domingo, fevereiro 10, 2008

CONTINUEMOS AINDA NO TEMA PRECEDENTE

“A corrupção é um crime contra a humanidade”: título de uma entrevista feita a um magistrado suíço (Espresso.repubblica.it).

Muito a propósito sobre as actuais “boas” intenções, debatidas pelos nossos representantes, na Assembleia da República ou em conciliábulos externos. Até mesmo através dos jornais!...

São meses e meses que giram à volta do problema corrupção sem que as medidas, justas e equilibradas para o combater e prevenir, tomem forma e sejam, finalmente, escritas e postas em prática.
Escrevi a palavra “boas” entre aspas, porque o minuete das conversações mais parece uma discussão sobre o sexo dos anjos que uma intenção séria de criar situações transparentes em tudo o que diga respeito à coisa pública.

Deixa-me muito, mas muito perplexa, a atitude do Partido Socialista.
Não compreendo os débeis argumentos que sempre opõe a toda e qualquer proposta sobre este assunto. Não se apercebe que envia péssimos sinais ao País?

Medo de abrir o “vaso de Pandora”?
Não querem alterar o status quo?
Entendem que basta a Magistratura para resolver esta praga que, embora comum a todos os países, deve ser enfrentada com determinação? E a nossa Magistratura terá os instrumentos necessários e a preparação cultural adequada para cortar a direito?
Crê que a política deva lavar-se as mãos, sendo ela o principal vaso de cultura dessa malvada planta daninha que sufoca, e por vezes paralisa, a Administração Pública?

Mas vamos à entrevista.

"Bernard Bertossa foi Procurador da República em Genebra, durante 12 anos. É o magistrado-símbolo da revolução legal que transformou a Suíça. Assumiu o cargo quando a Confederação Helvética tinha fama de cofre-forte do dinheiro sujo.
Aposentou-se há um mês, precisamente quando a Suíça, agora, é tomada como modelo pelos magistrados de todo o mundo.
As suas investigações mudaram as leis, abalaram as consciências de políticos e banqueiros, puniram ditadores sanguinários e enriqueceram populações oprimidas.

Finalmente, livre de poder falar abertamente, declara-se optimista e adverte que há ainda muito que fazer para combater a corrupção

As perguntas tocam várias situações. Alguns exemplos:
.
Existe uma escala de dificuldades nas investigações sobre políticos?
Há três categorias de casos.
Primeiro: o corrupto já não está no poder e os sucessores estão decididos a fazer limpeza. É o caso de Roldan, na Espanha.
Segundo: o corrupto perdeu o poder, mas os sucessores não inspiram muito mais confiança. É o caso da Rússia e do México.
Terceiro: o corrupto ainda está no poder. É o caso do Cazaquistão; esta é a investigação mais difícil.

Onde coloca a Itália?
(Uma gargalhada) Depende de quem vence as eleições.

Foi vítima de pressões, ameaças ou intimidações?
Pessoalmente, não.Houve pressões diplomáticas sobre o Governo suíço. Todavia, este sempre respondeu que a magistratura é independente. E é verdade. Penso que, depois do massacre de Falcone e Borsellino, os criminosos compreenderam que assassinar um magistrado é contraproducente. É preferível criticá-lo pelos custos das investigações e porque perde tempo com a corrupção em vez de investigar sobre a pequena criminalidade … Mas tive a sorte de nunca dever investigar sobre um político da direita”.
(Cheira-me a estocada a um certa situação italiana!...)

Porquê?
Eu sou socialista. Ganhei três eleições. A eleição popular dos magistrados é garantia de legitimidade e independência. O problema é um Procurador da República escolhido pelo governo.

A corrupção, no mundo, aumenta ou diminui?
Todos os Estados estão envolvidos. Para que haja corrupção, é necessário que sejam em dois: os corruptos são, principalmente, os Países pobres. Os corruptores, normalmente, são os Países ricos.
A mim parece que se trata de um problema tão grave como o aquecimento do Globo. Pela primeira vez na história, hoje temos um tribunal internacional permanente para os crimes contra a humanidade. Por que não deveríamos considerar também a corrupção como um delito contra a humanidade?"

****

Crime contra a humanidade?! Asserção provocatória ou digna de ser tomada em consideração? E por quem?
Nem Diógenes, munido com os mais potentes holofotes, seria capaz de encontrar esses corajosos e tenazes propulsores de uma tal iniciativa e de levá-la a bom fim. E se os encontrasse, não escapariam a um tremendo fogo de barragem!
Mas o melhor é seguirmos o exemplo do emérito Procurador Bernard Bertossa e cultivar um são optimismo.
Alda M. Maia

2 Comments:

At 2:15 da tarde, Blogger Menina_marota said...

Excelente texto!
Parabéns e grata por o partilhar.
Um abraço

 
At 6:18 da tarde, Blogger Alda M. Maia said...

Obrigada pelo seu comentário.
Aprecio o seu blog e leio-a sempre com simpatia.
Um abraço
Alda

 

Enviar um comentário

<< Home