segunda-feira, janeiro 15, 2007

MORRER NO HOSPITAL POR FALTA DE HIGIENE!...

A revista italiana “L’Espresso”, de 05/01/2007, publica uma ampla reportagem sobre a falta de higiene de um dos maiores hospitais italianos: “Policlínico Umberto I”, em Roma.
O título desta reportagem já era bem elucidativo: “Policlínico dos Horrores”.
No jornal “La Repubblica”, do mesmo dia, lia-se, em letras garrafais:
“Hospitais sem higiene; morre-se - 7 000 vítimas por ano devido a infecções / Ausência de respeito pelas regras. Sob acusação, médicos e enfermeiros”.

Um jornalista de L'Espresso, Fabrizio Gatti, fingindo-se empregado de limpeza, por um mês – em Dezembro passado - com uma pequena máquina fotográfica digital e máquina de filmar escondidas, pôde fotografar e filmar situações e hábitos profundamente negativos, inimagináveis em qualquer hospital, muito menos no grande e prestigioso "Hospital modelo da Universidade La Sapienza!"
.
Ninguém se apercebeu de nada. Lendo toda a reportagem, no “Umberto I”, pelos vistos, não há quem controle o que quer que seja.

As anomalias que o jornalista descreve e documenta são impressionantes. Traduzo algumas:
“De 4 a 29 de Dezembro, o laboratório de Física Sanitária, frequentemente apresentava-se sem nenhuma vigilância e com o frigorífico e os armários abertos,
não obstante a presença de substâncias radioactivas";
"O depósito de culturas de bactérias e vírus do departamento de doenças infecciosas e tropicais não tem fechadura:
sem vigilância, o congelador com as provetas a risco de contágio está sempre acessível a quem quer que seja";
"Por três dias, ninguém limpou os excrementos que, no dia 26 de Dezembro, um cão vadio deixou num corredor que é usado para transportar doentes de um departamento a outro";
"È normal ver enfermeiros e maqueiros a fumar, mesmo quando empurram macas ou cadeiras com doentes";
"Dezenas de pontas de cigarro, atiradas para o chão, foram varridas para um canto próximo de Pediatria”;
"De cada vez que sobem ou descem das salas de reanimação, urgências, salas operatórias, as pessoas hospitalizadas, inclusive as mais graves, seguem o mesmo percurso por onde passa toda a espécie de lixo”… etc., etc., etc. A soma das indecências é elevada.

De tudo o que li, o que mais me escandalizou foi a individuação dos agentes violadores de normas que deveriam ser rígidas e obrigatórias: médicos, enfermeiros e demais pessoal que, diariamente, lida com os doentes. Agentes que, dada a formação profissional, mais do que ninguém deveriam observar e fazer respeitar regras que, ao fim e ao cabo, não se concebe possam ser traídas num hospital.

A média dos doentes vítimas de infecções hospitalares é de 6,7% - mais ou menos a média internacional. Para mim, 1% já seria de mais!
Torna-se deprimente saber que tais infecções poder-se-iam reduzir de um terço se os médicos respeitassem rigorosamente o preceito da lavagem das mãos, quando devem visitar um doente

“As últimas análises de comportamento de médicos e enfermeiros – entre as quais a que foi publicada no «International Journal of Infections Disease» – revelam que, em dez, só quatro lavam as mãos correctamente antes de visitar ou intervir num doente”. Encorajador!...

Certamente, nunca se deve generalizar. Conheço óptimos hospitais e médicos ou enfermeiros fora de todas as críticas; bem pelo contrário!

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O jornal Público dedicou a este assunto dois artigos. Mais ou menos descreveu a “galeria dos horrores”, noticiando também que o Ministro da Saúde italiano – uma senhora, Lívia Turco – tinha mandado efectuar uma inspecção a todos os hospitais do país.

Qualquer bom jornalista do Público não gostaria de emular o seu colega Fabrizio Gatti e, nos nossos hospitais, lançar-se numa aventura semelhante?
Que género de reportagem apresentaria?
Quanto a higiene, encontraria tudo impecável ou, pelo menos, aceitável? Encontraria situações isentas de quaisquer reprovações, seja em organização, eficiência, dedicação ao doente da parte do pessoal médico e paramédico?
Qual a percentagem dos hospitalizados portugueses que contraem infecções e sucumbem?

Esse mesmo jornalista poderia preparar e pôr em acto uma iniciativa de tal género? Poderia publicá-la?
Serei injusta, mas nutro fortes dúvidas.

Há uns anos atrás, houve um Ministro da Saúde italiano que, sem avisar ninguém, de vez em quando visitava os vários hospitais espalhados pelo país e, em cada hospital, percorria todas as secções.
O nosso Ministro da mesma área não sentiria tentações de imitar o colega italiano?
Os bons exemplos mereceriam ser conhecidos e cultivados
Alda M. Maia