domingo, julho 18, 2010

QUANDO A ALMA É PEQUENA

No século XVI, o nosso Camões colocava o Reino Lusitano no “quase cume da cabeça de Europa toda”.
Eis aqui, quase cume da cabeça / De Europa toda, o Reino Lusitano / Onde a terra se acaba e o mar começa / E onde Febo repousa no Oceano – Canto III; estrofe 20.
Nos tempos hodiernos, Portugal está no fundo da Europa. E para muitos dos descendentes daquele Reino Lusitano, o “fundo da Europa” adquire uma significação metafórica negativa, aceitando-a como realidade incontestável, sem remédio, sem esperança, com o que não estou de acordo.

Já aqui escrevi que, durante os anos salazaristas, quem nasceu, cresceu e recebeu instrução nessa era ditatorial, foi bombardeado, diariamente, com a famosa trilogia nacional: Deus, Pátria e Família.

O vocábulo pátria, então, assumiu conotações que apenas serviram para o esvaziar daquele sentido nobre que o termo sugeriria, banalizando-o e lesando-o.
Também escrevi que, mais tarde, quando saí do meu analfabetismo político e pude assimilar e respirar a plenos pulmões a democracia, o som desse abusadíssimo termo passou a irritar-me, rejeitando-o com enfado.

Hoje, revejo esses sentimentos. Procuro discernir e separar a concepção do amor pelo próprio País - aquele orgulho sem jactâncias da nossa identidade de portugueses - da concepção reaccionária de patriotismo. É esta última que eu não suporto: concepção sempre baseada em apologias, grandezas e falsa superioridade que conduzem ao nada

Esclarecidos estes pontos, começo também a não suportar o pedantismo moderno dos modernos portugueses que assimilaram aproximativamente o significado de democracia.
Muitos entendem – entre os quais pessoas com certo grau de instrução e cultura – que demonstrar amor e sentir o orgulho da pertença não é adequado e apenas demonstra estreiteza de visão.
Eu diria que testemunha a estreiteza de espírito de almas pequenas. E, aqui, recorro a uma outra glória das nossas letras: Fernando Pessoa.
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.

[…] Quantos filhos em vão rezaram! / Quantas noivas ficaram por casar / Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena
. – “Mensagem”; “Mar Português”

Há censuras sobre um "patrioteirismo salazarento", nesta obra poética.
Quando “Mensagem” foi publicado em 1934, ainda predominava o que se chama “nacionalismo literário”. Não creio, todavia, que um poeta culto e inteligentemente complexo como Pessoa se deixasse imbuir de retórica da época.

Deixou-se embalar pelos sonhos, recorreu aos mitos do sebastianismo e do "Quinto Império". E quem lê aqueles poemas com a mentalidade que a cultura moderna nos tem formado e informado, tudo isso é facilmente interpretável.
Mitos que dão lugar ao sonho: um sonho que é sempre válido para quem deseja ver o nosso País a elevar-se da pequenez a que as sólitas estatísticas nos querem relegar e que nada fazemos para as desmentir.

Acostumámo-nos ao conceito de “país pequeno”, onde vigoram os tais índices de pequenez: na economia, na instrução, na finança, no nível de vida, na indústria, em tudo. Praticamente, não há sectores que avultem; muito menos a coragem de sair da resignação ou apatias indecentes para um povo com a história que temos.

Saudosismos? Não. Apenas a habituação de envergarmos o mesmo vestuário medíocre que, em parte, os malditos Tribunais da Santa Inquisição nos modelou. Cortou-nos as asas e perdemos a vontade de as fazer crescer para, de novo, voarmos no que de positivo as modernidades iam e vão desenrolando.
A somar a esta pequenez de alma, predomina a indiferença por quaisquer causas de cariz nacional, o que resulta no pior carcoma da prosperidade de um país

Aproveitando o actual período de crise, de dívidas soberanas, de desemprego, não vejo motivo por que não devamos sonhar com um “quinto império”, qual alavanca de arranque para dar valor e impor, com dignidade, o que já possuímos e criar oportunidades de podermos responder com firmeza ao "valerá a pena?"
Tudo vale a pena se não cultivarmos almas pequenas; se não pecarmos de subestimação; se votarmos ao ostracismo a triste mania de dar nota de bom somente ao que é estrangeiro.
Não somos superiores, mas nunca inferiores - exprimo-me com um certo conhecimento de causa.

Veio-me agora á ideia a sigla “pigs” (Portugal, Itália ou Irlanda, Grécia, Espanha) que classifica - com um certo desdém de quem se crê superior – a economia negativa destes países do sul da Europa. Apetece recorrer à história e recordar-lhes que nenhum destes Países concedeu títulos nobiliários a célebres rapinadores dos mares e cujas rapinas beneficiaram o país de origem.
E com diferenciados graus de piratarias, cresceram os impérios.

Não é que em todos os seus feitos os “pigs” fossem isentos de violência e actos desumanos, pois todos os países, sem excepção, têm as suas grandezas e as suas misérias. Simplesmente, os corsários eram persona non grata – espero não errar!
Mas deixemos apartes jocosos, falemos de coisas sérias e tornemos aos sonhos.

Como Martin Luther King, eu também tenho um sonho: ver este meu País, todo ele, sonhar que pode, deve e tem potencialidades – e aqui já não será sonho, mas certeza de uma realidade – para ser o Portugal que Vasco Da Gama descreveu ao rei de Melinde: “quase cume da cabeça / De Europa toda”.

Seria um cume de civismo; de instrução e cultura; de criatividade e inovação, logo, da coragem de arriscar da classe empresarial; de política lúcida, sensata, iluminada e altruísta… Este último desejo deixemo-lo nas brumas do sonho, embora nos atrevamos a arriscar um outro: ver parte do geral entusiasmo pela “selecção nacional” alargar-se a uma boa equipa de governo, exigindo-lhe remates certeiros.

Sonhar o impossível?! Tudo vale a pena, se deixarmos que a alma cresça, sonhe e avance.
Alda M. Maia