segunda-feira, agosto 13, 2012

ALELUIA! DESCOBRIU-SE A GRAMÁTICA

No quarto parágrafo da Introdução de “Metas Curriculares do Ensino de Português” - do 1.º ano ao 9.º - lê-se o seguinte: Foram globalmente respeitados os domínios existentes (Oralidade, Leitura, Escrita e Conhecimento Explícito da Língua, agora denominado Gramática) e foi acrescentado um outro, relativo à Educação Literária.

Este “Conhecimento Explícito da Língua, agora denominado gramática” deixou-me desorientada.
Agora denominado gramática?! Falta de clareza no enunciado ou quererá significar algo que a minha humílima preparação não atinge?
In illo tempore, que português nos ensinaram, então, na escola primária e no liceu? O que era aquilo a que sempre deram o nome de gramática… e de há séculos?

Vejamos o significado de gramática aplicada ao ensino. 
A gramática é uma disciplina que tem por objecto o conhecimento sistemático das regras que governam o funcionamento de uma língua. […] Em sentido mais corrente e popular, a gramática é a arte de falar e de escrever sem erros. […] Esta que acabámos de descrever é, propriamente, a gramática normativa.

Continuando nesta linha de ideias, passo a um outro assunto com o qual nunca estive de acordo.
Só gostaria de saber quem foram os iluminados que elegeram o português que se fala em Lisboa como “língua padrão ou norma padrão”!
Esclareço que não tenho a mínima antipatia pelos falares lisboetas, mas sempre me ensinaram que a língua padrão era a que se falava em Coimbra. Efectivamente, naquela região, por exemplo, respeitam-se os ditongos, além da pronúncia natural que a caracteriza e que se aproxima muito de uma boa dicção.
A este ponto, será pertinente interrogarmo-nos: faz sentido uma norma padrão em Portugal? Para que servem as gramáticas?

Há dias, e repetidamente, a jornalista Constança Cunha e Sá usou o vocábulo desvio, pronunciando-o “desviu”. É pena que aquela Senhora, a qual se dirige a todo o país, não recorde o que são ditongos crescentes e a sua correcta pronúncia.
É também lamentável que tantos ilustríssimos personagens lisboetas, e não só, continuem a atropelar a palavra “período”, pronunciando-a “periúdo”. Mais típico ainda, nesta língua padrão, o assassínio sistemático dos ditongos: caxa, baxa, Lôres, etc., etc., em vez de caixa, baixa e Loures. E se foram habituados a pronunciar Avairo e primairo, em vez de Aveiro e primeiro, é uma característica local, mas que a não imponham.
Como estas, quantas outras formas regionais, aceitabilíssimas, sem dúvida, mas longe do que devemos entender como um “português padrão”! Ou patrão?

Mas há mais. Detesto o uso e abuso, quase imposto, do tratamento “Vocês”. Muito corrente na Capital; agora, em todo o país.
Certamente que esta contracção de “vossas mercês” (vostra mercede) pertence ao nosso léxico, porém, vulgarizou-se e desceu a linguagem coloquial: não me parece que apresente traços de delicadeza e elegância, isto é, um registo cuidado.
Mas o que verdadeiramente me escandalizou foi a advertência, lida em duas gramáticas actuais (referi-me a este facto num texto precedente), que o pronome da segunda pessoa do plural, vós, já não se usa (a língua padrão assim comanda), portanto, deve ser substituído por vocês. Efectivamente, no léxico televisivo, o “vocês” impera e não conhece alternativas.

Que destino estará reservado para as formas verbais da segunda pessoa do plural? Deitamo-las ao lixo? Que ventos de loucura varreram a inteligência de uma certa parte - minoria, mas, pelos vistos, influente - dos meus compatriotas? Preciosismos mal assimilados ou parvoíces despachadas por modernidades?

Numa sala de aulas – ensino básico e secundário - qual será a forma mais gentil e gramaticalmente mais aconselhável de o professor se dirigir aos seus alunos: usando o tratamento vocês ou o clássico e sempre correcto “vós”? Eu escolho o segundo, pois nunca deixei de ver no primeiro uma roupagem grosseira.
Não me parece que isto seja uma evolução, mas uma espécie de abandalhamento da língua: a senhorilidade e gentileza, na forma como nos dirigimos aos interlocutores, desapareceram, foram canceladas.
Com qual justificação se mutilam formas gramaticais que nos ensinam a falar e escrever correcta e harmoniosamente? Por qual estúpida razão devemos banir o “vós”?

