segunda-feira, outubro 09, 2006

GIOVANNI FALCONE
O CORAJOSO JUIZ QUE ENFRENTOU “COSA NOSTRA” (MÁFIA)


Nos dias um e dois deste mês, a RAI transmitiu, em duas partes, um filme dedicado ao célebre juiz: “Giovanni Falcone, l’uomo che ha sfidato Cosa Nostra”.

Como já esperava, a audiência foi elevada e o filme merecia essa atenção. Óptimos actores, narração fiel à realidade dos factos.

Conforme seguia o desenrolar da revivência do que tinha sido a época Falcone, portanto uma destemida luta contra a máfia, os factos, nomes e as figuras das pessoas assassinadas, tudo me veio à memória.
De novo, se apresentou a nítida impressão da solidão na qual agiam aqueles homens corajosos e da passividade, ou mesmo indiferença, do Estado.

O mesmo já sucedera ao General Carlo Alberto Dalla Chiesa, o qual chegou à Sicília, em Abril de 1982, com o fim de chefiar uma nova estrutura de combate à máfia e nomeado sem as mínimas condições e meios para o cumprimento da missão de que fora incumbido. “Sem poderes e sem poder coordenar os homens das instituições presentes na ilha”.
A poucas semanas da sua chegada à Sicília, numa entrevista ao jornalista e escritor Giorgio Bocca – podemos imaginar com qual amargura – disse: “Desde que aqui estou, ninguém me telefona. Deixaram-me só. Escreva-o, Bocca e faça-o saber”
Foi assassinado, pela máfia, juntamente com a esposa e o agente que lhe servia de escolta, em Setembro de 1982!

O juiz Giovanni Falcone e um outro juiz não menos corajoso, Paolo Borsellino, o qual trabalhou lado a lado do primeiro com a mesma persistência e sentido do dever, ficaram na história do combate àquela “Universidade do Crime Organizado” que é Cosa Nostra, como um símbolo de magistratura integérrima e arrojada - que este último adjectivo não pareça retórico, porque o não é!

O biénio 1982-83 mostrou a Sicília como um sangrento teatro de homicídios em cadeia: não somente lutas entre mafiosos que se contendiam o poder, como assassínios de magistrados e funcionários da polícia.

Em 1983, O alto magistrado Antonino Caponnetto, transferido, a seu pedido, de Procurador-Geral de Florença para o Tribunal de Palermo a fim de substituir Rocco Chinnici, assassinado pela máfia, criou o famoso “pool anti-máfia”: um grupo de quatro ou cinco magistrados que se ocupavam, exclusivamente e a tempo inteiro, dos processos de máfia, mediante subdivisão de tarefas, mas dentro de uma total harmonia de decisão e sob a responsabilidade do “Consigliere Istruttore”, Caponnetto.
Este primeiro grupo de juízes instrutores era formado por Giovanni Falcone, Paolo Borsellino, Giuseppe Di Lello e Leonardo Guarnotta, sendo Falcone o juiz de maior vulto.
Na Itália, a magistratura é mista; não há divisão (espero que assim continue)

Estes juízes foram admiráveis: no empenho tenaz como desenvolveram uma missão perigosíssima – caminhavam num terreno semeado de bombas; na renúncia a uma vida tranquila: para eles e para as próprias famílias. Mas os frutos desse empenho viram-se no que ficou conhecido como maxi-processo: 456 imputados, sob prisão, acusados de pertencerem à organização mafiosa.
Receberam graves ameaças e sabiam que as não deveriam ignorar. O Estado italiano convidou-os, com as respectivas famílias, a transferirem-se para a penitenciária da ilha de Asinara e assim, tranquilamente, terminarem a instrução do grande processo. Aí permaneceram por algumas semanas. O Estado não se esqueceu, depois, de apresentar-lhes a conta… pelas “férias” na ilha! Custou-me a acreditar, mas asseguram que é verdade.

O processo concluir-se-á em 1987: 19 prisões perpétuas ("ergastolo") – todos componentes da cúpula de Cosa Nostra; 338 condenados em vários anos de prisão – um total de 2665 anos de cárcere; 114 arguidos absolvidos. Um destes, apenas foi desencarcerado, caiu debaixo de uma saraivada de balas.
Os dois magistrados que prepararam e tornaram possível o maxi-processo foram Falcone e Borsellino.

Pela primeira vez, tornou-se realidade a figura de um membro da máfia arrependido: Tommaso Buscetta. Extraditado dos Estados Unidos para a Itália, quando se decidiu a contar o que sabia, e sabia muito, só quis falar com Giovanni Falcone. A sua confissão, mais tarde a deposição, foram arrasadoras para a máfia.

As revelações que fez, pormenorizadas e nas quais explicou o que verdadeiramente era e é a organização de Cosa Nostra, constituíram o “abre-te sésamo” para entrar no labirinto, até então impenetrável, dos segredos desse polvo.
Máfia e mafioso são termos literários, jornalísticos, asseverou ele. Os “ilustres” criminosos identificam-se somente como “uomini d’onore” (homens de honra), membros de Cosa Nostra.
Mas sobre a constituição e os rituais de Cosa Nostra, escreverei proximamente.

Quando o juiz Falcone se deslocou a Roma para o interrogatório, que durou vários meses, Buscetta advertiu-o: “Depois destes interrogatórios, Sr. Juiz, tornar-se-á uma celebridade, mas a sua vida ficará marcada. Procurarão destruí-lo, física e profissionalmente. Não esqueça que as contas com Cosa Nostra nunca permanecem fechadas”. Ainda é de opinião que deve interrogar-me?” O juiz Falcone começou a interrogá-lo.

Giovanni Falcone morreu assassinado, em 23 de Maio de 1992, na auto-estrada Trapani-Palermo, zona Capaci. Uma potentíssima bomba, com telecomando a distância, fora ali colocada. Se essa não desse o resultado esperado, outra mais à frente estava pronta para explodir.
Neste atentado, morreu Falcone, a esposa (também magistrado) e três agentes da escolta, além de muitos feridos

O seu amigo e colaborador, o juiz Paolo Borsellino, morreu em 19 de Julho de 1992, 57 dias depois, pela explosão de um automóvel armadilhado, perto da casa onde vivia. Morreu juntamente com os seis agentes da escolta.

Actualmente, o aeroporto da Sicília chama-se Aeroporto Falcone/Borsellino.
Alda M. Maia