domingo, outubro 18, 2009

NORBERTO BOBBIO: CENTENÁRIO DO NASCIMENTO
.Norberto Bobbio
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Nasceu na cidade de Turim em 18 de Outubro 1909 e morreu, na mesma cidade, em 9 de Janeiro 2004.

Seria grande presunção da minha parte, e bastante ridícula, se me propusesse dedicar este texto a Norberto Bobbio, dissertando sobre os méritos deste extraordinário pensador italiano do século vinte.
Limitar-me-ei a falar, de coração aberto, sobre a grande simpatia e admiração que sempre me inspirou.

Em Turim, de 15 a 17 de Outubro, teve lugar um congresso internacional em honra do grande filósofo e “figura de referência muito significativa, não só na Itália, como na Europa”.
Filósofo, historiador, editorialista, professor de Filosofia do Direito, senador vitalício, autor de várias obras, algumas das quais também editadas em Portugal.

O programa das comemorações do centenário do nascimento - incluindo uma mostra (sempre em Turim) que será “um resumo policêntrico sobre o tema «Bobbio e il Novecento» - prolongar-se-á por todo o ano 2010.

Por duas ou três vezes, cruzei-me na rua com este Senhor que morava na Via Sacchi, centro da cidade.

Na primeira vez, depois de ter lido vários artigos que ele publicava no jornal La Stampa e alguns dos seus livros, de o ter visto em entrevistas televisivas e, portanto, de ter obtido um modesto conhecimento da espessura intelectual de Bobbio, a minha curiosidade foi quase desmedida: tive de fazer um esforço enorme para disciplinar os olhares e não ser mal-educada.

Na segunda vez, só recordo o quanto lamentei não ser atrevida, parar e manifestar-lhe a minha estima. Mas nunca tive cara de bronze, “lata”, para tais iniciativas.

As obras que Bobbio publicou espraiam-se pela filosofia, direito, política, ética, temas de comportamento e empenho civil, história, enfim, um olhar profundo em grandes horizontes.

Encorajei-me a comprar e ler: “Política e Cultura”; “Qual Socialismo?”; “O futuro da Democracia”; “Ensaios sobre Ciência Política na Itália”; “Direita e Esquerda – Razões e significados de uma distinção política”.
Traduzo os títulos da versão original; não sei os que foram adoptados na tradução em português. Presumo que sejam idênticos, pois são facilmente traduzíveis.

Na mudança de Turim para Famalicão, as primeiras três obras desapareceram – assim como desapareceram obras de Primo Levi e outros autores que não encontro e que sabia ter encaixotado. Restam-me as últimas duas.
O centenário do nascimento de Bobbio será um bom motivo para readquiri-las, além de outras.

“Direita e Esquerda”, um pequeno volume de 141 páginas (a 2.ª edição de 1995, em italiano), é um livro que recomendo (foi publicado em Portugal).
Muito interessante para iniciados e não iniciados e sempre de actualidade, por muito que queiram apagar o famosa dicotomia: direita/esquerda.

Há uma característica que espelha a beleza literária de Bobbio: a clareza e simplicidade - logo, a grande acessibilidade - como enfrenta e desenvolve os mais elevados temas e raciocínios. Paralelamente, o equilíbrio e bom senso que procura transmitir.

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Convido ao estudo, à reflexão, à meditação sobre as coisas da história; a abandonar as frases feitas, as fórmulas, os catecismos, a prosápia dos iniciados, a desdoutrinação e a doutorice, o falar difícil, a gíria das escolas e das seitas; a estudar os mecanismos do poder e não somente das ideologias que os legitimam ou recusam; a preferir a veste de quem não compreendeu nada à de quem compreendeu tudo” - Norberto Bobbio

O dever dos homens de cultura, hoje mais do que nunca, é o de semear dúvidas, não de recolher certezas.
De certezas – revestidas com a pomposidade do mito ou edificadas com as pedras duras do dogma – estão cheias, trasbordantes as crónicas da pseudocultura dos improvisadores, dos diletantes, dos propagandistas interessados.

Cultura significa medida, ponderação, circunspecção: avaliar todos os argumentos antes de pronunciar-se; controlar todos os testemunhos antes de decidir; nunca pronunciar-se e decidir à guisa de oráculo, da qual dependa, de modo irrevogável, uma escolha peremptória e definitiva. (…)
Ao homem de cultura não cabe outro dever senão o de compreender e ajudar a compreender
. (…) – Norberto Bobbio

Certamente que uma democracia tem necessidade de instituições próprias, mas não vive se estas instituições não são alimentadas por sólidos princípios. Onde os princípios que inspiraram as instituições perdem vigor nos ânimos, também as instituições decaem; tornam-se em esqueletos vazios e correm o risco de, ao primeiro choque, acabar em pó. (…) – Norberto Bobbio

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Alda M. Maia

2 Comments:

At 6:08 da tarde, Blogger as-nunes said...

Que grande oportunidade eu perdi para aproveitar este excelente apontamento sobre a obra de Norberto Bobbio, que desconhecia, quando escrevi, dentro das minhas limitações, recentemente, um artigo sobre "Direita, Esquerda e Independentes" no blogue do "Clube dos Pensadores"!

A Alda sempre na sua linha de conduta impecável de expor temas com a convicção de quem sabe os terrenos que pisa.

Um abraço
António

 
At 6:58 da tarde, Blogger Alda M. Maia said...

Ainda está muito a tempo de escrever outro artigo sobre o mesmo tema: dá pano para muitas mangas.

Leia o livro "Direita e Esquerda". Lê-se com interesse e tenho a certeza que gostará.
Foi um bestseller. Norberto Bóbbio, no prefácio da segunda edição, demonstra o seu espanto, pois não esperava um tal êxito.

Quanto a saber os terrenos que piso (obrigada!), procuro "conversar sobre o que mais capta o meu interesse e etenção, o que não significa conhecê-los como gostaria.
Chego até onde posso.

Um grande abraço a toda a Família
Alda

 

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