domingo, janeiro 04, 2009

QUE FAZER, QUANDO DIALOGAR É UM ACTO IMPOSSÍVEL?

Há dias telefonou-me um velho amigo, o "Judeu Errante", que se diverte a espicaçar os papagaios do partido preso, sobre o eterno conflito israelo-paestiniano, exprimindo comentários, on line, no jornal Público.

Comentários muito pertinentes, pois nem outra coisa esperaria de uma pessoa altamente inteligente e culta qual é o "Judeu Errante" que eu conheço.
O que não acertou foi na Sónia, de Famalicão, que defendia a causa de Israel. Como aqui em Famalicão “sou a única pró Israel” – assim me classificou aquele menino - tinha de ser mesmo eu.
Tive de negar quatro vezes que não, senhor, não sou essa Sónia: nunca escrevi comentários no site do Público nem de qualquer outro jornal; se os escrevesse, jamais usaria um pseudónimo.
Já que falamos disto, gostaria de conhecer a verdadeira Sónia!

E agora, enfrentemos o assunto seriamente
Eu sou pró Israel e sou pró palestinianos. E como palestinianos entendo o povo da Palestina: a população que serve de joguete, de vítima predestinada para que um islamismo fundamentalista encontre justificação.

No Estatuto do Hamas são bem explícitos dois credos indiscutíveis e irrenunciáveis: a eliminação de Israel e do seu povo; a sacralidade da terra da Palestina, “confiada às gerações do Islão até ao Dia do Juízo”.

Artigo 7: (…) O Movimento de Resistência Islâmico (Hamas) sempre procurou corresponder às promessas de Alá sem perguntar quanto tempo seria necessário. O Profeta declarou: o último dia não chegará enquanto todos os muçulmanos não combaterão contra os judeus e os matarão; até quando os judeus se devam esconder atrás de uma pedra ou de uma árvore e a pedra ou a árvore dirão: ó muçulmano, ó servo de Alá, um judeu esconde-se atrás de mim: vem e mata-o. (…)

Artigo 13: “As iniciativas de paz, as chamadas soluções pacíficas, as conferências internacionais para resolver o problema palestiniano contradizem todas as convicções do Movimento de Resistência Islâmico. Ceder qualquer parte da Palestina equivale a ceder uma parte da religião (…)

(…)“Não há solução para o problema palestiniano, excepto a Jihad. Quanto às iniciativas e conferências internacionais, são perdas de tempo e brincadeiras de crianças”. (…)

Perante estas doutrinas estatutárias e fundamentalistas muçulmanas; perante a convicção de país acossado, Israel, o qual entende que somente com represálias da sua força militar se resolverá o grave problema da própria segurança, como se chegará, um dia, a estabelecer um clima de entendimento e alcançar a suspirada paz?

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Israel atacou a faixa de Gaza e, ontem, invadiu-a via terra.
Não sei em que atoleiro se foi meter. Não quero pensar no sofrimento dos habitantes daquele território: demasiado angustiante!

As várias opiniões insistem na desproporção do número de vítimas: na Faixa de Gaza são infinitamente superiores às perdas israelitas (estas pelo lançamento diário de rockets).
Em Israel estão tão habituados à certeza de serem rodeados de inimigos que souberam, desde sempre, criar refúgios e outras medidas de segurança.
Acaso o Hamas se preocupou de fazer o mesmo com a população de Gaza? Escolheu, como primeira medida, não a expor aos ataques do odiado sionista?
Pelo contrário, quantos mais civis deixarem morrer, mais ódios disseminarão e mais se embriagarão com a loucura de procurar o martírio. É só isto o que pretendem. A violência serve-lhes de alucinante. Não concebem a existência sem essa droga: uma droga bem alimentada pelos exaltados, mesquinhos e ignorantes religiosos que dominam o Irão.

