segunda-feira, maio 02, 2011

VENTOS REACCIONÁRIOS NA EUROPA

Populismo ou ventos reaccionários? Serão equivalentes, mas as extremas-direitas, actualmente em auge na Europa - não esquecendo o indigesto Tea Party americano - provocam uma grave inquietação. E para quem nasceu e se tornou adulto dentro de fascismos, franquismos, salazarismos e afins, além de inquietude, a repulsa sobrepõe-se a qualquer outro sentimento.

Os países nórdicos que sempre considerámos democraticamente sólidos e onde a social-democracia melhor expressou os seus valores, hoje movem-se dentro de uma política condicionada por uma extrema-direita impensável no último meio século passado.
Observemos estes dados, sobre os partidos nacional-populistas, que o jornal La Repubblica publicou há dias, dando-lhe o título “A onda negra na Europa”:

Suécia: “Os Democráticos da Suécia” superaram os 5,7%, entrando no parlamento.
Dinamarca: o “Partido Popular”, anti-islâmico e anti-imigração, é a terceira força política do país.
Holanda: em 2010, o “Partido da Liberdade Holandesa” tornou-se no terceiro partido com 15,5%.
França: em 2010 em eleições autárquicas, “Frente Nacional” de Marine Le Pen, ganhou 15% no primeiro turno e 12% no segundo.
Itália: “Liga Norte”, 8,3% nas últimas legislativas (xenófobos e grosseiros)
Finlândia: “Os Verdadeiros Finlandeses”, eurocépticos e anti-imigração. São a terceira força política do país com 19%.
Suíça: na Assembleia Federal o “Partido do Povo” tem a maioria com 28,9%.
Áustria: o “Partido da Liberdade”, fundado por Jörg Haider, obteve 25, 8% em 2010.
Roménia: nas europeias de 2010, o partido “Grande Roménia”, obteve 8,66%.
Hungria: Com 16,7% dos votos o reaccionário “Jobbik” (o partido que festejou o aniversário de Hitler) entrou no parlamento o ano passado.

O que se passa na Hungria – Presidente de turno da União Europeia e membro da Nato - com a recente aprovação de uma nova Constituição fora de todos os cânones democráticos, é indigno de um país membro da União Europeia. Mas para a União, as dívidas soberanas são motivo de maior alarme e preocupação. O resto são bagatelas.

Este país, governada por uma maioria de dois terços, institucionalizou uma autêntica ditadura: limites à informação, ao Tribunal Constitucional, à magistratura; deixou de ser considerada uma república, mas uma nação étnica (o orgulho da nação magiar) de raízes cristãs; hostilidade a ciganos e imigrantes, enfim, todos os requisitos de um país autoritário, estúpido e racista.
Torna-se legítimo perguntar por que razão não se conhecem protestos oficiais ou quaisquer outras iniciativas da Comissão Europeia!

Não se pode compreender e é difícil de aceitar que os europeus sofram de memória tão curta, quando reduzem a simples facto histórico a imane tragédia da Segunda Guerra Mundial e a espécie de regimes que a provocaram. E todavia, não decorreram séculos, mas sete décadas.

Segundo rezam as crónicas, grande parte da população europeia assusta-se com as novas realidades impostas pela globalização e ondas migratórias.
Em vez de se refugiarem em nacionalismos egoístas, retóricas populistas, racismos intoleráveis, por que não abrem as mentes e começam a fazer "praça limpa" dos extremistas que exploram esses medos e, de caminho, as mediocridades políticas que pretendem governá-las?

Não repararam que os actuais líderes políticos europeus se assemelham na estreiteza como reagem a populismos (quando não são eles os populistas, obviamente) e se submetem à prepotência da especulação financeira, a um capitalismo árido e sôfrego, em vez de impor uma política equilibradora?

Não acham, estas populações, que a mediocridade política que assola, presentemente, esta nossa Europa é uma das principais causas da inquietação que as agita?
Não se apercebem que a baixa estatura política de uma Merkel, Sarkozy, Cameron, Berlusconi (este é um caso anómalo) e quejandos não é capaz de compreender esses medos e debelá-los com rasgos de uma política de vastos horizontes e transformar os problemas ínsitos na globalização em vantagens globalizadas?

Dizem que a social-democracia está morta ou moribunda. Oxalá que essa morte seja mais aparente que real.
E oxalá, também, que a política comece a ser praticada apenas como um serviço, um alto serviço. Quando a maioria dos políticos se compenetrar e for impulsionada por esta concepção, podemos ter a certeza que os extremismos serão mais folclóricos que perigosos.

2 Comments:

At 9:55 da tarde, Blogger as-nunes said...

Ou seja, Alda, temos a Europa invadida por uma gigantesca onda reaccionária!

Esperemos que seja somente uma onda passageira, que rapidamente se transforme em espuma!...

Cruzes canhoto!

Com amizade

 
At 2:49 da tarde, Blogger Alda M. Maia said...

Olá, António!

O seu "Cruzes, canhoto" fez-me rir. Mas olhe que foi mais expressivo do que se tivesse escrito dois ou três parágrafos.

Bem, não se tratará de uma gigantesca onda, mas é muito mais do que se desejaria e onde menos se esperava.

Não gosto, odeio extremismos. Logo, não me agrada nada o que se passa por essa Europa fora. Demasiados partidos racistas.

Conforta-me a impressão que, no nosso país, ainda estamos imunes dessa praga.
Haverá qualquer estúpido, mas, em geral, distinguimo-nos pelo melhor.

Um abraço

 

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