domingo, maio 10, 2009

A ODISSEIA DOS IMIGRANTES EXTRACOMUNITÁRIOS

Compreendo que é cada vez mais árduo acolher e socorrer a grande massa de imigrantes que atravessa o Mediterrâneo, normalmente partindo da Líbia.

Os passadores, criminosos da pior espécie, usam embarcações velhas e em péssimo estado; chamam-lhes "as carretas do mar".
Partem superlotadas e sem quaisquer condições de acomodamento para centenas de desgraçados que sonham chegar à ilha de Lampedusa, o ponto mais próximo da Europa.
Quantos corpos sem vida chegam à costa e quantos outros que jazem no fundo do mar!

As fases de acolhimento são difíceis para o governo de um qualquer país que deva enfrentar o grave problema de imigração massiva, compreender as angústias de quem foge de países em guerra ou vem em busca de uma vida melhor. Paralelamente, de mistura com esses imigrantes, também dever ter em conta a afluência de uma boa percentagem de malfeitores.

Para o actual governo italiano, sobretudo para a xenófoba Liga Norte, imigrante significa intruso, delinquente, corpo estranho que se deve repelir.
E foi isso mesmo que fizeram há dias.

Uma dessas carretas, com cerca de 227 pessoas, entre as quais 40 mulheres (duas grávidas) e três crianças, foi avistado fora das águas territoriais, mas em direcção a Lampedusa.
De acordo com o Governo líbio, o ministro da administração interna (expoente da Liga Norte) dimanou ordens a duas motovedetas Guarda-Costas e uma da Guarda-Fiscal para recolherem aqueles infelizes e, muito singelamente, qual mercadoria indesejada, restituí-los à Líbia, lugar donde partiram.
Viragem contra os clandestinos. Um resultado histórico” - rejubilou o ministro.

Repito que o problema existe e que é de complicadíssima solução. O que não sei aceitar é a frieza e falta de humanidade como gerem esse problema.

As declarações de vários marinheiros das motovedetas italianas, quando regressaram dessa missão, são bem esclarecedoras. Vários confessaram que executaram as ordens, envergonhando-se profundamente pelo que tiveram de fazer, entregando-os a um destino muito incerto, talvez à morte.

Apenas se aperceberam que os não conduziam a Lampedusa, mas ao ponto de partida, os apelos foram lancinantes, comoventes, a fim de que os não abandonassem.
Não me desejaria no lugar daqueles militares que tiveram de executar ordens tão pouco humanas, tão pouco de acordo com o dever de prestar socorro aos mais débeis e tão dissonantes com as próprias sensibilidades!

Todos sabem que a passagem pela Líbia, onde esperam o embarque para a Itália, é o lugar da pior barbárie contra os desgraçados que saíram dos próprios países, atravessaram o deserto e, já nesse percurso, experimentaram vários géneros de sevícias infligidas pelos traficantes de carne humana.

Chegados à Líbia, entram em autênticos lugares de martírio: espécie de prisões preparadas junto da costa de Zuwara, onde amontoam as pessoas “sem qualquer respeito pelas normas higiénicas e em condições terríveis”.

As mulheres, sistematicamente violadas e escravizadas pelos soldados líbios e pelos traficantes; os homens são espancados, eles também violados, torturados e escravizados.

É arrepiante o testemunho de tantas mulheres que sofreram todos estes suplícios, mas conseguiram atingir a costa italiana.

Vivem neste inferno durante semanas ou meses. Ninguém desconhece a infâmia destes factos, pois já foram denunciados, em 2004, por uma Missão Técnica da União Europeia.

Ninguém desconhece também que, na Líbia, os direitos humanos é matéria desconhecida; aliás, nunca assinou o Tratado de Genebra sobre a tutela desses direitos.

Foi caricata, incrível e quase insultuosa a nomeação deste País, em 2003, como presidente da “Comissão dos Direitos Humanos da ONU. Quase me pareceu um acto de tresloucados.

O Governo italiano, repelindo os migrantes para o inferno acima descrito, poderá ter uma certa razão técnica; é simplesmente asquerosa, sob o ponto de vista humanitário.

As censuras choveram de todas os lados: do Vaticano; da ONU – ACNUR (uma decisão errada e para reconsiderar); dos Médicos sem Fronteiras (rejeição ilegal); do Osservatore Romano (garantir segurança e direitos humanos), etc.

E como reagiu o inefável Primeiro-Ministro a estas críticas?
Está perfeitamente de acordo com o reenvio à procedência dos migrantes: “Não à Itália multiétnica. Não faremos como a esquerda que quer uma Itália multiétnica”

No tempo de Mussolini, chamava-se “defesa da pureza da raça”. Em 2009, troca-se o termo raça pelo vocábulo étnico. Assim: “defesa da pureza étnica”.
O senhor Primeiro-Ministro lá sabe para onde quer caminhar!...
Alda M. Maia

2 Comments:

At 8:48 da tarde, Blogger as-nunes said...

Minha amiga Alda

Fica-se com o coração oprimido ao ler este texto.
E imagina-se o drama que se viveu no Mediterrâneo, entre a Itália e a Líbia. O que se seguirá em terra?
Como acabará todo este drama humano?
A crise, a chamada e sentida crise da economia, também é uma terrível crise de valores. Que se estão a justificar com a Economia e as Finanças de cada país.
Não me parece crível que consigamos resolver o verdadeiro problema da Crise global, sem uma Nova Ordem Mundial.
É no caminho a trilhar urgentemente nesse sentido que os países de todo o Mundo têm que chegar a acordo.
É imperioso que os ricos/quíssimos se capacitem de vez que os problemas sociais que se estão a levantar, os poderão também levar à pobreza. Corremos riscos sérios de graves convulsões sociais a nível global.
Como os resolver, na altura crítica? À bala?
Um grande abraço amigo
António

 
At 4:26 da tarde, Blogger Alda M. Maia said...

Boa tarde , António

O que aqui escrevi é uma pequena parte das informações que foram publicadas, testemunhadas e bem ilustradas com fotos muito elucidativas.
Tem razão: fica-se com o coração apertado e um sentido de total impotência.

Os partidos que formam o Governo italiano, para ganhar votos, entendem que devem encorajar o medo contra os imigrantes, e conseguem-no. Depois, é o que se vê: uma desumanidade sem limites.
A União Europeia, por sua vez, deveria considerar este problema e estudar um sistema que melhor saiba enfrentar estes dramas actuais, não deixando sós os países mais envolvidos. Até mesmo para evitar procedimentos xenófobos e direi mesmo racistas, não acha?
Um grande abraço para os dois (Zaida e António)
Alda

 

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