Insiste-se também na desproporção da reacção de Israel.
Tanto se pica o touro que não seria previsível uma reacção do tipo enxota-moscas.
Se lhe declararam guerra sem tréguas, que se poderia esperar? Não cabe muito na filosofia hebraica oferecer a outra face. Ofereceu-a durante séculos; a Shoah encarregou-se de gravar-lhe na alma o “nunca mais”.
Serão exagerados, mas não meçamos aquelas realidades com o metro ocidental.

Os “cruzados” europeus nunca se cansaram de enviar milhões de euros para ajuda da população palestiniana e espero que jamais interrompam essa ajuda – a partir de hoje, mais necessária que nunca!
Que têm recebido em troca daqueles que se proclamam defensores do povo da Palestina? Hostilidade, rancor e atentados. Será possível compreender esta gente?

Acima, chamei papagaios aos bem-pensantes em sentido único. Nunca simpatizei com as pessoas que se recusam a observar os factos nas suas diversas facetas, nas suas opostas razões.
Certamente que nesse empenho de observação entra o factor simpatia. Porém, também é sempre aconselhável considerar que a razão nunca pertence inteiramente a uma das partes.

Se os simpatizantes absolutos, e somente da causa Palestina, defendessem com empenho e sinceridade a Autoridade Palestiniana, votando a um completo desprezo os métodos do Hamas e quejandos, quero acreditar que o processo de paz trilharia caminhos mais directos e justos, embora demorados e com alguns espinhos.

Jamais distribuiriam álibis e encorajamentos a concepções tão aberrantes como as que aqueles fanáticos violentos difundem e põem em prática.
Nazir Rayan, um dos mais importantes dirigentes do Hamas e vítima do ataque aéreo israelita, imolara o próprio filho numa missão suicida contra civis. Não há razão, por mais sacrossanta que se apresente, que possa justificar uma tal barbaridade.
Igualmente, não há razão para que, num mundo civilizado, se conceda apoio, em manifestações partidárias, a semelhantes distorções da mente humana.

Consideremos, além disso, que deixaria de haver motivos para represálias. Demais, Israel compreenderia melhor que os colonatos em território palestiniano foi um grande erro e tremendamente injusto.

Oxalá que esta seja a última guerra e aqueles dois povos vizinhos iniciem um sério diálogo. É um sonho que exprimi na semana passada. Confiemos nos sonhos.
Alda M. Maia

11 Comments:

At 12:13 da manhã, Blogger Donagata said...

Infelizmente, em relação a este conflito (ou a qualquer outro que tenha por base a religião), tenho muita dificuldade em os entender e não tenho a mínima paciência. Claro que é uma forma de dizer, porque depois fico em ânsias coma as pessoas que diariamente morrem na faixa de Gaza, nos permanentes conflitos de colonatos versus populações locais. Só que, normalmente já são considerados tão rotineiros que já nem interessam aos média. Claro que uma acção com esta força tem logo outro relevo e outro impacto.
Não consigo entender(deve ser alguma incapacidade minha) a cegueira, o fundamentalismo que leva a estes conflitos que, infelizmente, julgo que estarão ainda para durar. Se o Islão e os seus ensinamentos(neste caso através do Hamas) , potenciam o fundamentalismo, o povo judaico, pelo seu lado também não contemporiza lá muito e é também bastante intolerante até entre os diversos ramos do judaísmo que aí coexistem. Tem também outro tipo de estratégias. Aliás, a formação dos colonatos em terras, que segundo eles (Israelitas) não lhes pertencem, fazem apenas parte de uma suposta zona neutra, de segurança, continua a ser fomentado com grandes custos ao nível dos efectivos do exército.

Bom, vamos lá ter alguma esperança que sejam todos eles iluminados pelo bom-senso em prol das populações.

 
At 5:30 da tarde, Blogger Alda M. Maia said...

Li com muita atenção o que escreveu.
Vou-lhe traduzir uma afirmação do conhecidíssimo escritor israelita Abraham Yehoshua:
“A paz é um desafio com si mesmos, com os medos, as desconfianças. A paz é libertar-se destes medos e também reconhecer as razões – não somente a existência – dos outros. Mas a paz é também libertar-se da obsessão da própria força”.
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Não acha que deu um retrato, bem crítico, do próprio país?

