domingo, março 14, 2010

ESTA EUROPA

Com os egoísmos que sempre revelam os Países que formam a União Europeia, quando se trata de tomar medidas de cooperação e união para enfrentar e resolver situações difíceis ou até criar uma força que incuta respeito ao resto do mundo; com a opacidade – digamos mesmo mediocridade – dos seus dirigentes, aonde irá parar esta nossa Europa?

Ninguém desconhece a importância de Jacques Delors, quer como presidente da Comissão dos Assuntos Económicos do Parlamento Europeu (1979 / 1981), quer como um excelente comissário da UE (Janeiro 1985 – Dezembro 1993). Distinguiu-se como “ um dos impulsionadores da Carta Social Europeia e dos programas Erasmus”. Em conclusão, um grande da política e um convicto europeísta.

No dia 11 deste mês, quinta-feira passada, concedeu uma entrevista ao jornal La Repubblica: “Sem uma política económica, a Europa arrisca o declínio. A Europa assim não sobrevive”.

Como me sinto uma apologista da União Europeia, dou sempre a máxima atenção e importância às opiniões dos grandes que sonharam e fizeram a União. Portanto, hoje quero dar relevo a essa entrevista.
Transcrevo as partes fulcrais, cujos conceitos e opiniões expressas são de leitura muito interessante.

Nunca acreditei que a União política estivesse próxima. Tanto menos desejei um governo económico. Mas uma coordenação económica, essa, sim. É indispensável. O verdadeiro calcanhar de Aquiles da Europa é a falta de coordenação. Se esta não existe, surge o declínio. Entendamos que será um declínio longo, porque partimos de um nível muito alto. Mas será inevitável.

Quando em 1989 apresentámos a «Relação Delors», que foi a base da união monetária, a parte dedicada à economia era mais importante do que a dedicada á moeda.
(…) A moeda única não pode sobreviver sem uma sólida coordenação das políticas económicas.

(…) Pode haver uma moeda única sem união política, mas não sem um verdadeiro entendimento das economias.
No livro branco de 1993, tínhamos proposto os «eurobond» e um plano de grandes trabalhos públicos europeus. Foi aprovado pelos chefes de governo, mas nada se fez. Os ministros das finanças nunca quiseram discutir o assunto.
Se hoje tivéssemos os eurobond, poderíamos adquirir dinheiro a 3 ou 3,5% e emprestá-lo à Grécia que, pelo contrário, paga 5,5% de juros. Além disso, a especulação, perante os títulos de estado europeus, acalmar-se-ia.

O grande negócio internacional, sobretudo os de matriz anglo-saxónica, nunca amou o euro. Era céptico antes; hostil depois. Ainda hoje existe um certo rancor dos anglo-saxónicos contra a moeda única europeia. É indecente, se pensarmos nos milhares de milhões que perdemos para salvar o sistema deles.

P. - Por que motivo não se criou a união económica?
R.
- Diminuiu a vontade de cooperar. A maior parte dos chefes de governo ignora como funciona a Europa e despreza o método comunitário.

Tinha essa impressão; vê-la confirmada por tão alta personagem, transformou-se em certeza

(…) O projecto europeu foi atingido por dois factores: a mundialização e o culto do imediato.
(…) Os cidadãos perderam-se entre a dimensão local e a mundial e, para muitos deles, a resposta identitária é a do localismo e do populismo. Os governos secundam-nos e seguem-nos.
Ninguém tem a capacidade cultural de indicar a Europa como um modelo a que referir-se. Perdemos a memória donde vimos. Como podemos ter a visão para onde queremos ir?

P. – Os governos encalçam os eleitores: não é isto a democracia?
R.
– De Mendes France aprendi uma grande lição: é melhor perder as eleições que perder a alma e o sentido da própria direcção. Uma eleição pode reganhar-se, passado o período normal. Qual o prejuízo? Porém, se se perde a bússola ou se perde a alma, para reencontrá-la serão necessárias gerações.

Deveria ser preceito irrenunciável, para todos os partidos ou para quem ambiciona entrar em política, uma leitura frequente desta lição de Mendes France.

O euro protegeu-nos de grossos disparates, mas não nos estimulou. É possível que a bordo da moeda única estivesse um par de clandestinos, como a Grécia e a Espanha, que não pagaram o bilhete inteiro. Ma também é verdade que quem guia o timão, como a Alemanha, não teve de suportar desvalorizações competitivas e pôde melhorar a própria competitividade à custa dos outros.

Como sempre, é necessário repartir com pequenos passos. Não peço grandes fugas avante: um pouco de aproximação das políticas fiscais; um pouco de investimentos na investigação; uma política única da energia.

Ocorre repristinar o método comunitário. Quando ouço que se quer reunir o Conselho Europeu todos os meses, tenho a impressão que se deseje repropor a Sociedade das Nações. Não é esta a Europa que funciona.

****

“Uma política única de energia” que ninguém respeita. Começando pela Alemanha, a maior parte dos países da União trata privadamente os próprios fornecimentos, quando uma política única seria, como é óbvio, muito mais favorável para todos e em todos os sentidos.

Gordon Brown afirma que “O mundo globalizou a economia, mas agora deve globalizar a política, se quer evitar uma nova recessão”. Entretanto, põe-se ao lado dos Estados Unidos para defender Londres como capital da finança mundial e contra as regras da União sobre as leis da selva nas operações financeiras!...

Jacques Delors termina a entrevista com uma declaração amarga, quando o entrevistador (Andrea Bonanni) lhe pergunta se se envergonha desta Europa: "Os nossos Países estão verdadeiramente em perigo de perder a sua identidade e nível de vida, nos próximos vinte anos. Envergonhar-me? Não sei. Nunca imaginei que se chegasse a uma situação tão difícil”.

Esperemos que esta Europa de hoje deixe de ser mesquinha, pois é o espectáculo que oferece.
Gostaria que, como primeira iniciativa futura e a garantia de um bom funcionamento da União Europeia, exigisse de cada País os seus melhores elementos políticos, técnicos e académicos.
É deprimente ver certas mediocridades eleitas para o Parlamento Europeu! É desconcertante a nomeação, para os altos cargos, de pessoas que não brilham por altas qualidades.

Efectivamente, não é esta Europa que sonhámos e desejaríamos.
Alda M. Maia

2 Comments:

At 2:20 da manhã, Blogger as-nunes said...

Viva, Alda

Após um grande interregno, aqui venho desejar-lhe um bom fim-de-semana e muita saúde. Entusiasmo parece não lhe faltar. Entusiasmo no sentido do seu notório sentido de reflectir das atribulações por que esta Europa anda a passar, dada a qualidade de políticos e estratégias egoístas nacionais que se estão a sobrepor à noção de União de Nações, que era o que deveria prevalecer.
.
"O mundo globalizou a economia, mas agora deve globalizar a política, se quer evitar uma nova recessão."

Completamente de acordo. Há que globalizar a actuação política da União Europeia se queremos realmente viver numa verdadeira comunidade, que deveria ser o objectivo a perseguir indubitavelmente...

E o tempo urge!...

Abraço
António

 
At 6:24 da tarde, Blogger Alda M. Maia said...

Como está, António?

Com atraso, pois este fim de semana estive ausente destas lides blogueiras, agradeço o seu comentário e visita.

Ainda relativamente à Europa, gosto muito pouco da posição sempre economicamente oportunista e arrogante da Alemanha.
Evita recordar que deve o grande volume das suas exportações ao amplo mercado da Uniâo Europeia.

Um abraço.
Alda

 

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