Imperdoável esquecimento da minha parte! Estamos na era da "fonio-mania". Os iluminados, acima referidos, entenderam que se deveria criar também a ulissipofonia e impô-la ao resto do país. Está em nós aceitá-la ou não.

É curioso que parti com o intento de escrever sobre a lista dos textos literários propostos nas novas metas para o ensino de português. Bastaram algumas frases da introdução para me desviar dos meus propósitos e divagar por tantas realidades que me desagradam. Mas acontece.

3 Comments:

At 4:47 da tarde, Blogger as-nunes said...

Pois eu, querida amiga Alda, não me canso de repetir que só sei que cada vez sei menos e mesmo assim à mistura com muita confusão.

Infelizmente vamos ter de assentar em definitivo em que o Novo Acordo Ortográfico é para seguir.
Bem me ando a esforçar por escrever em conformidade com as normas que estão a ser divulgadas, já comprei alguns livros e dicionários, mas, de facto, estou a sentir muitas dificuldades em aceitar que estas alterações estejam a ser impostas por Lei.

Aquela do "Voçês" tem muito que se lhe diga...

Ainda não tinha apanhado essa do Português dever ser orientado pela
“língua padrão ou norma padrão” identificada com a forma de se falar em Lisboa!

Como assim?!...

Estou a ver que apesar da seca que por aí grassa, ainda muita água vai ter de correr por debaixo das pontes até nos entendermos quanto a este NAO.

António

 
At 3:57 da tarde, Blogger Alda M. Maia said...

Boa Tarde, António

Emprimeiro lugar, desejo enviar um beijinho à sua Mãe de muitos parabéns.
Tentei enviar esta mensagem no seu blogue, mas o computador, pela enésima vez, emperrou. Há aqui qualquer coisa que não funciona, pois há sítios onde fica bloqueado e tenho de fechar tudo. Oxalá que me corrijam isto com atenção, sem pôr-me tudo de cangalhas.

Quanto ao acordo ortográfico, o António já conhece a minha posição.
Não o suporto e, como comproprietária desta língua mãe, não perdoo a quem a mutilou, estúpida e desnecessariamente, e lhe roubou dignidade. Repare como na Internet é a variedade de português do Brasil que impera. O Português europeu apagou-se, o que considero uma indecência.

António, não quero influenciá-lo, mas convença-se: isto que apresentam como "ortografia" não é nada orto, mas está cheio de erros e incongruências. Onde havia certezas, instalaram dúvidas e arbitrariedades, o que não é admissível e é um autêntico disparate.

Procurei ler todas as opiniões: pró e contra, a fim de formar uma opinião equilibrada. Não houve uma única opinião a favor que apresentasse argumentos sólidos, válidos e que, portanto, me fornecesse luzes esclarecedoras.
Os sólitos motivos sobre a uniformidade, etc., etc., etc. Nunhum, absolutamente nenhum que corresponda à realidade e a melhoramentos da nossa língua escrita. Apenas servem para justificar, falaciosamente, o tal "comércio das palavras".

Mais uma vez repito o quanto a minha língua materna, na sua ortografia séria de 1945, me ajudou superar as minhas dificuldades no italiano escrito e compreender o caso das muitas consoantes duplas, o meu tormento, da língua italiana.

É para ficar? Não aceito o facto consumado. Enquanto há esperanças, pela primeira vez na minha vida entro nesta luta para a suspensão.
Espero que, desta vez, haja mais sentido do responsabilidade por parte da classe política, pois nesta questão só fizeram sujeira.

Para mim também foi uma surpresa esta classificação do português lisboeta como língua padrão. Sem desmerecimento para os falares daquela zona, francamente, só mesmo de quem trata a língua como uma mercadoria!

Perdoe todo este arrazoado, mas nestes assuntos, perco-me sempre.

Um grande abraço, um beijinho à Zaida e outro para as vossas Mães.
A minha perdi-a quando tinha 19 anos!
Alda

 
At 4:50 da tarde, Blogger Alda M. Maia said...

Em lugar de "língua mãe", teria sido melhor escrever "língua materna", embora diga o mesmo. Escrevi ao correr da pena... isto é, do teclado

Ainda uma vez, um grande abraço à sua Mãe

 

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