A criação dos colonatos foi uma das iniciativas mais estúpidas que Israel pôs em prática. Serviu apenas para exasperar cada vez mais o ódio dos vizinhos e conceder pretextos, neste caso justos, para que os fundamentalistas avançassem.
Confesso-lhe que chego a duvidar que ambas as partes - e refiro-me àquelas que devem decidir - desejem, verdadeiramente, um acordo.

Se dependesse da grande parte da população, a que não tem preocupações de ganhar eleições e que deseja sinceramente a paz, isto é, a de Israel(os fundamentalistas israelitas também existem... e representam votos); se dependesse das populações moderadas que não vêem o problema sob o ponto de vista religioso (Palestina), penso que já de há muito se estaria em bom caminho.

Um beijinho

 
At 10:52 da tarde, Blogger Menina_marota said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 10:53 da tarde, Blogger Menina_marota said...

"...Nunca simpatizei com as pessoas que se recusam a observar os factos nas suas diversas facetas, nas suas opostas razões."

Ora aí está...

Por mais que eu leia sobre o assunto, por mais que ouça debates das situações, é difícil estar na pele de ambos os lados...

Eu sou a favor da PAZ, mas quem faz a guerra tem muitos interesses, a começar pelos económicos.

Um abraço carinhoso e grata por não me ter retirado dos favoritos :)

Um bom ano de 2009

 
At 7:08 da tarde, Blogger Alda M. Maia said...

Foi, efectivamente, com muito gosto que a vi de volta à blogosfera, Menina Marota.

Relativamente às suas considerações, as munhas perplexidades crescem a cada momento: deve-se imolar tantos inocentes por fanatismos, interesses económicos e síndromes de insegurança?
Que humanidade tão estúpida, não acha?
Obrigada pela sua visita.
Um beijinho

 
At 12:47 da tarde, Blogger as-nunes said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 12:55 da tarde, Blogger as-nunes said...

Alda, Bom Ano de 2009, assim o desejo...se calhar vou ficar por aqui, pelo desejo a esta distância.

Vim aqui dar com este seu artigo e, como sempre, vim beber informação e conhecimentos de quem sabe observar e analisar. E não tem papas na língua.
Se me permite vou colocar um link deste artigo no meu blogue.
Imprescindível.
Muito me conta da sua amizade com o "Judeu errante". Assisti ao lançamento dum seu livro aqui em Leiria, até trocámos umas impressões sobre blogues...mas, de vez em quando entro em choque com ele. Que é uma pessoa de grande inteligência e alto gabarito não duvido. Reconheço inequivocamente os seus méritos.
Um grande agraço
António

 
At 4:21 da tarde, Blogger Alda M. Maia said...

Bom 2009, António!

Não, não se trata desse Judeu Errante, que não conheço.
Referi-me a um advogado aqui de Famalicão, velhos conhecidos (embora eu seja mais velha), de uma família muito amiga.
Quando se quer divertir e exprime comentários contra certos discos rotos, que repetem sempre o que vem na cartilha das opiniões partidárias, nesta matéria identifica-se como Judeu Errante.

Sempre grata pela atenção que lhe mereço.
Um beijinho à Zaida e um abraço a toda a Família.

 
At 4:28 da tarde, Blogger as-nunes said...

Vejo que topou a quem me referia.
Coincidências!
Entretanto, a metralha continua!...
António

 
At 3:04 da tarde, Blogger as-nunes said...

Viva Alda

Espero que esteja bem de saúde. Pelo que tenho observado, sem grande tempo para comentários, o que vai voltar a ser possível dentro em pouco, continua na forma do costume, na qualidade e acuidade dos seus textos.

Beijinho, continua por Braga?
António

 
At 3:05 da tarde, Blogger as-nunes said...


A ideia era rever um texto seu escrito em 2009 a propósito da eterna questão da Palestina e dos Israelitas...

 

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