segunda-feira, julho 18, 2011

DOIS PAÍSES DOIS PRESIDENTES

Dois países: Portugal e Itália. Dois presidentes: o Presidente da República Italiana, Giorgio Napolitano; o Presidente da República Portuguesa, Aníbal Cavaco Silva.
É-me muito difícil, direi mesmo impossível, evitar comparações entre estas duas personalidades, sobretudo nos últimos três ou quatro anos de políticas convulsas sobre e como resolver as quedas de actividade económica e, paralelamente, neutralizar as piratarias financeiras.

Os ataques especulativos aos títulos da dívida pública italiana, o afundamento dos títulos bancários, as graves perdas na Bolsa de Milão, surtiram o efeito de uma tremenda tempestade num céu que se presumia sereno.

Crise financeira? Não, a banca italiana é sólida, dois terços da dívida pública estão nas mãos destes bancos e de cidadãos privados.

Uma dívida de 120% do PIB? Não assusta nem nunca assustou. Se medidas austeras se devem aplicar, há que ter em conta os vários interesses sectoriais, clientelas e, acima de qualquer outra preocupação, jamais perder de mira “o consenso e os votos”. Logo, seja encontrado o melhor modo de não desiludir ninguém, mesmo que se entre em onda de choque com o ministro das finanças, Giulio Tremonti, o qual insistia para que um plano de saneamento financeiro fosse aprovado.

Dentro das claras guerrilhas que se verificam na coligação governativa, numa entrevista de Berlusconi ao jornal La Repubblica no passado dia 8 - entrevista que me deixou boquiaberta, visto que considera este jornal o seu pior inimigo – relativamente a Giulio Tremonti, explicou-se deste modo: “Pensa que é um génio e crê que todos os outros sejam cretinos. Suporto-o porque o conheço de há bastante tempo e aceita-se como é. É o único que não faz jogo de equipa”.
Está preocupado com os mercados e compreendo-o. Todavia, recordo-lhe sempre que, em política, a facturação é composta por consenso e votos. A ele não interessa o consenso, a nós sim. Portanto, restando válidos os saldos, mudaremos as medidas de austeridade no Parlamento”.

Palavras deste género, ditas por um primeiro-ministro, caracteristicamente irresponsável, também causam ventanias. A tempestade financeira, inesperada, desabou com grande estrondo. Tornou-se urgente enviar um sinal forte ao Lúcifer da nova era que a todos assusta: o mercado de capitais.
Os dois ramos do Parlamento deveriam aprovar, sem delongas nem impasses, o pacote de austeridade financeira (“manovra finanziaria” – manobra financeira).

E aqui surge o acção de um grande presidente da república qual é Giorgio Napolitano. Não é a primeira nem será a última vez que remedeia situações graves, muitas delas causadas pelo chefe do governo, sabendo manter uma rigorosa e natural equidistância.

Popularíssimo e muito respeitado no próprio país e fora. Homem de grande dignidade, equilíbrio e sageza. Sempre argutamente atento aos problemas da Itália – presentemente são enormes – e nunca perdendo a calma, o bom senso e a vontade de intervir, dentro das suas competências; jamais as ultrapassou, por muito que a direita populista sugerisse o contrário, mas teve sempre de meter a viola no saco, por desafinada.

Apenas soou o alarme na Bolsa, até mesmo antes, foi incansável no apelo à coesão e na tentativa de convencer Governo e oposição a aprovarem, o mais rapidamente possível, as severas medidas de austeridade financeira, na Câmara dos deputados e no Senado, evitando obstrucionismos da oposição. Esta, discordando de muitos pontos da “manobra”, mas atendendo responsavelmente ao interesse do país, tratou directamente com o ministro das finanças (apenas com o ministro!) as poucas emendas aceitáveis e, embora votando contra, não criou obstáculos à urgente celeridade do acto.
A coesão, na verdade, funcionou, mas a avaliar pelo andamento da Bolsa de hoje, parece que surtiu um magro efeito.

Os sacrifícios atingem sobretudo a classe média e média-baixa e são muito pesados. Rebentaram os protestos: os privilégios e altos ganhos da classe política (mais conhecida como "a casta"), por exemplo, ficaram ilesos. Sobre este assunto ou sobre a casta, porém, escreverei noutra ocasião. O tema é rico e muito curioso. Para já, apenas um pormenor: o salário anual de um eurodeputado italiano é de 144.084 euros – o de um alemão é de 84.108€.

Posto tudo o que escrevi sobre Giorgio Napolitano, olho para o nosso Portugal e o nosso Presidente da República, o Prof. Aníbal Cavaco Silva. Pondero o modus operandi deste último e do primeiro, e fico cheia de tristeza.
Ambos pessoas de bem, indubitavelmente, mas quanta diferença na interpretação das competências e do alto cargo que ocupam e quanta diferença no empenho (ou falta dele), equidistante, de intervir nos graves problemas que assolam os respectivos países!

Não são necessários mais comentários. Todos seguimos a vida política nacional e todos sabemos tirar conclusões.

2 Comments:

At 2:36 da tarde, Blogger as-nunes said...

Olá Alda

Já há dias li este seu texto, que, nem seria preciso repetir, gostei. Sempre atenta e de crítica certeira e oportuna.

Quanta candura que o nosso Presidente revela nas suas declarações, cada vez mais interventivas.
Então e antes?...
Não tinha nada a comentar nem a usar a sua influência?

Presidente para abençoar?!...

Abraço amigo
António

 
At 3:24 da tarde, Blogger Alda M. Maia said...

Boa tarde, António

Só hoje vi o seu comentário que agradeço.

Contentemo-nos, António. É uma razoável figura decorativa, não lhe parece?
Precisamos sempre de quem corte as clássicas fitinhas nas inaugurações.

Um abraço
Alda

 

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