terça-feira, janeiro 13, 2015

ESCUTEMOS ESTAS VOZES

Na semana passada, acontecimentos muito graves, ocorridos em Paris, ecoaram estrondosamente por todos os continentes. Muito se escreveu sobre aqueles factos e as análises choveram de todos os quadrantes com os pontos de vista próprios dos diversos observadores.
Li um grande número dessas análises e opiniões. Quase todas confluem para uma constatação inegável: o perigo do fundamentalismo islâmico que se infiltrou na Europa. As suas origens e as culpas de quem para elas contribuiu, quer do mundo ocidental, quer do mundo muçulmano.

É sobre o mundo muçulmano que não enfrenta a modernidade que quero transcrever o modo de pensar de um chefe de Estado e de um filósofo.
Ambos muçulmanos, apontam o que deve ser reconsiderado dentro da própria religião, a fim de que o islão, paralisado nos tempos, evolua e não dê azo ao surgimento de monstros que o desvirtuam, o que não merece.  

No dia 28 de Dezembro passado, o presidente egípcio Al Sisi pronunciou um discurso na universidade Al-Azhar no Cairo. Historicamente, esta universidade é uma grande autoridade no que concerne matérias de doutrina islâmica. Eis o que, desassombrada e corajosamente, proferiu:

“Dirijo-me aos estudiosos da religião e às autoridades religiosas. Devemos lançar um olhar atento e lúcido à situação actual. É inconcebível que a ideologia que nós santificamos faça da nossa inteira nação (mundo islâmico) uma fonte de preocupação, perigo, morte e destruição no mundo inteiro. Não me refiro à «religião», mas sim à «ideologia» - o conjunto de ideias e de textos que, através dos séculos, santificámos de tal forma que se torna difícil submetê-los a discussão. Chegamos a um ponto no qual esta ideologia é hostil ao mundo inteiro. É concebível que 1,6 mil milhões de muçulmanos matem o resto da população mundial para que possam viver sós? É inconcebível.
Eu digo estas coisas, aqui em Al-Azhar, perante autoridades religiosas e estudiosos. Que Alá possa testemunhar, no Dia do Juízo, a sinceridade das vossas intenções, relativamente ao que vos digo hoje.
Não podeis ver as coisas com clareza, quando sois prisioneiros desta ideologia. Deveis abandoná-la e olhar as coisas do lado de fora, a fim de que vos aproximeis de uma visão iluminada.
Deveis opor-vos a esta ideologia com determinação. Temos necessidade de revolucionar a nossa religião… Venerável Imã, (Grão-Xeque de Al-Azhar) vós sois responsável perante Alá. O mundo inteiro espera as vossas palavras, porque a nação islâmica está lacerada, destruída, aviada para a ruína. Somos nós mesmos que a conduzimos para a ruína.” (o sublinhado é meu)

******* 

Vejamos agora o que diz o filósofo francês Abdennour Bidar (especializado na evolução contemporânea do Islão) na sua “Carta Aberta ao mundo Muçulmano”.
É um texto extenso, publicado no jornal online Huffington Post (versão em italiano) no dia 10 deste mês. Traduzirei alguns extractos, mas é difícil seleccionar, pois todo o conteúdo é interessantíssimo.

“Caro mundo muçulmano, sou um entre os teus filhos afastados que te olha da fora e de longe, desta França onde tantos dos teus filhos vivem hoje. Vejo-te com olhos severos, olhos de um filósofo com o taçawwuf (sufismo) e o pensamento ocidental… Vejo-te numa condição de miséria e sofrimento que me torna tremendamente triste, mas que torna ainda mais duro o meu juízo de filósofo! Isto porque vejo que estás a dar ao mundo um monstro que escolheu ser chamado Estado Islâmico, mas ao qual alguém prefere dar o nome de demónio: DAESH.
A coisa pior é que te vejo a perder o teu tempo e a tua honra, recusando  reconhecer que isto fizeste-o tu, é fruto das tuas erraticidades, das tuas contradições, da tua interminável separação entre passado e presente, da tua duradoura incapacidade de encontrar um lugar na civilização humana.

(…) Negas que os crimes cometidos por este monstro sejam praticados em teu nome. (NotInMyName). Indignas-te diante de uma tal monstruosidade. Insurges-te quando o monstro usurpa a tua identidade, e tens razão. É indispensável que, perante o mundo, proclames em voz alta que o Islão denuncia as barbáries. Porém, é absolutamente insuficiente! Porque tu refugias-te no reflexo da autodefesa sem assumir-te, acima de tudo, a responsabilidade da autocrítica.

