segunda-feira, novembro 07, 2011

O POLÍTICO E O ESTADISTA

Mas que diferença se poderá estabelecer entre o político e o estadista, se a ideia que estes dois termos sugerem os coloca no mesmo campo, isto é, na administração e elevação da coisa pública?
Um grande político italiano do pós-guerra sintetizou magistralmente essa diferença, muito citada, desde então, tanto é pertinente quanto sempre actual nas nossas democracias.

O político pensa nas próximas eleições. O estadista pensa nas gerações futuras” – Alcide De Gasperi.

Olhando o panorama dos dirigentes políticos europeus e mundiais, é bem difícil encontrar uma figura que avulte por originalidade e profundidade de pensamento político ou seja, estadistas que pensem nas gerações futuras.
È bem difícil seleccionar líderes clarividentes que sejam capazes de actos corajosos e ponderados e com total desprezo por cálculos oportunistas, eleitorais ou, simplesmente, cálculos de estúpido e cego egoísmo nacional.

Crise económica, crise financeira, crise de inteligências políticas; só não há crise no vasto sector da mediocridade.
Dezenas de opinionistas, analistas e observadores, de há uns tempos a esta parte, insistem no diagnóstico deste estado deprimente da política europeia. Só agora se aperceberam?

Achei interessante a conclusão a que chegou o primeiro-ministro do Luxemburgo, Jean-Claude Juncker: “Todos sabemos perfeitamente o que fazer. O que não sabemos é como fazer-nos reeleger depois de o ter feito”.
A corroborar tal asserção, Fernando Henrique Cardoso concluiu: “O problema da Europa é ter muitos políticos e nenhum estadista”.

Contra as reformas estruturais urgentes que endireitariam e fariam navegar em águas seguras o barco europeu encalhado, opõe-se o medo das opiniões públicas. Este receio, sempre de carácter eleitoralista, seria fácil de esvaecer com uma informação ampla e honesta da parte de quem deve tomar decisões. Mas estas informações, quase sempre, são transmutadas em conselhos genéricos e advertências retóricas que poucos apreendem. 

Elegemos políticos, convencidos que escolhemos homens (ou mulheres) de Estado, mas o que enviamos para o Parlamento são elementos do aparelho: elementos que os respectivos partidos escolheram, seja por fidelidade ou utilidade para o partido, seja como uma espécie de prémio.
Escolheram os melhores e mais bem preparados política, jurídica, académica e culturalmente? Uma forte dúvida é permitida.

Quando voto, nunca tenho a certeza ou convicção que dei um voto a um estadista; apenas sei que voto num partido e em políticos. Mas tanto podem ser políticos normais, como verdadeiros estadistas, como politicantes (a maioria) e politiqueiros, que também não escasseiam.

Viremo-nos para a nossa Europa. Sempre fui uma europeísta convicta e entusiasta. Talvez porque a pude seguir através de sólidos estadistas europeus que marcaram uma época.

Avaliemos, agora, a Senhora Merkel e Sarkozy nos incríveis ziguezagues que humilham a Europa. Observemos a desenvoltura, ignorando as Instituições europeias, como se improvisaram “directório”, mas sem a grandeza de estadistas. Consideremos a pequenez e arrogância – esta apenas estribada na importância económica - como enfrentaram e enfrentam estas malditas dívidas soberanas que, se não fosse a mediocridade do duo Merkozy, por si só nunca ascenderiam a peso máximo desta gravíssima crise. Após todas estas considerações, o desconforto avassala-nos.

Deixa-me desconcertada a passividade dos outros países da zona euro que têm as contas públicas em ordem.
Todos muito encurralados nos seus egoísmos, nas suas convicções que são superiores a estes estúpidos PIGS, no seu europeísmo oportunista. Os dirigentes destes países não têm opiniões construtivas, não têm sentido europeu e consciência do que muito devem à União Europeia?

Uma palavrinha sobre o cai e não cai de Berlusconi.
In the name of God, Italy and Europe, go – Financial Times, de há dias.

Mas não se demite: “Bem gostaria de abandonar tudo e retirar-me, mas pensando na Itália, nos meus filhos, nas minhas empresas …”
Está tudo esclarecido. Como se houvesse dúvidas!...
“Não me demito. Quero olhar de frente quem me trairá”. Agora é delírio! A Itália não merece isto!

Amanhã será um dia crucial, se já hoje não se verificar a queda que todos esperam. Bem gostaria de, na próxima semana, poder escrever: ALELUIA! O homem foi derrubado por uma moção de censura. Acontecerá?

Termino com uma citação de um artigo de hoje, no jornal La Stampa:
[…] Infelizmente, o elenco é próprio de uma comédia de Ionesco: Berlusconi, Papandreou, Herman Achille Van Rompuy, «Sarkel» ou «Merkozy» não parece que estejam em condições de mudar de registo ou tornar-se actores sérios.” – Francesco Guerrero (redactor-chefe do Wall Street Journal)

2 Comments:

At 12:54 da manhã, Blogger as-nunes said...

"só não há crise no vasto sector da mediocridade"

Então quer dizer, o snr. Berllusconi lá foi à vidinha dele, que tem as suas empresas a requererem mais da sua atenção!

Mas que raio de Europa é esta, comandada por uma elite de fachada!

Será assim tão difícil pôr o BCE a funcionar como deve ser, a impor regras aos seus associados, e a impor alguma moral nos agiotas financeiros mundiais? Ou será que são os próprios accionistas principais do BCE que também estão interessados em que se cobrem bons juros aos países (alguns, os do costume, de origem latina) em dificuldades?

Isto é que vai uma crise.

Abraço, Alda, os meus cumprimentos pelo artigo

 
At 6:48 da tarde, Blogger Alda M. Maia said...

Boa Tarde, António.

Pelo contrário, António, são as empresas dele que o fazem agarrar-se afincadamente ao poder. Berlusconi entrou em política precisamente para melhor defender e ampliar os seus negócios, além de arquitectar e fazer aprovar leis que que lhe garantissem a fuga à justiça.
Acredite que é caso único!

Quanto à nossa Europa, repare no modo improvisado como Merkel e Sarkozy enfrentam os problemas. Se ao menos falassem com mais equilíbrio e ponderassem o que dizem!...

O BCE, em vez de ser verdadeiramente um banco central da zona euro e ter os poderes de um banco central inglês ou americano, por exemplo, para os alemâes deve somente preocupar-se com a inflação.
É decepcionante como toda esta crise tem sido encarada.

Um abraço e um beijinho à Zaida
Alda

 

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