de guarda da democracia e direitos humanos”, em qualquer parte do mundo, que classificam e enaltecem o jornalismo de todas as épocas. 

2 Comments:

At 11:50 da manhã, Blogger as-nunes said...

Bom dia, Alda

Fica-se com uma sensação de revolta e, ao mesmo tempo, de impotência, que até causa suores frios.

Que humanidade é esta? Isto não pode ser o Homem que habita a Terra!... Não se pode tolerar que se transforma a sociedade em que o homem vive num campo de batalha sem fim... com vencedores (sempre os mesmos) e os vencidos transformados em escravos ao nível mais ínfimo! ...

Um abraço, por mais denúncioas que se façam, só se tenta lançar poeira para os olhos das pessoas, no imediato, para os media se calarem...

António

 
At 3:52 da tarde, Blogger Alda M. Maia said...

Boa Tarde, António

Agrada-me sempre ler os seus comentários e disso lhe fico grata.

Passados alguns dias, após ter escrito este texto, li outras reportagens e ouvi, na RAI3, outros poemenores sobre o mesmo assunto. Horrivel, António!
O jornalista perguntava: Por essa Europa fora, quantos casos idênticos ou piores? O mesmo me perguntei eu.

Sabe o que me indigna? Que quem deveria, oficialmente, vigiar, olha para o lado, e é isto que é nojento.

Um abraço e um beijinho à Zaida.
Alda

 

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