(…) Donde provêm os crimes deste chamado «Estado islâmico»? Explicar-to-ei, meu amigo, e isto não te agradará, mas é meu dever de filósofo.
As raízes deste mal que hoje te rouba a face residem em ti. O monstro saiu do teu ventre, o cancro está no teu corpo. E deste modo, tantos novos monstros, piores do que estes, sairão ainda do teu ventre doente enquanto te recusarás a olhar de frente esta realidade e empregarás tempo a admitir e atacar, finalmente, esta raiz do mal!

(…) A natureza espiritual do homem tem medo do vazio. Se não encontra nada de novo para preenchê-lo, fá-lo-á amanhã com religiões sempre inadaptadas ao presente e meter-se-ão, portanto, a produzir monstros, como faz o Islão actualmente.

(…) Onde estão os teus grandes pensadores, os teus intelectuais cujos livros deveriam ser lidos no mundo inteiro como no tempo em que os matemáticos e filósofos árabes e persas eram uma referência da Índia à Espanha?

(…) Penso que chegou o momento, na civilização do Islão, de instituir esta liberdade espiritual, a mais sublime e difícil de todas, em vez de todas as leis inventadas por gerações de teólogos.
Hoje, na Umma (comunidade muçulmana), ouvem-se numerosas vozes que tu não queres ouvir, que se insurgem contra este escândalo, que denunciam este tabu de uma religião autoritária e indiscutível da qual se servem os chefes para difundir o seu domínio até ao infinito… De tal modo que muitos crentes interiorizaram uma cultura da submissão à tradição e aos mestres da religião (imãs, muftis, shouyoukhs, etc.)

(…) É necessário proceder de modo que tu, meu amigo, não te iludas, crendo e fazendo crer que quando se acabará com o terrorismo islâmico, o Islão terá resolvido os seus problemas! Porque tudo o que evoquei, isto é, uma religião tirânica, dogmática, literária, formalista, machista, conservadora, regressista é, muitas vezes - não sempre, mas muitas vezes – o Islão ordinário, o Islão quotidiano que sofre e faz sofrer demasiadas consciências, o Islão da tradição e do passado, o Islão deformado por todos os que o utilizam politicamente, o Islão que ainda consegue fazer calar as Primaveras árabes e a voz de todos os jovens que pedem algo de diferente. Então, quando farás a tua verdadeira revolução?

(…) Em Terra islâmica, e em qualquer parte nas comunidades muçulmanas do mundo, há consciências fortes e livres, mas estão condenadas a viver a sua liberdade sem certeza, sem reconhecimento de um direito verdadeiro, deixadas, a seu risco e perigo, perante o controlo comunitário ou mesmo ante a polícia religiosa.

(…) Em muitos dos teus países tu ainda associas religião e violência contra as mulheres, contra os «maus crentes», contra as minorias cristãs e outras, contra os pensadores e os espíritos livres, contra os rebeldes, mas de tal maneira de se chegar a confundir esta religião e esta violência, entre os mais desequilibrados e os mais frágeis dos teus filhos, na monstruosidade da jihad.”

(… ) Caro mundo muçulmano… Sou apenas um filósofo e, como sempre, alguns dirão que o filósofo é um herético. Portanto, eu procuro somente fazer resplandecer de novo a luz. É o nome que me deste que mo ordena: Abdennour, «Serviteur de la Lumière»

3 Comments:

At 12:45 da tarde, Blogger as-nunes said...

É pena estas vozes não se estarem a revelar suficientes para converter tantos infiéis fanáticos que assombram todo o mundo, incluindo o próprio mundo muçulmano.

Viva, Alda, espero que esteja tudo bem com a minha amiga. Virei-me, por comodismo e algum cansaço, mais para o Facebook. Mas estes seus escritos são sempre de muito interesse e muito bem estruturados. Faz pena não serem mais comentados.
Assim vai este mundo...

Votos sinceros de um Bom Ano de 2015.

António e Zaida (O meu Facebook é também utilizado pela Zaida, mas só para consulta, que ela não perde tempo a escrever lá. ...)
FB https://www.facebook.com/orelhavoadora

Mas continuo com os meus blogues, que continuo a usar como o meu Auxiliar de Memória e meio de partilha de informação.

 
At 3:06 da tarde, Blogger Alda M. Maia said...

Olá, António!
Não sei se lerá este meu comentário que responde à sua mensagem muito simpática, como sempre.

Obrigada pela sua opinião.
Quanto ao Facebook, ainda não consegui afeiçoar-me ou acostumar-me àquele modo de comunicação e amizade. Pode ser que o consiga.

Um abraço a toda a Família e um beijinho à Zaida
Alda

 
At 2:27 da tarde, Blogger as-nunes said...

Aqui estou. É só para dizer, agora, que acabei por ler este seu comentário.

A questão do facebook tem muito a ver com o comodismo e tertúlia de café a que nos estamos a habituar. Por comodismo, penso eu.

A verdade é que tenho saudades do tempo em que ia para o meu blogue e escrevia sem estar com a preocupação de ser conciso... até de mais.

Abço
António

 

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